Qual a guerra de versões sobre o programa nuclear iraniano

Israel acusa Irã de mentir e de violar acordo nuclear de 2015, pressionando os EUA a abandonar as negociações

 

O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, disse nesta segunda-feira (30) ter provas de que o governo do Irã está burlando o acordo nuclear que foi firmado em 2015 com os governos de EUA, França, Reino Unido, Alemanha, Rússia e China.

A denúncia de Netanyahu foi imediatamente rebatida pelo chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, que chamou o primeiro-ministro de Israel de um “mentiroso” que se dedica a “enganar e assustar a opinião pública internacional”.

O bate-boca tem como pano de fundo o debate sobre a manutenção do acordo atômico que foi firmado há três anos e que, dentro de duas semanas, pode vir a ser derrubado unilateralmente pelos EUA, que é a maior potência envolvida no trato.

Esse acordo tem por objetivo relaxar embargos e sanções impostos contra o Irã ao longo dos anos como forma de evitar que o regime persista num projeto de desenvolver armas atômicas.

Mapa mostra a localização do Irã
 

Quais as acusações israelenses

“O Irã mentiu. E muito. Temos 100 mil documentos que provam que eles mentiram”, disse Netanyahu, durante uma palestra de 30 minutos, feita em inglês, com apoio de PowerPoint, fotos e gráficos, destinada a influenciar a decisão que deve ser tomada pelos EUA dentro de 12 dias sobre permanecer ou não no acordo.

A explanação de Netanyahu foi feita num palco, diante de um cenário composto por dezenas de pastas de arquivo e CDs nos quais, de acordo com ele, estavam contidos documentos secretos do programa nuclear iraniano obtidos pelo Mossad, o serviço de inteligência de Israel.

Todo esse material, prova, segundo o premiê de Israel, que os iranianos continuaram desenvolvendo o programa nuclear nacional chamado Projeto Amad, criado em 2003, mesmo depois da assinatura do acordo de 2015, que previa o congelamento das atividades.

Israel considera o Irã uma ameaça, e vem pressionando por ações militares contra o país. Para Netanyahu, a eleição de Donald Trump nos EUA é uma oportunidade de derrubar um trato que se mostrou permissivo demais em relação a um regime pouco confiável e que corre contra o tempo para desenvolver a capacidade de realizar ataques com armas atômicas na região.

Qual a réplica iraniana

 

“A única coisa que temos visto da parte de Netanyahu são mentiras e ações para enganar e assustar a opinião pública internacional. Mas essas mentiras não ficarão sem resposta”, disse o chanceler iraniano na sede da ONU, em Nova York.

“Há 22 anos o regime sionista mente, repetindo continuamente que o Irã terá a bomba atômica em seis meses. Netanyahu é o homem mais isolado da ONU”, afirmou Zarif.

O regime iraniano também se pronunciou por órgãos oficiais, como a agência de notícias Fars, que chamou o discurso de Netanyahu de “programa de propaganda”.

O vice-chanceler iraniano, Abbas Araqchi, disse que a “apresentação ridícula” de Netanyahu foi calculada para anteceder a decisão dos EUA de permanecer ou não no acordo.

Qual o papel de Trump e dos EUA

 

O presidente dos EUA, Donald Trump, critica o acordo com o Irã desde a campanha eleitoral, em 2016. Eleito, manteve o tom crítico, referindo-se ao trato como “terrível”, “insano”, ridículo” e como algo que “nunca deveria ter sido feito”.

Israel e EUA são aliados próximos e costumam agir em sintonia na região, embora sem alinhamento automático. A exposição de Netanyahu teve por intenção criar um ambiente favorável para uma decisão americana de derrubar o acordo.

Após a palestra de Netanyahu, os EUA precisaram se explicar sobre um episódio confuso. Na segunda-feira (30), a Casa Branca havia publicado um comunicado no qual afirmava que o governo iraniano “tem” um programa nuclear em curso. O verbo foi, em seguida, alterado para o tempo passado, “tinha”, e o governo americano atribuiu a confusão a um “erro tipográfico”.

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, disse que já tinha conhecimento de parte dos documentos apresentados pelo governo israelense, mas que novas investigações são necessárias.

De onde vem o desencontro entre o Irã e o Ocidente

A construção da atual política externa iraniana está feita sobre uma base de quase 70 anos de ressentimento com o Ocidente, especialmente com os EUA e o Reino Unido.

A origem desse sentimento está num episódio ocorrido em agosto de 1953, quando serviços secretos americanos e britânicos tiraram do poder o premiê iraniano Mohammad Mossadegh, que havia sido democraticamente eleito três anos antes.

Laico e popular, Mossadegh defendia a nacionalização da exploração de petróleo pelos próprios iranianos, e não mais por empresas estrangeiras.

A retirada de Mossadegh do poder fortaleceu o monarca Mohammad Reza Pahlavi, que, respaldado pelas potências estrangeiras, sufocou a dissidência interna, iniciando um período de violenta autocracia.

O governo Pahlavi era visto por setores nacionalistas como um governo entreguista e subserviente às potências estrangeiras desde sempre – não apenas diante de americanos e britânicos, mas também, antes disso, diante dos soviéticos, que também haviam tratado o Irã como área de influência.

Além dos nacionalistas, que passaram a pregar uma linha acentuadamente independentista e de ruptura com soviéticos e com americanos e britânicos, Pahlavi também sofria pressão dos setores religiosos, que manifestavam contrariedade com a ocidentalização dos costumes no país.

Esse movimento culminou, em 1979, com a chamada Revolução dos Estudantes ou Revolução dos Aiatolás, que marcou a queda de Pahlavi e a ascensão de um regime fechado, nacionalista e teocrático, no qual os líderes xiitas, chamados aiatolás, têm poderes especiais sobre a vida política do país.

É com esse regime e com esse passado que EUA, Israel, França, Reino Unido e outras potências têm de lidar agora, quando tentam frear o programa nuclear iraniano.

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