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Como um livro de 1915 imaginou uma sociedade utópica só de mulheres

Publicado originalmente em formato de folhetim, ‘Herland’, da escritora americana Charlotte Perkins Gilman, ganhou nova edição brasileira em 2018

     

    Um dos clássicos da literatura feminista utópica – tradição que data, pelo menos, desde o século 17 – o romance “Herland”, da escritora, poeta e ativista americana Charlotte Perkins Gilman foi escrito em folhetins em 1915, mas publicado como livro apenas em 1979.

    Esgotado há muito tempo no Brasil, o livro ganhou uma nova edição em 2018, com o título “Herland – A Terra das Mulheres”, pela editora Via Leitura, e se tornou, em menos de um mês, um dos 20 mais vendidos do catálogo da editora.

    Em 2015, “O Papel de Parede Amarelo”, outra obra importante da autora feminista, havia ganhado uma edição digital pela Balão Editorial e foi publicada, também em edição impressa, pela editora José Olympio em 2016.

    A (re)descoberta de Gilman no Brasil não é casual: acontece em um momento de reverberação intensa das pautas feministas em discussões virtuais e entre as novas gerações.

    Literatura utópica

    Autores de textos literários utópicos de diferentes épocas idealizaram sociedades imaginárias, tratando, em suas obras, de questões como igualdade, diferença, relações de produção, convivência, modelos de governo e liberdade.

    Na literatura utópica feminista, a preocupação central é a criação de um mundo melhor para as mulheres, uma sociedade em que elas cumpram papéis distintos, alternativos, em relação aos que estavam em geral submetidas na época e contexto vividos pelas autoras.

    A terra das mulheres

    No romance de Gilman, três amigos aventureiros viajam em busca de um país de mulheres, mencionado por um guia nativo durante uma expedição.

    A trama, centrada no olhar masculino do narrador – um dos três viajantes, o sociólogo Vandyck Jennings –, conduz o leitor pela descoberta desse país de mulheres, e caminha para uma mudança de percepção dos forasteiros com relação a suas “anfitriãs” e, por extensão, sobre o que o gênero feminino pode fazer.

    Abaixo, o Nexo selecionou trechos da obra que descrevem a organização social e outros aspectos do país das mulheres imaginados por Gilman.

    Paisagem

    Logo no segundo capítulo, com a chegada dos três à terra das mulheres, o lugar é descrito de maneira idílica.

    “Tudo era beleza, ordem, limpeza e a sensação agradabilíssima de um lar. Conforme alcançávamos o centro da cidade, as casas ficavam mais próximas, como se fossem palácios agrupados entre parques e praças, prédios de universidades com tranquilas áreas verdes”, diz o narrador.

    “Era evidente que se tratava de um povo altamente qualificado e eficiente, que se dedicava a seu país como um jardineiro se dedica às suas orquídeas mais caras.”

    Primeiro contato

    Recepcionados pelas habitantes, sentem um grande estranhamento com relação a sua aparência, suas roupas, sua expressão.

    “Eram todas mulheres, mas… não eram jovens, não eram velhas, não eram, no sentido feminino da palavra, bonitas. Não eram nem um pouco ferozes. Ainda assim, enquanto olhava de rosto em rosto, calmo, grave, sábio, totalmente destemido, evidentemente seguro e determinado, tive uma estranha sensação (...), a sensação de estar terrivelmente enganado”.

    Maternidade e cuidado

    Moadine, personagem que é uma das tutoras encarregadas de instruir os visitantes a respeito de sua sociedade, diz aos viajantes: “Aqui temos uma irmandade humana em funcionamento. Nada além da irmandade literal da nossa origem, e da união mais profunda e elevada de nosso crescimento social. As crianças neste país são o centro e o foco de todo pensamento”.

    O narrador explica adiante – “O que elas chamavam de maternidade era assim: começara com um alto nível de desenvolvimento social, como no Egito ou na Grécia antigos. Então viera a perda de tudo o que era masculino (...). Depois, elas desenvolveram a capacidade de, ainda virgens, gerar filhos. Como a prosperidade das crianças dependia daquilo, a mais perfeita e sutil coordenação entrou em vigor.”

    O cuidado com as crianças era uma responsabilidade coletiva. Todas as filhas eram de todas, e gerar uma descendência não era compulsório, era uma escolha.

    Educação

    Todas as mulheres tinham bastante conhecimento sobre diversas áreas. “Descobrimos que o que uma sabia todas sabiam, em grande medida”, diz o narrador.

    “Algumas sabiam muito mais que outras sobre certo tópico – tinham especialidades, é claro. Mas todas sabiam muito sobre tudo, ou seja, sobre tudo o que era relativo ao seu país – o que não acontecia conosco.”

    Leis

    Moadine explica: “Não temos leis com mais de cem anos. A maioria tem menos de vinte”.

    Além da revisão e reelaboração permanente da legislação, a harmonia e a irmandade estavam instauradas a ponto de seus visitantes constatarem ser uma sociedade na qual não existia medo.

    Religião, poder e irmandade

    “Não tinham inimigos; eram todas irmãs e amigas”, descreve o narrador. “Elas não tinham guerras. Não tinham reis, clero nem aristocracia. Eram irmãs e cresciam juntas – não através da competição, mas da ação conjunta.”

    “A religião delas era muito parecida com a da Grécia Antiga, com inúmeros deuses e deusas; mas as mulheres perderam todo o interesse nas divindades da guerra e da violência, e gradualmente focaram na Deusa-Mãe. Então, conforme avançaram intelectualmente, sua religião se tornou uma forma de panteísmo materno.”

    Quem foi Gilman

    Nascida em 1860 nos EUA, Charlotte Perkins teve uma infância e juventude turbulentas. O pai abandonou a família quando ainda era criança, deixando sua mãe em situação precária.

    Com isso, duas tias paternas passaram a ter maior participação em sua educação: uma delas era Harriet Beecher, precursora da educação feminina nos Estados Unidos; a outra, Isabella Beecher, militante dedicada do movimento sufragista.

    Ao final da adolescência, Gilman já refletia seriamente sobre as injustiças sofridas pelas mulheres, segundo o posfácio da edição brasileira de “O Papel de Parede Amarelo”, da acadêmica feminista Elaine Hedges.

    Obteve educação formal em diferentes instituições e frequentou o Rhode Island Institute of Design, formando-se artista. Casou-se em 1884 e se divorciou três anos mais tarde, quando o divórcio era considerado um escândalo.

    Antes do fim de seu casamento, sofreu um colapso nervoso que inspiraria “O Papel de Parede Amarelo”, de 1892.

    Escreveu poesia, foi colabora assídua de publicações, apresentou palestras pelo país sobre trabalho, ética e o lugar da mulher na sociedade e escreveu, em 1898, o manifesto “Women and Economics”, um chamado radical à necessidade de independência financeira das mulheres, que teve grande repercussão e foi traduzido para várias línguas.

    Continuou publicando nas primeiras duas décadas do século 20 e editou a revista Forerunner.

    Gilman defendia a eutanásia para doentes terminais e foi diagnosticada com um câncer incurável na década de 1930. Suicidou-se alguns anos depois, em 1935.

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