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O que é speedrun. E como essa modalidade de jogo funciona

Para terminar jogos de videogame no menor tempo possível, jogadores treinam exaustivamente os mesmos títulos, buscando atingir a perfeição

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    Entre os vários possíveis caminhos até o final de um jogo de videogame, existem, pelo menos, duas escolhas. Enquanto alguns buscam explorar o novo universo ao máximo, investigando cada detalhe e completando todos os objetivos possíveis, há quem prefira chegar o quanto antes ao desfecho da história. O conceito de speedrun se aplica ao segundo grupo. Nessa modalidade de gameplay, popular principalmente nos Estados Unidos, a corrida contra o relógio é o principal desafio.

    A ideia é que, treinando um mesmo game repetidas vezes, o jogador consiga replicar os movimentos necessários para terminá-lo no menor tempo possível. Graças a esse estudo aprofundado, quem pratica speedrun acaba encarando os jogos de forma diferente de jogadores convencionais. Otimizar o tempo gasto através de rotas alternativas, atalhos e novos caminhos é essencial para se estabelecer novos recordes.

    Como um erro de percurso pode significar horas de trabalho desperdiçado, quem pratica o speedrun tem o hábito de registrar suas várias tentativas por vídeo. É comum o uso de sites de transmissão em tempo real, como o twitch, onde os treinos são assistidos por usuários de todo o mundo. Caso consigam melhorar seu tempo, o filme pode servir para comprovar a façanha, passando a integrar rankings on-line mantidos por comunidades de jogadores - o mais famoso deles, do site Speedrun.com.

    Nessas comunidades, recordes estão constantemente sobre análise, sendo revistos e atualizados por novos desafiantes. Só o Speedrun.com conta com mais de 135 mil usuários do mundo todo (são mais de 4.000 brasileiros), boa parte deles ativa diariamente.

    Abaixo, é possível assistir a um exemplo desse tipo de gameplay. Em sua segunda tentativa, o americano SethBling consegue terminar Super Mario World (1990), um dos títulos mais populares do Super Nintendo, em pouco mais de 42 segundos. A marca, estabelecida em março, representa o atual recorde mundial da categoria.

     

    A busca por atalhos

    A cena dos créditos que indica o término do jogo vem ainda na primeira fase. Não é necessário passar pelos 7 castelos e quase 100 estágios originalmente previstos para a história. Basta que o personagem salte de sua montaria e caia em cima da moeda no tempo e lugar exatos. A pergunta que fica é: como isso é possível?

    Para facilitar a tarefa, jogadores de speedrun costumam recorrer a certos atalhos. Há truques que tornam possível avançar partes enormes dos games, encurtando o trajeto, enquanto outros levam diretamente para a última fase, por exemplo. Entre eles, destacam-se os bugs e glitches, que podem ser definidos como:

    • Bug: erro na programação do jogo. A expressão costuma ser utilizada para descrever falhas não intencionais - se o personagem desaparece após determinada interação com o cenário e retorna em um ponto diferente do original, por exemplo.
    • Glitch: Provocado pelo jogador e que ocasiona uma falha na programação do jogo. Normalmente, refere-se a um movimento brusco/repetitivo e pontual, que leva o cenário a se comportar de forma não convencional - como permitir que um personagem atravesse paredes, por exemplo.

    Embora certas modalidades de speedrun não permitam esses recursos, a utilização de bugs e glitches do jogo não é considerada trapaça. Encontrar essas brechas ajuda a expandir as possibilidades de um game e é um trabalho constante, que faz com que usuários revisitem jogos clássicos. Alguns títulos são especialmente mais jogados em speedrun, como as séries The Legend of Zelda, Super Mario e Pokémon, por exemplo, todas com algumas décadas de existência.

    Experiências recentes mostram que mesmo jogos que estão há vários anos no mercado ainda têm segredos a serem descobertos. Em 2017, um novo glitch descoberto em Legend of Zelda: Ocarina of Time, jogo lançado em 1998, permitiu que novos recordes de velocidade fossem estabelecidos.

    Além da nostalgia, a preferência pode ser explicada pelo acesso mais fácil a esses games por meio de emuladores - programas que permitem que jogos feitos para consoles antigos rodem em computadores convencionais.

    A quantidade de informação acumulada, no entanto, já começa a servir para questionar até que ponto jogadores humanos conseguirão melhorar suas marcas em certas franquias. Em Super Mario Bros 3, por exemplo, o recorde mundial rondava a casa dos 4 minutos desde 2016, e está hoje em 3 minutos e 4 segundos. Segundo estimativas, o tempo mínimo de conclusão que pode ser atingido são 3 minutos e 2 segundos.

    As variedades de speedrun

    Enquanto alguns jogos podem ser completados em milissegundos, há outros que se estendem por até dezenas de horas. O tempo gasto depende dos critérios considerados e das especificidades de cada jogo, mas existem alguns parâmetros comumente encontrados em competições e vídeos gravados por speedrunners, nome dado aos jogadores da modalidade.

    • Any%: finalizar o jogo por completo, o que pode envolver coletar todos os itens e atingir ao máximo todas as habilidades, por exemplo
    • 100%: fechar o jogo desbloqueando todos os itens e tesouros escondidos existentes
    • Low%: cumprir toda a história com a menor quantidade possível de recursos
    • Glitchless: completar sem utilizar quaisquer tipos de glitches ou atalhos não previstos na programação original do jogo

    Normalmente, jogadores costumam se especializar em um dos tipos, focando seu treinamento apenas em fazer o menor tempo possível, ou para otimizar sua busca por itens, por exemplo. Em competições do gênero, dois jogadores costumam disputar em tempo real o mesmo jogo, na busca pelo menor tempo - o que é conhecido como race.

    Há vários exemplos de “runs” em canais do YouTube, como o mantido pelo Games Done Quick. O grupo, baseado nos Estados Unidos, realiza desde 2011 eventos como a SGDQ (Summer Games Done Quick) e AGDQ (Awesome Games Done Quick). Suas maratonas, que costumam contar com centenas de jogadores e espectadores, têm o hábito de destinar o dinheiro arrecadado a entidades beneficentes.

    A prática do speedrun no Brasil

    No Brasil, destacam-se no segmento eventos como o BAT (Brazilians Against Time), feito em São Paulo, e o “Speedendê”, de Salvador, marcado para setembro. A 3ª edição do Brazilians Against Time, realizada em março, contou com 55 jogos e aproximadamente 40 jogadores. Segundo Hugo Carvalho, diretor de eventos e CEO da BAT, os quase R$ 27.000 arrecadados com o torneio foram doados à ONG Médicos Sem Fronteiras.

    Entre os presentes, estava o estudante de zootecnia Igor Guimarães Moreira. Natural de Salvador, Igor fez sua primeira run em 2014. Desde então passou a praticar o gênero em alguns de seus títulos preferidos.

    “O que eu posso dizer é que Super Bomberman 4 eu tentei zerar aproximadamente 2000 vezes, mas só devo ter concluído cerca de 60 runs”, disse ao Nexo. “Com cerca de 1.300 tentativas, outro jogo que joguei muito foi The Legend of Zelda: Link’s Awakening, em que finalizei aproximadamente 80 vezes.”

    A repetição do mesmo roteiro durante anos surtiu efeito. Sob o apelido SerelepeMarsupial, Igor detém o atual recorde mundial em Super Bomberman 4, com o tempo de 19 minutos e 52 segundos. A conquista aconteceu há pouco mais de um mês, e foi registrada no vídeo que você pode assistir abaixo.

     

    Em The Legend of Zelda: Link’s Awakening, o estudante é o 6º colocado no mundo, com o tempo de 48 minutos e 37 segundos. O campeão atual da modalidade concluiu o jogo em 44 minutos e 11 segundos.

    “Eu às vezes me comparo a um velocista quando estou fazendo speedrun. Da mesma forma que eles se esforçam para serem mais rápidos, eu também me esforço para conseguir tempos baixos”, diz. “A satisfação pessoal que você obtém depois de tanto esforço após conseguir um tempo melhor compensa toda a longa trajetória.”

     

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