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O que o Pulitzer de Kendrick Lamar diz sobre o artista. E sobre o próprio prêmio

Rapper se tornou o primeiro artista popular da música a ser laureado desde que a categoria musical foi criada em 1943

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    Anunciado no dia 16 de abril, o Pulitzer de 2018 premiou o álbum “DAMN.”, de 2017, do rapper Kendrick Lamar. É a primeira vez que o prêmio é entregue a um artista de outro gênero que não a música clássica ou o jazz. 

    Estabelecida em 1917, a premiação americana é concedida a autores por trabalhos de excelência nas áreas de jornalismo, literatura e composição musical.

    A categoria musical foi instituída em 1943 e costuma premiar obras de música clássica contemporânea.

    O álbum de Lamar foi definido pelo Pulitzer como “uma coleção virtuosística de canções unificadas por sua autenticidade vernacular e dinamismo rítmico que captam a complexidade da vida afro-americana moderna”.

    Os outros dois trabalhos finalistas, ambos de música erudita, com quem o disco de hip hop concorreu, foram “Quartet”, do compositor, regente e pianista Michael Gilbertson, apresentado por um quarteto de cordas, e “Sound from the Bench”, do compositor, regente e cantor Ted Hearne – uma cantata (tipo de composição vocal com acompanhamento instrumental) em cinco atos.

    O álbum de Lamar

    “DAMN.” é o quarto álbum de estúdio do rapper americano de Compton, na Califórnia. No site especializado Pitchfork, o crítico Matthew Trammell classificou o trabalho, com suas “rimas furiosas” e “narrativa inigualável”, como uma obra-prima do gênero. 

    Segundo Trammell, Lamar articula, em (muitas) palavras, as especificidades íntimas de ter crescido no lugar onde cresceu, com a necessidade de se defender diariamente do seu entorno.

    O álbum, em que o título de todas as faixas segue o formato de uma palavra em caixa alta com ponto final, fala de um país dividido, desigual, que relega a população negra ao estrato mais subalterno da sociedade.

    Na comparação com sua obra anterior, “To Pimp a Butterfly”, de 2015,  feita pelo repórter de hip hop da NPR, Rodney Carmichael, o Kendrick Lamar de “DAMN.” parece derrotado, deprimido, possesso, enquanto a capa de seu trabalho anterior traz uma imagem exultante do rapper com os amigos, tomando o gramado externo aos portões da Casa Branca, durante o governo do ex-presidente Barack Obama.

    Nos EUA e também no exterior “DAMN.” foi um dos álbuns mais celebrados do ano. Figurou no topo de todas as principais listas de melhores discos de 2017, permaneceu no top 10 da Billboard por mais de seis meses, foi indicado a sete categorias do Grammy e premiado em cinco delas, apesar de não ter levado a principal, a de álbum do ano. 

    A apreciação da crítica em relação ao trabalho do rapper cresce a cada novo álbum. Próximo de seu aniversário de meio século, o gênero também tem sido mais reconhecido, em sua importância estética, política e histórica, pelas honrarias musicais do mainstream.

    O perfil do Pulitzer de música

    As obras agraciadas com o prêmio desde meados do século 20 são predominantemente homogêneas em termos de gênero musical, gênero e raça dos artistas.

    Mesmo o jazz tornou-se “aceito” pelo prêmio apenas mais recentemente: o primeiro artista do gênero a ganhar um Pulitzer foi Wynton Marsalis, em 1997.

    Três décadas antes, em 1965, o júri havia recomendado premiar o maestro, pianista e compositor de jazz Duke Ellington, mas o conselho, instância de decisão superior aos jurados, não acatou a sugestão.

    Além disso, a premiação de uma mulher na categoria de música ocorreu somente em 1983 e a de um artista negro, apenas em 1996.

    Na análise da colaboradora Doreen St. Félix à revista The New Yorker, o Pulitzer concedido a Lamar é um evento mais significativo para a história do prêmio do que para a carreira do artista.

    Para St. Félix, Lamar, aos 30 anos, ainda irá, provavelmente, se tornar ainda maior e superar suas composições já lançadas. Para o prêmio centenário, o reconhecimento de Lamar é o ponto fora da curva que reflete uma série de mudanças ocorridas entre o fim da década de 1990 e o início dos anos 2000, no sentido de ampliar os gêneros contemplados.

    Trata-se de um movimento semelhante ao Prêmio Nobel de Literatura dado a Bob Dylan em 2016.

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