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O livro infantil que incentiva meninas negras a amarem seu cabelo crespo

Lançado em março, poema ilustrado de bell hooks está entre as poucas obras da teórica feminista e intelectual americana publicadas no Brasil

    Praticamente nenhuma obra da escritora, professora e intelectual afro-americana bell hooks (ela escreve mesmo com letra minúscula) foi traduzida e publicada no Brasil. De sua produção teórica, “Ensinando a Transgredir” é o único reeditado recentemente, em 2017.

    Uma nova porta de entrada para seus escritos foi lançada em março de 2018 pelo Boitatá, selo infantil da editora Boitempo.

    O livro infantil “Meu Crespo é de Rainha”, publicado pela primeira vez nos EUA em 1999, é um poema de hooks que enaltece o cabelo natural e os penteados de meninas negras. A obra conta com ilustrações do também americano Chris Raschka.

    Foto: Reprodução/Cedido pela editora Boitempo
    Páginas do livro 'Meu Crespo é de Rainha'
    Páginas do livro 'Meu Crespo é de Rainha'
     

    Nascida Gloria Jean Watkins, hooks adotou como pseudônimo o nome de sua bisavó materna, escrito sempre em minúsculas - transgressão gramatical que indica, segundo ela, que o essencial é o conteúdo de seus livros, e não quem os escreveu.

    O feminismo, a intersecção entre raça e gênero, a pedagogia engajada e a representatividade na política são alguns dos temas de seus livros e artigos.

    A questão da autoestima

    Na quarta capa do livro, a empresária e influenciadora digital Ana Paula Xongani escreve que, com ele em mãos, crianças negras teriam “mais ferramentas para reverter o processo histórico de invisibilidade” a que estão submetidas.

    Em entrevista ao Nexo, Xongani explica que o processo a que se refere é “o apartamento da beleza negra” do conceito geral de beleza.

    “A gente sabe que as crianças negras não se veem representadas na mídia, nos livros, nos livros didáticos. Elas não estão ocupando esse lugar do belo, do carinhoso, do bonito. É esse o processo de invisibilidade. Ser uma criança negra no Brasil significa crescer sem se ver”, disse. 

    “É importante que a gente veja pessoas parecidas com a gente para construir a nossa autoimagem”, diz Xongani. “É um processo de invisibilidade imagética principalmente, mas que constrói todo o imaginário social.”

     

    Para ela, imaginar que uma ativista com trabalhos tão contundentes como os de hooks também se dedicou a um livro infantil dá a real dimensão da importância de se pensar o processo de construção da autoestima da população negra desde a infância.

    Foto: Reprodução /Cedido pela editora Boitempo
    Páginas do livro 'Meu Crespo é de Rainha'
    Páginas do livro 'Meu Crespo é de Rainha'
     
    “Toda menina, toda criança, quer se sentir bonita, pertencente, adequada, existente na sociedade em que vive. Poder proporcionar para as meninas negras esse grau de existência, de se ver em um livro infantil, em um livro belo, bem escrito, com ilustrações incríveis, que falam dela mesma, é sem dúvida uma forma de lhes oferecer autoestima. E a autoestima é transformadora. Dá a elas a oportunidade de vidas melhores, mais saudáveis, emocional e psicologicamente. Possibilita sonhar, construir um imaginário positivo de si mesmo.”

    Ana Paula Xongani

    Empresária e influenciadora digital

    O lugar do cabelo

    Por se inserir no debate racial, a valorização do cabelo crespo natural não trata apenas de estética.

    Pelo menos desde a década de 1960, movimentos como o Black Power e Negro é Lindo, surgidos dentro do movimento negro, buscam a valorização e a transformação da imagem e autoimagem das pessoas negras na sociedade. 

    “É como se o cabelo fosse o florescer dessas discussões. Como se fosse a autoafirmação disso. Quando uma mulher começa a deixar seus cabelos crespos, a assumir a transição capilar, é um processo de dentro para fora, um processo interno que se revela no exterior da cabeça”, diz Ana Paula Xongani.

    Foto: Reprodução/cedido pela editora Boitempo
     

    Xongani define a aceitação do crespo como um processo de ressignificação do belo e, por extensão, da própria existência. “Quando a gente pode existir com o nosso cabelo natural, a gente pode existir com o nosso corpo natural. Falar do cabelo, sem dúvida, é uma forma de falar de todo esse movimento social e político de autoaceitação e reconstrução do povo negro e de sua história no Brasil”, disse. 

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