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A plataforma de streaming com filmes feitos por ou sobre indígenas

Organização Vídeo nas Aldeias, do antropólogo Vincent Carelli, disponibiliza acervo on-line com produções feitas também em parceria com indígenas

Desde que começou a documentar o cotidiano de diferentes povos indígenas no Brasil, o antropólogo e cineasta francês Vincent Carelli formou um arquivo com mais de oito mil horas de filme. Além de todo o material captado por ele, há dezenas de produções feitas pelos próprios indígenas, as quais, desde a segunda-feira (16), se tornaram acessíveis na internet por meio de uma plataforma de streaming.

A disponibilização do acervo do Vídeo nas Aldeias, nome do projeto fundado por Carelli em 1986, surge como forma de geração de receita para a entidade que promove há mais de 10 anos a formação de cineastas indígenas. De acordo com o projeto, mais de 127 oficinas já foram feitas envolvendo mais de 40 povos.

Em 2016, ano em que produções do Vídeo nas Aldeias integraram a mostra da Bienal de São Paulo, Carelli falou ao Nexo sobre as dificuldades financeiras pelas quais passava a organização por falta de apoio.

“Temos algum apoio para fazer filmes, vindo do Funcultura [edital para o audiovisual do estado de Pernambuco], mas não pra fazer formação que é o nosso diferencial”, disse o antropólogo na época.

A plataforma recém-lançada oferece, entre produções de Carelli, diretores não-indígenas e indígenas, 88 filmes para streaming por meio do sistema “on demand” do Vimeo. Os valores de aluguel ou compra dos filmes vão de US$ 1 a US$ 4. A verba arrecadada será distribuída entre o cineasta indígena (35%), a comunidade registrada (35%) e o projeto Vídeo nas Aldeias (30%), para “ações” e “manutenção do acervo”.

“Em um momento de grave retrocesso dos direitos fundamentais dos povos indígenas no país, a expressão audiovisual torna-se estratégica, rompendo com as narrativas hegemônicas e criando espaços de legitimação, visibilidade e ressonância da diversidade cultural destas populações e de suas demandas”, diz a entidade em publicação que pede por doações.

“Essa coleção apresenta filmes que remontam às origens do projeto, desde as primeiras experiências com a câmera como ferramenta de luta política e revitalização cultural, passando pela troca de imagens entre as aldeias, culminando na formação de cineastas indígenas, num processo de criação colaborativa entre indígenas e não-indígenas nas comunidades. Mais do que um registro de culturas, esses filmes revelam visões de mundo múltiplas e complexas, que resistem à invisibilidade e ao apagamento a que têm sido historicamente submetidos os povos nativos no Brasil”

Vídeo nas Aldeias

Texto de apresentação do projeto

Acervo sob demanda

No mês de lançamento da plataforma, o filme “Martírio” (2016) – premiado no Festival de Brasília, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no festival recifense Janela – tem acesso gratuito (por meio do código promocional “KAIOWA”).

O filme retrata a “grande marcha de retomada dos territórios sagrados Guarani Kaiowá” na década de 1980. “Vinte anos mais tarde, tomado pelos relatos de sucessivos massacres, Carelli busca as origens deste genocídio, um conflito de forças desproporcionais: a insurgência pacífica e obstinada dos despossuídos Guarani-Kaiowá frente ao poderoso aparato do agronegócio”, diz a sinopse.

Além dele, há outros exemplos de produções do acervo do Vídeo nas Aldeias.

As hiper mulheres

Dirigido por Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro, esse documentário de 2012 (de 1 hora e 20 minutos de duração) retrata a preparação de um ritual do povo Kuikuro chamado Janurikumalu, “o maior ritual feminino” da região do Alto Xingu (MT).

Marangmotxingmo Mïrang - Das crianças Ikpeng para o mundo

Neste premiado média-metragem de 35 minutos, produzido pelo povo Ikpeng, no Mato Grosso, quatro crianças apresentam o dia a dia da sua aldeia. “Com graça e leveza, elas mostram suas famílias, suas brincadeiras, suas festas, seu modo de vida”, diz a sinopse.

Já me transformei em imagem

Produzido pelo povo Huni Kuin, localizado entre o estado do Acre e o vizinho Peru, este documentário de 32 minutos conta com o relato dos indígenas sobre a sua própria história. “Do tempo do contato, passando pelo cativeiro nos seringais, até o trabalho atual com o vídeo, os depoimentos dão sentido ao processo de dispersão, perda e reencontro”.

 

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