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Por que a capa de um quadrinho premiado foi censurada no Pará

Arte do romance gráfico ‘Castanha do Pará’, vencedor do Jabuti, foi retirada de exposição em shopping em Belém

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    Foto: Reprodução
    Arte da capa do quadrinho 'Castanha do Pará', de Gidalti Júnior, censurada em exposição em Belém
    Arte da capa do quadrinho 'Castanha do Pará', de Gidalti Júnior, censurada em exposição em Belém
     

    A arte que ilustra a capa do quadrinho “Castanha do Pará”, de Gidalti Oliveira Moura Júnior, foi retirada de uma exposição que reunia ilustrações de outros autores do gênero no Parque Shopping Belém, no Pará.

    A imagem, que mostra um policial perseguindo o garoto protagonista da história, no tradicional mercado público Ver-o-Peso, foi criticada por policiais militares na internet.

    “Castanha do Pará” é o primeiro trabalho de Gidalti Jr.. Ele nasceu em Belo Horizonte (MG), mas mudou-se para Belém ainda criança. Hoje ele mora em São Paulo.

    Em 2017, ano em que a Câmara Brasileira do Livro incluiu quadrinhos entre as categorias do Prêmio Jabuti, Gidalti Jr. foi o vencedor. A história foi feita em aquarela, e o livro é fruto de uma campanha de financiamento coletivo.

    Ao Nexo o autor conta ter sido avisado por telefone na segunda-feira (16), em sua casa. “Eu fui informado da questão logo cedo, mas a capa já estava fora da exposição”, disse.

    Em nota oficial, a organização da exposição afirmou que a decisão foi tomada em razão de “manifestações de frequentadores do shopping que se sentiram incomodados com a cena de violência, no espaço que é frequentado por crianças”.

    A exposição estreou na sexta-feira (13). De acordo com Gidalti Jr., publicações na internet feitas por militares e PMs teriam motivado a retirada.

    No Facebook, um grupo chamado “Guerreiros do Pará”, que divulga conteúdos relacionados às atividades da Polícia Militar no estado, compartilhou o texto de um oficial, que se dizia “furioso” com a exposição.

    “Eu como policial que trabalha junto com os feirantes do Ver-o-Peso me SENTI OFENDIDO. Se ninguém do Comando da PM, associações, ou qualquer representante político não processar. Eu vou processar”, diz a publicação.

    Na terça-feira (17), o grupo compartilhou uma notícia sobre a remoção da obra e comemorou. “Após pressão da página Guerreiros do Pará, o Shopping removeu desenho (sic)”, diz. “Parabéns a (sic) direção do Parque Shopping, pela atitude certa.”

    O Parque Shopping declarou em nota que “apenas cedeu o espaço” para a exposição. Já o grupo Coletivo Cultural, responsável pela organização da mostra, disse que outra obra de Gidalti Jr. será colocada no lugar.

    Foto: Reprodução
    Página do quadrinho 'Castanha do Pará', de Gidalti Júnior
    Página do quadrinho 'Castanha do Pará', de Gidalti Júnior

    Censura e ‘vitória da ignorância’

    Após ser informado da remoção da obra, o autor se manifestou pelas redes sociais. Ao lado de uma foto que mostra o espaço onde estava exposta a arte do seu livro, Gidalti Jr. declarou “total repúdio aos conceitos arbitrários que classificaram a imagem como uma ofensa à polícia militar”.

    O artista diz ainda que a remoção da obra vai contra a liberdade de expressão e diz que o ato representa uma “vitória parcial da ignorância, do medo e de forças antagônicas à liberdade”.

    “A obra é ficcional, tem caráter lúdico e expõe situações rotineiras nas metrópoles brasileiras. Quem a compreendeu como apologia ao crime e/ou a desmoralização da polícia militar, o faz de forma leviana e sem ao menos ler o livro”, afirmou.

    Ao Nexo, o autor de 34 anos disse que as manifestações contra a arte da capa do seu livro premiado “são interpretações extremamente tendenciosas e absurdas”.

    A obra, diz ele, não pretende fazer uma crítica a nenhuma instituição. “Mas mesmo se ela fosse uma crítica endereçada a qualquer uma delas, seja a polícia, o Senado ou a imprensa, eu acredito que o direito à livre expressão artística, a liberdade de expressão, deveria prevalecer”, diz.

    Para ele, a retirada da arte da exposição foi “precipitada”. “O shopping se intimidou e prevaleceu a censura.” Entre os críticos, há pessoas que assumem não saber do que a obra se trata, nem que ela tem um contexto dentro da ficção inserida no quadrinho.

    Segundo o autor, o quadrinho tem caráter juvenil-adulto e conta a história de um jovem chamado Castanha que vive nas ruas de Belém, sobrevivendo de pequenos furtos praticados no mercado do Ver-o-Peso. O livro é descrito como “uma comédia dramática” que “explora um dia na vida desse personagem marginalizado por sua condição social e pelo descaso do Estado”.

    A história, – “ironicamente”, diz o autor – tem dois policiais entre os personagens. Um trabalha no mercado e quer pegar o garoto Castanha a qualquer custo. O outro é um policial que investiga o paradeiro do menino “e é o personagem mais humanizado da história”.

    Foto: Reprodução
    Crianças, como Castanha, foram representados como seres antropomórficos
    Crianças, como Castanha, foram representados como seres antropomórficos

    “Algumas pessoas ligadas à Polícia Militar já se manifestaram corrigindo as críticas, apontando que elas não têm fundamento. No fim, a situação toda se mostrou irônica e patética”, diz Gidalti Jr., que também afirmou que não tomará qualquer medida em relação à censura e que está satisfeito com a repercussão gerada.

    “As pessoas que repudiam a censura a obras artísticas foram implacáveis, foi um movimento colossal em defesa da liberdade de expressão. Acho que isso para mim já é suficiente”, conclui.

    Depois do Prêmio Jabuti, Gidalti Jr. foi convidado a ilustrar animações de uma nova série televisiva em parceria com o grupo AfroReggae chamada “Fui Bandido”, que estreia em junho na Multishow. O programa contará “a história de oito ex-criminosos, do eixo Rio-São Paulo, que cumpriram pena e recomeçaram suas vidas”. Além disso, o autor diz estar trabalhando em um novo quadrinho, ainda sem prazo para conclusão.

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