Ir direto ao conteúdo

Como Dona Ivone Lara abriu caminho para as mulheres no samba

Primeira mulher a assinar um samba-enredo cantado na avenida, ela se tornou a maior compositora e melodista do gênero

    Temas
     

    Dona Ivone Lara morreu na noite de segunda-feira (16), no Rio de Janeiro. A sambista estava internada havia duas semanas, devido a uma infecção renal, e sofreu uma parada cardiorrespiratória. Completou 97 anos no último dia 13.

    Ganhou epítetos como “dama” e “rainha” do samba por sua trajetória pioneira: foi a primeira mulher a integrar a ala dos compositores de escola de samba e a ser reconhecida como compositora em um meio até então exclusivamente masculino, como define Mila Burns na dissertação de mestrado da UFRJ “Nasci para sonhar e cantar – Gênero, projeto e mediação na trajetória de Dona Ivone Lara”.

    Na década de 1940, participou da fundação da escola carioca Império Serrano. Por conta do machismo no samba, suas primeiras composições foram apresentadas como sendo de autoria de seu primo, o também compositor Mestre Fuleiro.

    Em 1965, tornou-se a primeira mulher a assinar um samba-enredo oficial – “Os Cinco Bailes da História do Rio”, criado em parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau.

    ‘Bambas do samba’

    As mulheres estiveram presentes desde as origens do samba, no século 19. Nessa época, a criação do gênero musical era coletiva, dava-se em rodas das quais participavam tanto mulheres quanto homens.

    Grande parte das escolas de samba foram, além disso, fundadas por elas, segundo a tese da pesquisadora Jurema Pinto Werneck, citada no livro “As Bambas do Samba - Mulher e Poder na Roda”, publicado em 2016 pela editora da Universidade Federal da Bahia.

    Ainda segundo Werneck, o que aconteceu não foi um afastamento radical das mulheres negras do mundo do samba, mas o apagamento de seu protagonismo e a redução de sua participação no samba aos “requebros e meneios”.

    A influência de Dona Ivone

    Embora outras compositoras tenham precedido Dona Ivone na música brasileira, como Chiquinha Gonzaga (1847-1935), no samba, a atuação e reconhecimento delas ainda eram raros.

    Segundo a jornalista e pesquisadora Mila Burns, os papéis principais do samba, “que exigem bom desempenho intelectual e liderança”, eram, em geral, reservados ao gênero masculino.

    “Restam à mulher as figuras da intérprete, da dançarina, da conselheira ou, ainda, da musa. Carmen Miranda, Aracy de Almeida, Clara Nunes, Linda Batista, Beth Carvalho, Alcione e outras das maiores intérpretes brasileiras cantam samba. Mas são poucas as que dão voz a suas próprias músicas.”

    Mila Burns

    Na dissertação “Nasci para sonhar e cantar”, sobre Ivone Lara

     

    Compositoras contemporâneas de samba, como Ana Costa, Telma Tavares e Teresa Cristina citam Dona Ivone entre suas referências fundamentais e reconhecem, nas entrevistas presentes na pesquisa de Burns, que o caminho trilhado por ela facilitou o de suas sucessoras, ainda que continuem enfrentando dificuldades.

    3 momentos da carreira

    Formação

    Nascida em 13 de abril de 1921, Yvonne Lara da Costa veio de uma família de sambistas e chorões. Seu pai era mecânico de bicicletas e violonista de sete cordas autodidata. Participava assiduamente de ranchos de carnaval, onde conheceria a mãe da compositora, cantora amadora do rancho, como empregada doméstica e costureira.

    Aos 6 anos, Lara ficou órfã de pai e mãe e, logo depois, passou a ser interna no Colégio Orsina da Fonseca no Rio de Janeiro, onde viveu até os 17 anos.

    Foi no internato que se deu sua formação musical erudita, que se somaria ao aprendizado popular nas rodas de choro e de samba junto à família. Entre as professoras, estavam a pianista Lucília Villa-Lobos e a soprano Zaíra de Oliveira.

    Aos 12 anos criou sua primeira composição, “Tiê”, sobre um passarinho. Na infância, também aprendeu a tocar cavaquinho com o tio.

    Depois do internato, entrou na Escola de Enfermagem Alfredo Pinto e se formou enfermeira em 1943. Nessa época, ela já começara a compor as próprias melodias com certa frequência, mas ainda não mostrava as composições para ninguém.

    Tinha receio de serem rechaçadas de antemão pelo fato de terem sido criadas por uma mulher, mas desejava que suas músicas fossem ouvidas e apreciadas. Propôs ao primo, Mestre Fuleiro, que apresentasse suas canções como sendo dele. Foi o que passou a fazer sempre que a prima chegava com alguma novidade.

    “Era um sucesso. Ele tocava e todo mundo gostava, elogiava, perguntava de onde ele tinha tirado a ideia. Eu ficava de perto, vendo aquilo, ouvindo o que diziam, e pensando que era tudo meu.”

    Dona Ivone Lara

    Em entrevista à pesquisadora Mila Burns

    Compositora nas horas vagas

    Trabalhando como enfermeira, o samba ficava restrito ao tempo ocioso, aos momentos de folga do trabalho. 

    Continuou compondo, e o trabalho só era mostrado, ocasionalmente, a pessoas muito próximas. Ter um emprego estável e independência financeira eram então suas prioridades.

    Em 1945, cursou uma especialização para se tornar assistente social. Assim que a concluiu, em 1947, foi contratada como funcionária do Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro, onde permaneceu até se aposentar, em 1977. Nise da Silveira foi sua supervisora no serviço social.

    O ano de 1947, em que ela também se casou com Oscar Costa, é considerado também o início de sua carreira artística: foi quando passou a integrar oficialmente, com o mesmo poder decisório que os homens, a ala dos compositores do Império Serrano. Elas eram exclusivamente masculinas em todas as escolas de samba da época.

    Conciliava sempre as rodas de samba ao trabalho e programava as férias para o mês de fevereiro, para conseguir participar dos desfiles de carnaval, mas ainda não atuava profissionalmente como compositora.

    Primeira gravação

    No final da década de 1960, Lara fez shows históricos, com plateias repletas de figuras importantes do meio musical, entre artistas e jornalistas.

    Após mais de três décadas integrando a ala dos compositores da escola de samba Império Serrano, ela passou a ser admirada também fora da comunidade do samba.

    Em 1970, foi lançado “Sambão 70”, o primeiro álbum da artista, com Clementina de Jesus e Roberto Ribeiro, pela gravadora Copacabana.

    Aposentadoria e dedicação em tempo integral

    Em 1977, aos 56 anos, Dona Ivone se aposentou da carreira de enfermeira e assistente social e passou a se dedicar integralmente à atividade de compositora.

    No ano seguinte, viria o disco solo “Samba, minha verdade, minha raiz”, em que aparecem composições com seu maior parceiro, Délcio de Carvalho.

    Também nessa fase, suas músicas passaram a ser gravadas por diversos artistas, como Elizeth Cardoso, Cristina Buarque de Hollanda, e Maria Bethânia e Gal Costa, que, em dueto, consagraram “Sonho Meu”. 

    Gravou outros discos até a virada dos anos 1980, quando sua presença na televisão e nos jornais aumentou. Nessa década, gravou uma sequência de álbuns de grande sucesso: “Sorriso Negro”, “Alegria minha gente” e “Ivone Lara”.

    Em 1997, depois de alguns anos sem gravar composições inéditas e com a comemoração de seus 80 anos de vida e 50 anos de carreira, passou a se apresentar com frequência no exterior. Também como parte da celebração, a Sony Music lançou “Bodas de Ouro”, com a participação de vários artistas interpretando suas canções.

    Em 2016, a compositora foi homenageada na cerimônia da Ordem do Mérito Cultural, em Brasília. No mesmo ano, aos 95, participou do encerramento da Virada Cultural paulistana, em um show em sua homenagem, e do show “Damas Negras do Samba”, no Rio.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: