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Qual o risco de bombardear depósitos de armas químicas na Síria

Ataque aéreo de EUA, Reino Unido e França mirou três alvos. O ‘Nexo’ perguntou a uma especialista em agentes tóxicos se essa ação militar pode expor a população

Na noite de sexta-feira (13), forças militares americanas, britânicas e francesas lançaram um bombardeio aéreo sobre a Síria. A ação foi uma retaliação ao presidente sírio, Bashar al-Assad, e ao seu principal apoiador externo, o governo da Rússia.

As forças ocidentais dizem ter provas de que o presidente sírio havia usado armas químicas (mais especificamente, cloro e sarin) contra sua própria população no dia 7 de abril, em Douma, no sudoeste do país. No episódio, dezenas de pessoas morreram. Diferentes fontes falam em números de 40 a 85 mortos.

A cidade é considerada um dos últimos bastiões dos insurgentes sírios, que se opõem a Assad. EUA, Reino Unido e França também afirmam que o presidente russo, Vladimir Putin, é conivente com esse e outros supostos ataques anteriores.

Assad e Putin negam veementemente que armas químicas foram usadas. Um dos argumentos é que as forças sírias já recuperaram o controle de quase todo o território do país, então não faria sentido lançar um ataque com esses armamentos a essa altura da guerra, que começou em 2011.

O governo Putin diz ainda que a acusação e o bombardeio das potências ocidentais são mais uma etapa de uma campanha para difamar a Rússia internacionalmente. E que, no caso de Douma, foi uma armação de forças britânicas para justificar uma ofensiva ocidental.

“A Rússia precisa decidir se vai continuar nesse caminho sombrio ou se vai se juntar às nações civilizadas como uma força em favor da estabilidade e da paz”

Donald Trump

presidente dos Estados Unidos, em discurso em 13 de abril

“Em um sinal de cinismo, um grupo de países ocidentais resolveu agir militarmente sem esperar pelos resultados da investigação [do órgão internacional de armas químicas]”

Vladimir Putin

presidente da Rússia, via comunicado em 14 de abril

As armas químicas na Síria

Desde 2013, armas químicas já haviam sido usadas pelo menos 35 vezes no país, pelas contas das Nações Unidas, e 50 vezes desde 2011, pelas contas dos EUA. A oposição síria contabiliza 200 ações desse tipo em sete anos.

Mesmo em situações de conflito, usar armas químicas viola tratados internacionais e representa um crime de guerra.

Os alvos do bombardeio

Segundo as Forças Armadas americanas, os três alvos bombardeados em 13 de abril (ou, no fuso horário da Síria, já madrugada do dia 14 de abril) eram estratégicos para o que dizem ser o programa de armas químicas do governo sírio:

  • Um centro de pesquisa científica, na capital Damasco
  • Um depósito de armas químicas, nos arredores da cidade de Homs
  • Um depósito de armas químicas e centro de comando, também próximo a Homs

Os 3 alvos

Os governos do americano Donald Trump, da britânica Theresa May e do francês Emmanuel Macron classificaram a ação militar como um sucesso.

Mas se esses três líderes afirmavam que o propósito era justamente evitar a exposição de civis a armas químicas, bombardear um depósito não representa um risco de liberação dessas substâncias?

O Nexo conversou sobre esse assunto com Camilla Colasso, especialista em gerenciamento de risco químico e toxicológico e em armas químicas de guerra, da consultoria Chemical Risk.

Com o bombardeio, armas químicas não poderiam ser liberadas no ambiente e atingir a população?

Camilla Colasso Poderiam. A grande questão é a seguinte: não sabemos direito como foi esse processo. Não se tem exatidão se existem ou onde existem [armas químicas na Síria]. É preciso avaliar uma série de coisas: se for um armazenamento de arma química subterrâneo, é possível controlar melhor uma eventual exposição.

A Síria é signatária da Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas. Se eles [EUA, Reino Unido e França] sabiam que havia armas químicas lá, por que não foi feito nada antes? A depender de como for essa construção [de estoque de armas químicas], sim, quando se explode pode liberar. Depende também da quantidade de explosivo e de armas químicas. Em alguns casos, em altas temperaturas, o explosivo “encobre” o químico.

No passado houve armas químicas que não foram efetivas porque o explosivo suplantou o agente químico. No caso do centro de pesquisa [na capital Damasco], se houvesse armas químicas, seriam quantidades muito baixas. No caso de um estoque muito grande, provavelmente era subterrâneo, porque não daria para armazenar de outra forma sem que fosse detectado.

Esses agentes podem se degradar ao serem liberados para o ambiente?

Camilla Colasso Depende da arma química, cada um tem um comportamento. Sarin e cloro não persistem no ambiente. Como eles são voláteis [líquidos que facilmente viram gás ou vapor, estados em que são usados em ataques], quem estiver próximo vai inalar e passar mal, mas em pouco tempo eles se dispersam. Dá para encontrar resquícios ainda, mas eles não vão ficar impregnados no local por muito tempo.

Provavelmente formariam uma nuvem de gás ou de vapor que se dispersa sem demora. Mas se tiver população perto [o que não era o caso dos dois supostos depósitos próximos a Homs], pode ser danoso. O que a Organização para a Proibição de Armas Químicas faz nesses casos é tentar achar amostras de terra ou plantas em que se possa detectar que houve armas químicas, porque no ar não dá mais.

Quais os efeitos do cloro e do sarin no organismo?

Camilla Colasso O cloro é um agente que provoca sufocamento. Vai causar dor nos olhos, nariz, garganta — porque são regiões muito úmidas, e o cloro reage com a água. No pulmão, vai provocar uma dificuldade respiratória tão grande que a sensação da pessoa exposta é que ela está se afogando, porque o cloro aumenta a quantidade de fluido nos pulmões, é como estar se afogando.

O sarin provoca um dano no sistema nervoso, no cérebro. Ele aumenta determinada substância no organismo que vai gerar convulsões, tremores musculares, muita salivação, sudorese. Parada respiratória e morte, em casos mais severos ou sem intervenção médica.

NOTA DE ESCLARECIMENTO: Este texto foi editado para deixar mais claro que as armas químicas sarin e cloro são armazenadas em estado líquido. Quando usadas em ataques, estão na forma de gás ou vapor. A alteração foi feita às 13h40 do dia 18 de abril de 2018.

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