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Os vários usos possíveis da blockchain, segundo a presidente do FMI

Em artigo, Christine Lagarde compara frenesi em torno das criptomoedas com a bolha .com da década de 1990 e fala sobre onde tecnologia pode ser empregada

 

As bases do bitcoin foram lançadas em 2008, em um artigo publicado por uma figura anônima que se identifica apenas como Satoshi Nakamoto. A moeda é pensada de forma que o controle e registro das transações ocorra, via adição de dados a um arquivo compartilhado, chamado “blockchain”.

Ela permite transferências e transações internacionais mais rápidas, sem passar por intermediários, como bancos. E de forma anônima.

A moeda foi efetivamente lançada em 2009 por uma comunidade on-line de desenvolvedores, e desde então tem passado por ondas de valorização e desvalorização. Quem investiu cedo ganhou dinheiro, mas aqueles que investiram durante os últimos picos enfrentaram grandes perdas, ao menos até o momento.

Em meados de dezembro de 2017, cada unidade de bitcoin chegou perto de valer US$ 20 mil. Em meados de abril, um bitcoin vale cerca de US$ 8.300.

Altos e baixos do bitcoin desde 2017

 

Isso tem feito com que muitos analistas classifiquem o bitcoin - e as outras centenas de criptomoedas que surgiram a partir de variações do conceito original - como uma bolha especulativa.

Sob este ponto de vista, as moedas não estão sendo compradas para realizar transferências e aquisições de produtos, mas devido à expectativa de que se valorizarão. Sem essa especulação, as moedas não teriam atingido o valor que atingiram.

Em um artigo publicado em março de 2018 no blog do Fundo Monetário Internacional, a presidente da entidade, Christine Lagarde, aborda não só essa questão problemática, mas também outras que surgem conforme essas moedas ganham proeminência - a anonimicidade pode contribuir para a lavagem de dinheiro, venda de produtos ilegais, e o financiamento do terrorismo.

Um mês depois, em um novo artigo, Lagarde ameniza o tom de crítica e afirma que “um olhar judicioso sobre criptoativos não deve nos levar nem à criptocondenação, nem à criptoeuforia”.

O termo “criptoativo” empregado por Lagarde pode ser usado como alternativa ao termo mais popular “criptomoedas”, mas enfatiza que sua tecnologia serve para registrar mais tipos de ativos do que apenas dinheiro.

A tecnologia da blockchain

No artigo, Lagarde compara o frenesi em torno dos criptoativos com a bolha .com no final da década de 1990. Dezenas de empresas de tecnologia quebraram conforme investidores tentaram vender ações rapidamente, após perceber que muitos dos modelos de negócio não eram viáveis, e que a valorização até então era uma bolha especulativa.

Algumas, no entanto, sobreviveram e prosperaram, como Amazon.com, eBay, IBM e Adobe. Lagarde afirma que o mesmo pode acontecer com as criptomoedas: mesmo com quebradeira, restariam pontos positivos duradouros.

Tradicionalmente, as transações financeiras entre duas partes acontecem com intermédio de um terceiro ator, como um banco, que verifica de onde o dinheiro vem, para onde ele vai, e viabiliza a troca.

No caso das criptomoedas que seguem o modelo do bitcoin, as verificações de cada transação são feitas a partir da resolução de um enigma matemático realizado por um dos vários computadores que participam da comunidade on-line em torno da moeda.

Quando a transação é verificada, o bloco de informação correspondente a ela é adicionado à blockchain, o arquivo compartilhado entre todos aqueles que possuem a criptomoeda. Esse arquivo registra todas as transações já feitas com uso do bitcoin.

Como está sob o olhar de todos os participantes, é a comunidade on-line que garante a segurança das transações, não um terceiro ator. Por isso, a transação, a verificação e o controle são considerados descentralizados.

Apesar de ter críticas sobre como o sistema das criptomoedas se estruturou na prática, Lagarde destaca que a tecnologia não é inerentemente ruim, e pode vir a ser útil.

“Do meu ponto de vista, a revolução da tecnologia financeira não eliminará a necessidade de intermediários confiáveis, como corretores e banqueiros. Há esperança, no entanto, de que operações descentralizadas impulsionadas por criptoativos levem à diversificação do panorama financeiro”

Christine Lagarde

Em artigo de abril de 2018 no blog do FMI

Usos possíveis da blockchain

Transações facilitadas

Em se tratando de transações internacionais, a verificação tradicional por meio de instituições financeiras pode demorar dias. Via blockchain, essa verificação pode ocorrer em algumas horas. Ela também tende a ser mais barata, afirma Lagarde.

A presidente do FMI ressalta, no entanto, que “se os criptoativos emitidos privadamente continuarem arriscados e instáveis, pode haver uma demanda para que bancos centrais forneçam formas digitais de dinheiro”. Ou seja, o bitcoin e outras criptomoedas podem implodir, mas modelos parecidos e com maior controle do Estado podem perseverar.

Contratos inteligentes

A tecnologia da blockchain pode ser utilizada para outras finalidades que não apenas transações de compra de bens ou transferência de dinheiro. Os blocos de dados podem ser, por exemplo, utilizados para a aplicação de contratos de troca de ativos, como ações de empresas.

Documentação de terras

A tecnologia da blockchain também pode ser utilizada para diminuir o risco de fraudes em contratos sobre a posse de terras. Se os registros ficassem em um arquivo comum, alterações para garantir a grilagem não poderiam ser feitas em uma instância isolada, como um cartório. O uso da blockchain com essa finalidade vem sendo testado em Gana.

Dados médicos

Há também planos de saúde estudando o uso da tecnologia da blockchain para registrar dados médicos confidenciais e garantir acesso a eles apenas a pessoas autorizadas, de forma segura.

 

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