Ir direto ao conteúdo

Quem foi Rosetta Tharpe, a pioneira que agora integra o Hall da Fama do Rock

Mulher, negra, guitarrista, uniu o gospel ao popular e se tornou um ícone nos EUA, influenciando músicos como Elvis Presley

    Temas

    Influência confessa de Elvis Presley, figura conhecida pela voz poderosa, enorme presença de palco e estilo único de tocar sua guitarra. Não se trata de Chuck Berry, Little Richard ou qualquer outro figurão da história do rock, mas sim de Sister Rosetta Tharpe.

    Mulher, negra e devota à sua religião, a cantora e instrumentista americana morta em 1973 será homenageada pelo Hall da Fama do Rock ‘n’ Roll, do qual passa a fazer parte, em cerimônia neste sábado (14).

    Como aponta o instituto responsável pelo prêmio, Rosetta foi “a primeira heroína da guitarra do rock’n’roll”. Sua guitarra, aliás, foi o que chamou a atenção do jovem Elvis Presley, ícone do rock que tinha apenas dois anos quando Rosetta lançava o seu primeiro hit gravado, “Rock Me”, em 1937.

    “Ela teve um grande impacto em artistas como Elvis Presley. Quando você vê [ele] cantando suas primeiras canções na carreira, se você imaginar que ele estava canalizando Rosetta Tharpe… Não é uma imagem com que estamos acostumados a pensar na história do rock ‘n’ roll”, disse a biógrafa de Rosetta Tharpe, Gayle Wald, em um documentário de 2011 sobre a artista. “Não pensamos na mulher negra que está por trás do jovem branco.”

    Pioneirismo, fama e rock

    Desde 1986, a instituição Rock and Roll Hall of Fame, com sede em Cleveland, nos Estados Unidos, seleciona músicos importantes da história do gênero para homenagear. Atualmente, a cada ano, cinco novos artistas são eleitos pelo público para fazer parte do grupo de famosos. Além deles, o instituto escolhe mais um a ganhar um prêmio por seu pioneirismo e influência.

    Os cincos músicos e bandas eleitos pelo público deste ano são Bon Jovi, Dire Straits, The Moody Blues, The Cars e a cantora Nina Simone. Sister Rosetta Tharpe será a homenageada do ano, escolhida por seu papel vanguardista.

    A indicação de Nina Simone e Rosetta ampliam a lista de artistas negras do prêmio. Depois das nomeações do ano de estreia do prêmio – que incluíam músicos negros do calibre de Chuck Berry, James Brown, Ray Charles, Sam Cooke e Fats Domino – passaram a constar na lista também estrelas como Aretha Franklin, Tina Turner, Etta James, Ruth Brown, Gladys Knight e Donna Summer. Especificamente na categoria de Rosetta, já foram homenageados Louis Armstrong, Nat King Cole, Howlin’ Wolf e Billie Holiday, entre outros.

    Quem foi Sister Rosetta

    Nascida em 1915, Rosetta Tharpe passou a infância em uma pequena cidade do Arkansas, estado do sul americano, entre plantações de algodão – ofício do pai – e a igreja batista à qual sua mãe era devota. Do pai herdou o apreço pelo canto; da mãe, a espiritualidade.

    Ainda com seis anos, mudou para  Chicago com a mãe em uma missão religiosa e, por lá, ganhou fama nos corais da igreja com sua voz, guitarra e piano. Em meio à sua escalada gospel, Rosetta foi sondada pela indústria fonográfica e acabou gravando seu primeiro disco unindo os universos musicais gospel e popular americano da época – assinando sempre com “sister” (irmã, em inglês) antes do nome.

    O sucesso profano gerou controvérsia no meio religioso. Foi só a primeira, outras mais viriam ao longo da vida.

    Rosetta desafiou os costumes do seu país, segregacionista na época, quando na década de 1950 saiu em turnê com os The Jordanaires, grupo formado apenas por brancos – os mesmos que formariam a banda de Elvis Presley anos depois.

    Além de atropelar regras raciais, a “rebeldia” destacada pela biógrafa de Rosetta sobre a artista também se manifestou por meio da sua sexualidade. Isso porque, após uma série de casamentos fracassados, a estrela se envolveu com a cantora gospel Marie Knight, com quem dividiu palcos durante uma turnê. O romance, no entanto, nunca se tornou público.

    “Dentro de certos círculos, elas provavelmente podiam ser abertas sobre isso, mas no mundo mais amplo, isso teria arruinado suas carreiras e reputações”, disse a escritora Gayle Wald, autora do livro “Shout, Sister, Shout!” (2007) sobre a vida da cantora.

    Anos depois, Rosetta casou-se com Russell Morrison, um profissional pouco conhecido do mercado fonográfico. O casamento, de acordo com a biografia da cantora, foi arranjado e fazia parte de uma jogada de marketing de uma dupla de produtores.

    A cerimônia arranjada foi realizada em um estádio de beisebol. O local foi tomado por fãs que acabaram com os 20 mil ingressos colocados à venda. Além do casamento propriamente dito, Rosetta fez um show, que foi gravado e virou um disco.

    Partindo dos Estados Unidos, Rosetta Tharpe viajou pelo mundo em turnê. Na Inglaterra, em 1964, em meio a uma turnê ao lado do gigante do blues Muddy Waters, a cantora fez uma gravação histórica para a TV local cantando “Didn’t it rain”.

    Após a morte da mãe em 1968, Rosetta ficou deprimida e sua saúde começou a piorar. Anos depois, a cantora foi diagnosticada com diabetes, sofreu um derrame e teve de amputar uma das pernas. Em 1973, por fim, Rosetta sofreu outro derrame e morreu na cidade de Filadélfia, nos EUA.

    Sobre a “madrinha” do gênero musical, o diretor Mick Csáky fez o documentário “The Godmother of Rock & Roll: Sister Rosetta Tharpe”, em 2011.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: