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O trabalho do artista que documenta ‘arquiteturas anônimas’ de São Paulo

Casas de bairros paulistanos como Mooca e Ipiranga foram fotografadas. Sem autoria, possuem linguagem reconhecível

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    Foto: Alberto Simon/cedida pelo artista ao Nexo
    Casa no Ipiranga
     

    Há uma arquitetura identificável em alguns bairros de classe média de São Paulo que não é assinada pelos arquitetos famosos dos edifícios dos bairros nobres. As casas em questão são, aliás, de autoria desconhecida, mas possuem características distintivas comuns.

    Entre 2005 e 2006, Alberto Simon, artista visual baseado em São Paulo, se dedicou a registrar residências de bairros paulistanos como Mooca, Cambuci, Ipiranga, Santana, Jardim São Paulo, Saúde e outros para o projeto “tamanho_M”.

     

    Fotografou cerca de 400 casas, das quais em torno de 70 foram selecionadas para compor o trabalho. Parte das imagens foi publicada no Instagram do artista a partir de dezembro de 2016.

    Ao Nexo, o artista disse que seu interesse foi despertado pela qualidade estética das construções mas também pelo fato de documentarem uma fase da história da cidade e dos bairros em questão durante o século 20.

     

    “Tirei essas fotos em bairros que tinham indústria, como a Mooca e o Ipiranga, onde houve uma transição: um proletariado que aspirava a virar classe média e virou. Essas casas têm muito a ver com isso”, disse Simon em entrevista.

    Atualmente, algumas das casas documentadas já foram demolidas. E houve, segundo Simon, as que não foi possível fotografar por se encontrarem “escondidas” pela adição de muros e portões.

    Arquitetura vernacular

    As casas dessa produção arquitetônica paulistana, chamada de vernacular, por não ser produzida por arquitetos formados, não foram estudadas até o momento, segundo Joana Mello, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

    A construção delas data dos anos 1960 em diante. São marcantes na paisagem de bairros que se expandiram a partir dos anos 1950, com o processo de metropolização da capital, que envolveu a verticalização de bairros centrais – como República – e novos loteamentos em bairros fora do centro, predominantemente horizontais e residenciais, que atendiam a classe “média-média”, disse Mello ao Nexo.

    Também há edificações desse tipo no interior do estado.

     

    Pastilhas e pedras nas fachadas são elementos estéticos comuns. Os motivos, normalmente, são mais abstratos do que nas residências de décadas anteriores, exceto quando há painéis de azulejos na entrada, que contam, aí sim, com elementos figurativos, como animais ou plantas.

    Mello aponta nessas casas “invencionices construtivas”, possibilitadas pelo uso de novos materiais de construção civil. O concreto armado marcou a linguagem arquitetônica moderna e começou a chegar às casas comuns nessa época, em meados do século 20, é um deles.

    Foto: Alberto Simon/cedida pelo artista ao Nexo
    Casa na Mooca
     

    O material é responsável, por exemplo, pelas janelas grandes (maiores do que era possível até então) e pelas platibandas encontradas nessas casas.

    As residências incorporaram alguns elementos de uma “arquitetura erudita”, da arquitetura assinada, se assemelhando a casas do início da carreira do arquiteto Vilanova Artigas e de outros modernistas.

     
     

    Além da chegada de outros materiais, também houve uma mudança na mão-de-obra das construções de casas. Passou a ser composta por operários da construção civil. Antes, desde a virada do século 19 até os anos 1920, eram obra de artesãos, muitos deles estrangeiros, vinculados aos liceus de artes e ofícios.

    Uma explicação para seu anonimato é que, sendo direcionadas a um público que não era de elite, são obras de construtores, sem a mediação de um arquiteto que assinasse o projeto.

     

    Esses construtores, provavelmente, já haviam tido contato com construções modernistas que vinham sendo erguidas nas cidades brasileiras ou até, eventualmente, com os próprios autores dos projetos.

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