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A desigualdade de gênero em editoras do Reino Unido. E a situação no Brasil

Salários diferentes para mulheres e homens da mesma função é ilegal no país, mas, na média, elas continuam ganhando menos

     

    Em meados de março, grandes editoras do Reino Unido divulgaram estatísticas que revelaram ampla disparidade de remuneração entre mulheres e homens. A notícia causou forte reação por parte das mulheres do mercado editorial britânico.

    Selos do grupo Hachette UK revelaram uma diferença salarial média de quase 24% e a HarperCollins, de 10,4%. Em termos de bônus, a diferença de remuneração entre homens e mulheres na HarperCollins é de 47,9%. 

    Todas as empresas com mais de 250 empregados no país são obrigadas a informar a diferença na média de ganhos por hora entre mulheres e homens de todos os cargos, a desigualdade entre os bônus e a porcentagem de cada gênero nos diferentes estratos da folha de pagamento, do topo aos cargos mais baixos.

    Desde 1970, remunerar de maneira desigual mulheres e homens que realizam o mesmo trabalho é ilegal no Reino Unido, devido à aprovação do Equal Pay Act.

    Apesar disso, os dados divulgados mostram que, na média, mulheres continuam ganhando menos que homens e que um número menor delas, em relação a eles, chegam aos cargos do alto escalão das empresas.

    No caso do mercado editorial, apesar de as mulheres representarem 69% da força de trabalho do setor no país, os números revelados pelas empresas mostram que elas estão altamente sub-representadas nas posições de liderança e nas faixas salariais mais altas.

    Para uma funcionária sênior da Hachette britânica que falou ao site especializado The Bookseller, os dados confirmam uma suspeita antiga e refletem o sexismo institucionalizado de boa parte da indústria.

    Seu nome não foi publicado – segundo o Bookseller, muitas profissionais se sentiram impossibilitadas de falar oficialmente por medo de que o testemunho repercuta na carreira.

    Uma funcionária da HarperCollins, que também falou anonimamente ao site, disse que a desigualdade parece estar ligada sobretudo à maternidade. “Significa que a questão subjacente [à diferença de remuneração] é não haver licença-maternidade compartilhada [entre mães e pais]”, disse.

    Outras profissionais também mencionam, entre os fatores responsáveis pela desigualdade:

    • a adoção da jornada de meio período por muitas mulheres – por serem majoritariamente responsáveis pelos cuidados com os filhos
    • a ênfase em critérios financeiros nos níveis mais altos de tomada de decisão das editoras, levando em conta que cargos de finanças e vendas são frequentemente dominados por homens 

    #MeToo nas editoras

    Nos Estados Unidos, outra expressão da desigualdade de gênero que afeta o mercado editorial são acusações recentes de assédio sexual contra autores e ilustradores.

    Na esteira do movimento #MeToo, autoras e profissionais de editoras vem denunciando condutas inapropriadas de homens do meio como James Dashner, autor infanto-juvenil de sucesso, conhecido pela série distópica “Maze Runner”, acusado de assédio por várias mulheres.

    No caso de denúncias contra autores com livros no prelo, a posição das editoras tem sido a de adiar lançamentos, para minimizar o prejuízo, ou mesmo de romper com os autores, deixando de publicá-los, como fez a Penguin Random House com Dashner.   

    Qual a situação no Brasil

    Profissionais brasileiras também têm pautado discussões a respeito das desvantagens enfrentadas por elas no mercado editorial local, no qual também são a maioria da força de trabalho.

    Considerando apenas a função de editor, segundo a Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho de 2016, 62% são mulheres.

    Um evento realizado em São Paulo no dia 11 de abril de 2018 pelo portal PublishNews reuniu editoras e uma livreira para discutir os reflexos de movimentos como o #MeToo e “Não é Não” na indústria editorial brasileira e o papel das mulheres nesse mercado.

    No mesmo dia, também em São Paulo, uma mesa-redonda com representantes femininas de editoras independentes discutiu o tema das mulheres no mercado editorial em um evento de publicações dessas editoras.

    Algumas delas participaram da criação do Coletivo Virginia, em 2017,  nomeado em homenagem à escritora Virginia Woolf.

    Sintia Mattar, profissional do mercado editorial e participante do coletivo, disse ao Nexo que o Virginia pode ajudar a trazer a discussão à tona, levantando questões e eventuais denúncias sem expor mulheres individualmente.

    A origem da iniciativa, no entanto, teve a ver com trocas práticas (como indicar contadores e tradutores) entre mulheres que, diante das barreiras do mercado, começaram a deixar editoras estabelecidas para fundar iniciativas próprias. 

    O grupo, que tem se articulado on-line, reúne profissionais do mercado editorial com o objetivo de criar uma rede de apoio e fortalecer o coro de reivindicações mais estruturais.

    Elas relatam – sem se identificar, novamente por receio de sofrerem consequências na carreira – problemas semelhantes aos das editoras britânicas: assédio moral e sexual, disparidades de remuneração, falta de oportunidades para ascender e cargos de chefia majoritariamente ocupados por homens, embora a mão de obra das editoras seja predominantemente feminina.

     

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