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A batalha pioneira da primeira estrela feminina do rap

Aos 14 anos, Roxanne Shanté ficou conhecida por rebater grupo de rappers masculinos. Sua vida e carreira viraram filme em 2017

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    A primeira estrela feminina do rap é o tema de um novo filme distribuído mundialmente pela Netflix. “Roxanne Roxanne” trata da vida da MC nova-iorquina Roxanne Shanté, que despontou na década de 1980 por meio de uma lendária “batalha” musical.

    Apesar do pioneirismo, Shanté teve uma carreira curta e difícil, em parte prejudicada pelo relacionamento abusivo com o namorado e empresário Cross. “Roxanne Roxanne” reconstitui sua trajetória com atores e foi destaque no festival de cinema independente Sundance, em 2017.

    O filme foi produzido pelo cantor e produtor Pharrell Williams e pelo ator Forest Whitaker. No papel de Shanté está a quase-homônima Chanté Adams. Sua interpretação lhe valeu um Prêmio Especial do Júri em Sundance.

    As guerras de Roxanne

    “Os rappers homens acharam que eu estava tumultuando as coisas”, explicou Shanté, em entrevista de 2018 para a revista Billboard. “Se a melhor rapper do jogo é uma garotinha, então o rap não será mais visto como algo masculino.”

    Em 1984, Shanté tinha 14 anos. O quarteto de rappers UTFO tinha acabado de estourar em Nova York com a música “Roxanne Roxanne”, em que reclamava de ser esnobado por uma garota chamada Roxanne.

     

    A MC já vinha participando de batalhas de rua, em que participantes duelam ao microfone, improvisando raps. Shanté propôs ao produtor Marley Marl lançar uma resposta à música do UTFO. A gravação foi feito em um take, sem edições. “Nas batalhas, eu rimava por 30, 40 minutos, então quatro minutos não era nada para mim”, explicou à Billboard a rapper, hoje com 48 anos.

    Com estilo agressivo e uma letra pontuada por referências sexuais diretas, a réplica de Shanté basicamente acusava cada um dos membros do UTFO de não serem bem-sucedidos em suas investidas porque eram incompetentes.

    “Toda vez que eu vejo ele, ele está sempre implorando

    /Todas as outras meninas estão sempre tentando pega/Toda vez que ele me vê, ele fala uma rima/Mas, olha, comparado comigo é fraco comparado com a minha””

    “Se fosse um cara falando mal de outro cara, não teria tido o mesmo efeito - mas ninguém nunca tinha ouvido uma menina fazer rap assim antes’, afirmou Tyrone Williams, produtor do programa Rap Attack, que estreou a música no rádio.

    A faixa foi um sucesso instantâneo, motivando uma onda de músicas sobre “Roxannes”, incluindo discos sobre “a irmã de Roxanne” e um que alegava que “Roxanne é um homem”. Outra artista apareceu usando o mesmo nome, a Real Roxanne (alcunha de Adelaida Martinez), conquistando um sucesso com a música “Bang Zoom (Let’s Go Go)”.

    De acordo com estimativas diferentes, entre 30 e 100 discos com referência a alguma Roxanne foram produzidos em meados da década. A onda passou logo.

     

    Como detalha o filme em exibição na Netflix, a carreira de Shanté também. Entre experiências ruins com homens no meio artístico e pressões familiares, a rapper largou a música aos 25 anos. Entre suas atividades atuais, está a administração de uma ONG para adolescentes em dificuldades.

    “Todo mundo se magoa e é OK chorar e desabar, mas você tem de se reerguer”, declarou Shanté ao jornal The New York Times em 2018. “Passei por isso, e estou bem.”

    Mulheres no hip hop

    Nos anos seguintes ao estouro de Roxanne, a presença de artistas rappers femininas nos Estados Unidos aumentou. Nomes como MC Lyte, Queen Latifah e Salt-N-Pepa tiveram músicas em evidência. No caso do trio Salt-N-Pepa, a faixa “Push It” foi um sucesso mundial.

    Nos anos 1990, a participação de mulheres foi crescendo. A década terminou com o êxito de Missy Elliott, celebrada pelo estilo inovador tanto no vocal quanto na produção. Em 2017, a rapper Cardi B entrou para várias listas de melhores do ano da crítica especializada americana como o single “Bodak Yellow”.

    “Não sei sei as pessoas realmente sabem sobre as portas que ela abriu para as mulheres no rap”, declarou ao New York Times o ator Mahershala Ali, que faz o papel de Cross, o namorado/empresário de Shanté no filme (e conhecido por sua atuação em “Moonlight”, pela qual ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante). “De Foxy Brown a Lil’ Kim a Nicki Minaj a Cardi B.”

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto descrevia Salt-N-Pepa como uma dupla. Na realidade, o conjunto musical é um trio. O texto foi corrigido às 11h27 de 13 de abril de 2018.

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