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O que dizem estas cartas de 1943 escritas por vítimas do holocausto

Exposição israelense relembra história de judeus que foram perseguidos e mortos durante a Segunda Guerra Mundial

Desde a fundação de Israel, em 1948, relembrar a perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial é uma atividade constante no país. As homenagens às vítimas e aos sobreviventes é um modo de manter viva a memória desse período sombrio na história.

Nesta quarta-feira (11), celebra-se em Israel o Iom HaShoá, ou Dia de Lembrança do Holocausto. A data varia a cada ano, segundo o calendário judaico. E é diferente do dia internacional de memória às vítimas do holocausto, que é 27 de janeiro.

Pela ocasião do Iom HaShoá de 2018, o memorial israelense Yad Vashem, dedicado justamente à história dos judeus que foram vítimas dos nazistas, lançou a exposição virtual intitulada “Últimas cartas do holocausto: 1943”.

São 10 correspondências de judeus que viriam a ser mortos pelos nazistas. Na exposição virtual é possível ver a versão manuscrita de cada carta e também a história da família envolvida naquela correspondência.

Em geral, são mensagens entre parentes, com palavras de afeto, avisando que estavam bem ou noticiando acontecimentos familiares em várias partes da Europa. Mas há também planos de fuga ou palavras contra os nazistas. Foram escritas em seis idiomas diferentes: alemão, francês, iídiche, holandês, ladino e polonês.

Abaixo, o Nexo selecionou alguns trechos das cartas que fazem parte da exposição virtual de 2018.

Trechos das 10 cartas

“O principal é: não se preocupem comigo. Minha saúde vai bem e meu moral não está nada mal (...) Cuidem da saúde e das esperanças. Agora eu vivo só pelo dia em que vamos estar juntos novamente (...) Saibam que tudo isso não vai demorar muito mais”

Rosette Bomblat

francesa, em 10 de junho de 1943, de Drancy (França). Ela viria a morrer depois no campo de Auschwitz

“Querida Berthe,Já é o dia quatro. Estou agora no vagão, nós estamos certamente viajando para a Alemanha. Também tenho certeza que vamos trabalhar. Somos cerca de 700 pessoas, 23 vagões (...) Eu espero, minha filha, que você receba todas as minhas cartas. Se puder, guarde-as como lembrança. Querida Berthe, estou anexando dois bilhetes de loteria. Eu não tenho um jornal, acho que vou conseguir escrever uma carta para tia Paula. Eu espero, minha filha, que você saiba como se comportar como uma pessoa livre, mesmo que você esteja sem seus pais agora. Não esqueça que você precisa sobreviver, e não esqueça de ser uma judia e também um ser humano”

Aron Liwerant

polonês, em 3 de março de 1943, de um trem de deportação na França. Ele viria a morrer no campo de Majdanek

“Agradecemos de coração pelas suas palavras. Espero que vocês sejam pais felizes. Nós dois estamos bem. Sem notícias dos nossos queridos. [Nossa filha] Gerda está feliz que vocês estejam bem.Beijos, mamãe e papai”

Erna Korn e Arnold Korn

alemães, em 11 de fevereiro de 1943, de Berlim (Alemanha). Eles viriam a morrer no campo de Auschwitz

“Como todos vocês estão? Como vai o trabalho? Como é a vida no campo [de concentração]? Imagino que melhor do que aqui [no gueto] (...) Estou tão feliz que você [minha filha] recebeu nossas mensagens”

Berta Joschkowitz

polonesa, em 28 de julho de 1943, de Bedzin (Polônia). Ela viria a morrer no campo de Auschwitz

“Em anexo você vai encontrar cartões de racionamento, dinheiro e um relógio (que provavelmente não vão me deixar guardar, está novo, mas um pouquinho danificado), um broche que ganhei de presente de [meu marido e seu pai] Eil quando [sua irmã] Maxje nasceu, e uma escova de dente. Estou feliz, minha [filha] querida, que você não está conosco neste momento, e só espero que você possa ficar com seus pais adotivos, que são tão bons para você, até que nós voltemos, com a ajuda de Deus”

Johanna Rosenbaum

holandesa, em 26 de março de 1943, de Neede (atual Berkelland, Holanda). Ela viria a morrer no campo de Sobibor

“Quanto a Arthur, ele pode fazer isso [me ajudar a fugir do gueto]. Eu nem preciso escalar o muro, posso passar por um cano de esgoto. Ele sabe disso. É só a passagem pelos radiadores estar aberta e ele esperar por mim. Não posso ficar no pátio durante o dia, quando ele [alemães] está lá. Quando ele não estiver, dá para fazer qualquer coisa. Você [minha filha] precisa falar com Arthur. Vou tentar estar no pátio toda noite das 10 da noite às 10 da manhã”

Moshe Ekhajzer

polonês, em abril de 1943, de Varsóvia (Polônia). Ele viria a morrer no gueto de Varsóvia, na rebelião que levou ao fim desse gueto

“Mamãe, não fique brava por eu estar escrevendo tão pouco, o homem não teve tempo para esperar. Mamãe querida, por favor mande lembranças minhas para todo mundo”

Rivka Folkenflick

polonesa, em 28 de junho de 1943, de Bilcze Zlote (Polônia, atual Ucrânia). Ela viria a morrer a tiros horas depois de escrever essa carta

“Agora são cinco horas da manhã, e para mim é um imenso prazer falar com vocês [minha filha e meu genro]. Eu queria lhes contar algumas coisas, mas não posso escrevê-las. Tudo o que eu posso dizer é que vamos ficar longe por muito tempo. Passamos noites em claro pensando nisso, mas estamos velhos o bastante para suportar essa vida difícil. Não se esqueçam de nós”

Elie Sides

grego, em 5 de abril de 1943, de Tessalônica (Grécia). Ele viria a morrer no campo de Auschwitz

“Querida irmã, vou responder a suas cartas. Fugi da Lituânia, de Panevezys. Deixei todo mundo em casa, mamãe e papai, no gueto, todo mundo. Me sinto horrível por deixá-los nas mãos criminosas dos bandidos de Hitler, e quem sabe o que vai acontecer com eles”

Tuvia Grin

lituano, em 27 de agosto de 1943, de Balakhna (Rússia). Ele morreu em localidade desconhecida enquanto lutava contra invasores alemães

“Eles nos dizem o tempo todo para nos prepararmos para uma viagem longa. [Meu irmão] Nissim, você precisa saber que estão nos transferindo para um campo de concentração sem pão, sem nada, e estamos sofrendo muito pela falta de pão e outras coisas. Nós recebemos só uns 300 gramas de pão por dia e [sopa] czorba. Não nos deixam comprar nada. Se você vier nos visitar, arranje pão e outras coisas. Compre comida com o dinheiro que você tem (...) Não tenho mais nada para escrever. Nós mandamos beijos e abraços para todos vocês”

Albert Kabili

grego, em 17 de março de 1943, de Gorna Dzumaja (atual Blagoevgrad, Bulgária). Ele viria a morrer no campo de Treblinka ou afogado na travessia a barco na viagem até o campo, não se sabe com exatidão

O que foi o holocausto

Ao fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, a derrotada Alemanha recebeu duras punições financeiras pelo lado vencedor. Isso dificultou a recuperação econômica após a destruição do conflito.

Com a crise econômica e ressentimentos da guerra na sociedade alemã, grupos ultranacionalistas ganharam força no país, com manifestações e ações cada vez mais expressivas. Um deles era comandado por Adolf Hitler, austríaco que havia lutado pelo Exército alemão na Primeira Guerra e, antes, tentado carreira como pintor.

Os judeus, já historicamente discriminados na Europa, foram apontados por Hitler como um dos grandes responsáveis pelos problemas da Alemanha, da qual deveriam ser expulsos. Ele defendia que os judeus e outras minorias eram inferiores à etnia alemã.

Hitler chegou ao poder em 1933, quando virou primeiro-ministro via eleições. No ano seguinte, iniciou seu período ditatorial. Aos poucos foi adotando políticas para cercear os judeus na Alemanha, como proibir o casamento entre judeus e pessoas de ascendência étnica alemã, a negação de cidadania alemã a judeus e a criação de guetos.

Judeus e outras minorias passaram então a ser levados a força para campos de concentração, onde faziam trabalho forçado e eram assassinados.

6 milhões

é o número estimado de judeus mortos no holocausto

Além dos judeus, a Alemanha sob o governo de Hitler perseguiu e executou negros, homossexuais, ciganos, poloneses, pessoas com deficiência, testemunhas de Jeová, comunistas e oponentes políticos no geral.

À perseguição e execução genocida de judeus e outras minorias pelos nazistas se dá o nome de holocausto. Também é conhecido como Shoá, em hebraico.

O trauma social ocasionado pela perseguição a judeus impulsionou a criação do Estado de Israel, em 1948. Ao fim da guerra ganhou força e apoio de potências estrangeiras o sionismo — movimento histórico pela criação de um Estado nacional que reunisse os judeus, dispersos pelo mundo, em um território comum sagrado para a religião.

 

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