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A audiência de Zuckerberg no Congresso americano, em 5 pontos

Empresa prometeu aplicar adaptações à nova regulação europeia em todos os países em que atua

 

Com mais de 2 bilhões de usuários mensais, o Facebook é hoje a maior rede social do mundo. Ela é de propriedade de uma empresa de mesmo nome, que também é dona do Facebook Messenger e de outras duas redes sociais com influência mundial, Whatsapp e Instagram.

O modelo de negócios de todas essas ferramentas se baseia na coleta de dados dos usuários para a venda de anúncios direcionados. Essas redes sociais ganham anunciantes porque retêm a atenção do público, e prometem usar as informações dos usuários para fazê-los chegar aos subgrupos mais interessantes para cada produto que desejam vender.

Nos dias 10 e 11 de abril, o presidente e principal acionista da empresa Facebook, Mark Zuckerberg, prestou depoimentos de cinco horas  ao Congresso americano.

  • No dia 10 Zuckerberg falou aos comitês de Comércio e Judiciário do Senado dos Estados Unidos. A transcrição em inglês pode ser lida aqui.
  • No dia 11 Zuckerberg falou ao comitê de Energia e Comércio da Câmara dos Representantes. A transcrição em inglês pode ser lida aqui.

Fundado em 2004 em Menlo Park, na Califórnia, o Facebook vale hoje cerca de US$ 480 bilhões.

A convocação ocorreu após o acirramento das preocupações sobre o tamanho do poder da companhia, a forma como ela tem utilizado e disponibilizado os dados que coleta, e como outros atores, entre eles o governo russo, se aproveitam do alcance da plataforma para atingir objetivos políticos.

Em março de 2018, um novo escândalo acirrou a preocupação sobre a rede social Facebook, e abriu caminho para as audiências.

Reportagens do jornal americano The New York Times e do britânico The Observer revelaram que a Cambridge Analytica uma consultoria política com sede no Reino Unido que trabalhara na campanha pró-Brexit e na de Trump, coletara com uso do Facebook e infringindo regras da empresa os dados de 87 milhões de pessoas, principalmente americanos.

Informações sobre a coleta irregular de dados já haviam sido reveladas em 2015 pelo jornal britânico The Guardian, que é proprietário do Observer.

Mas as reportagens mais recentes incluíam detalhes: um relato em primeira mão e documentos fornecidos pelo ex-desenvolvedor da Cambridge Analytica, Christopher Wylie. Eles mostram que a captação de dados ocorreu da seguinte maneira:

  • O pesquisador russo-americano Aleksandr Kogan, ligado à Universidade de Cambridge, na Grã Bretanha, e de São Petersburgo, na Rússia, obteve permissão do Facebook para coletar dados do perfil dos usuários por meio de um aplicativo chamado “thisismydigitallife”, que aplicava um quiz de personalidade.
  • Para realizar o quiz, os participantes concordavam em fornecer tanto informações de seus perfis quanto dos perfis de seus amigos na rede. Isso possibilitou que um número muito maior de pessoas do que as que fizeram o quiz fosse atingido.
  • No acordo entre Kogan e o Facebook, os dados deveriam ser usados apenas com fins acadêmicos. Kogan os vendeu, no entanto, para a Cambridge Analytica.

A empresa se dizia capaz de criar “modelos psicográficos” do público, o que permitiria prever e manipular seu comportamento. As revelações de março levantaram o temor de que as informações do Facebook teriam servido para manipular psicologicamente os eleitores americanos.

E também evidenciaram como o Facebook compartilha com outras instituições os dados que coleta, sem que os usuários tenham clareza do que está acontecendo com as suas informações.

Até o momento, no entanto, não há sinais de que a coleta dos perfis foi de fato utilizada para manipular as eleições de 2016, algo negado tanto pela Cambridge Analytica quanto pela campanha de Trump.

Na audiência, Zuckerberg forneceu detalhes sobre esse escândalo e outros mais antigos, além de intenções da empresa sobre a forma de lidar com eles.

Há mais casos como o da Cambridge Analytica

Zuckerberg foi questionado pelo Congresso americano sobre o caso da Cambridge Analytica. “Seus dados foram incluídos entre os vendidos aos atores maliciosos - seus dados pessoais?”, questionou no dia 11 Anna Eshoo, representante da Califórnia na Câmara. Zuckerberg afirmou que sim.

O executivo também disse que o aplicativo “thisismydigitallife” não é o único do tipo utilizado pela Cambridge Analytica. “Há todo um programa associado com a Cambridge, com uma série de pesquisadores que estavam construindo aplicativos similares.”

Questionado pela senadora pelo estado de Wisconsin Tammy Baldwin sobre se Aleksandr Kogan havia vendido os dados que obtivera para alguma outra empresa além da Cambridge Analytica, Zuckerberg afirmou que sim.

Na audiência do dia 10, o senador por Dakota do Sul, John Thune, destacou que há sinais de que esse não foi o único caso do tipo. “É improvável que seja um incidente isolado; um fato demonstrado pela suspensão de uma outra empresa pelo Facebook no final de semana passado.”

Ele falava da companhia Cubeyou, dedicada à coleta de dados para a construção de perfis psicométricos com fins comerciais. A empresa fazia isso por meio de um quiz de personalidade chamado “You Are What You Like” e foi temporariamente suspensa pelo Facebook.

Na audiência, Zuckerberg afirmou que está trabalhando em parceria com os governos de Grã Bretanha, Estados Unidos e “ao redor do mundo” para garantir que a Cambridge Analytica apague os dados que coletou. Também ressaltou que a empresa tem notificado usuários que tiveram dados captados pelo esquema.

E que está investigando outros aplicativos com capacidade de coletar informações dos usuários.

Adaptações à regulação europeia valerão para o mundo todo

Outros congressistas ressaltaram a Regulação Geral de Proteção de Dados, um dispositivo legal da União Europeia que busca criar mecanismos para ampliar o controle dos cidadãos sobre os dados coletados sobre eles por empresas como o Facebook. Ela passa a valer a partir de 25 de maio e substitui a regulação anterior sobre proteção de dados, de 1995.

A regulação exige que instituições peçam autorização de maneira concisa, clara e destacada, antes de coletar qualquer dado de indivíduos. Usuários terão acesso facilitado aos dados que companhias possuem a respeito deles. As empresas que não se adequarem às regras poderão ser multadas.

O representante do Texas na Câmara, Gene Green, questionou se as regras seriam seguidas pelo Facebook também em outros países, inclusive nos Estados Unidos, como fora anunciado anteriormente.

“Sim, congressista. (...) A GDPR (sigla em inglês para o dispositivo legal) exige que façamos algumas coisas a mais [além do que já é feito], e nós vamos estender isso para o resto do mundo” afirmou Zuckerberg.

Ele detalhou que “nós vamos colocar, no topo do aplicativo de todo mundo quando a pessoa se logar, uma ferramenta que apresenta as configurações, dá escolhas e pede que o usuário tome decisões sobre como quer que as coisas sejam configuradas”.

Empresa é contra regulação nos Estados Unidos

Vários congressistas ressaltaram, no entanto, que o Facebook pode passar por um processo regulatório específico nos Estados Unidos.

“Agora, você está aberto a algum tipo de regulação? E nós sabemos, claro, que você é a plataforma de mídia social dominante sem nenhuma concorrência verdadeira, com toda franqueza”, afirmou Fred Upton, representante da Câmara no dia 11.

Zuckerberg relativizou a dominância de sua rede. “O usuário americano médio usa cerca de oito aplicativos diferentes para se comunicar e se manter conectado com as pessoas. Então sentimos muita competição todos os dias.”

Ele marcou posição contra a regulação, e afirmou que ela poderia prejudicar companhias menores. “Pode ser mais difícil para uma start-up se adequar.”

Empresa quer barrar notícias falsas em campanhas em 2018

O Facebook recebe críticas pela forma como viabiliza a propagação de notícias falsas que podem ter influenciado processos políticos importantes, como o referendo sobre a permanência do Reino Unido da União Europeia em 2016, que culminou com a saída do país do bloco, e as eleições americanas no mesmo ano, que resultaram na presidência de Donald Trump.

Ao Senado, Zuckerberg reconheceu que a empresa falhou em proteger os usuários de notícias falsas. E afirmou que a prioridade agora é evitar interferências em eleições que ocorrem em 2018 ao redor do globo, inclusive no Brasil.

“Nós teremos em breve eleições importantes em Índia, Brasil, México, Paquistão e Hungria. E nós vamos tomar uma série de medidas, desde construir e implementar novas ferramentas de inteligência artificial que derrubam notícias falsas, até aumentar nossa equipe de segurança para mais de 20 mil pessoas”, afirmou.

Facebook não garante barrar influência estrangeira

Em outubro de 2017, o Facebook admitiu que o governo russo pagara milhares de dólares para promover “conteúdo divisivo” durante as eleições americanas. Quando se somam aqueles alcançados pelo Facebook e pelo Instagram, que é de propriedade da empresa, foram atingidas 146 milhões de pessoas.

Na audiência no Senado, Zuckerberg prometeu checar todo anunciante com anúncios políticos “para garantir que a interferência que os russos foram capazes de fazer em 2016 fique muito mais difícil de levar a cabo no futuro”.

Ele não garantiu, no entanto, que a empresa será capaz de impedir completamente que interferências do tipo aconteçam. Respondendo a um questionamento do senador pelo Novo México, Tom Udall, afirmou: “contanto que haja pessoas na Rússia cujo trabalho é tentar interferir com eleições ao redor do mundo, esse será um conflito recorrente”.

 

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