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Quais as vitórias e derrotas recentes da extrema direita na Europa

Ultranacionalistas da Hungria conquistam ampla maioria em eleição. Outros países do continente vivem fenômeno semelhante

As mais recentes eleições na União Europeia têm colocado em evidência dois grandes grupos: os favoráveis e os contrários ao bloco econômico. Cada campanha nacional tem sido um termômetro para essas forças antagônicas. A mais recente foi na Hungria, em que venceu o nacionalismo antibloco.

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, foi reeleito no domingo (8). Sua principal pauta de campanha foi o combate à entrada de imigrantes e refugiados no país, como forma de preservar uma Hungria “cristã e com valores nacionais”.

Em seu terceiro mandato consecutivo, Orbán seguirá como um líder forte: além de estar no posto de maior poder na Hungria, seu partido obteve ampla maioria (dois terços) das cadeiras no Parlamento. Portanto, um caminho aberto para o governo conseguir aprovar leis em temas de seu interesse, como políticas anti-imigração.

Um projeto de lei do governo húngaro propõe que ONGs da área de imigração precisem se inscrever no Ministério do Interior. Esse registro poderá ser negado sob o argumento de segurança nacional. Outra proposta é impor altas taxas a qualquer financiamento estrangeiro na área de imigração. Orbán promete impulsionar legislações desse tipo no seu novo mandato.

“Os húngaros resolveram que eles querem ser os únicos a decidir sobre quem pode viver na Hungria”

Viktor Orbán

primeiro-ministro da Hungria, em fala nesta quarta (10)

Em 2015, ano mais agudo da crise humanitária na Europa em que milhões de pessoas buscaram abrigo no continente (seja por perseguição política, guerras ou má condição econômica), Orbán foi um dos líderes mais veementes contra os imigrantes e refugiados.

O governo húngaro instalou uma cerca com arame farpado na fronteira com a Sérvia e a Croácia e colocou postos de controle no local, para impedir o fluxo de pessoas.

Essa vitória da direita nacionalista na Hungria não é fato isolado na Europa. Nos últimos anos, políticos e partidos de extrema direita têm ganhado espaço no continente, em alguns casos chegando ao poder.

O que é a União Europeia

A União Europeia é um bloco político e econômico, em que os 28 países-membros coordenam juntos suas políticas econômicas, estão sujeitos a leis comuns e negociam internacionalmente em conjunto.

Dentro do seu território, pessoas, bens e serviços podem circular livremente. Uma parte dos países da União Europeia forma a Zona do Euro, onde existe uma moeda única, o euro.

Desde seus primórdios, nos anos 1950, a União Europeia prometeu integração regional e estabilidade política e econômica. Depois de décadas, no entanto, parte considerável da população se mostrou frustrada e não percebeu vantagens concretas no dia a dia.

Partidos contra o bloco e com ideias nacionalistas então ganharam mais espaço. Muitos deles resgatando a imagem, em geral idealizada, de um passado nacional grandioso que veio a ser suplantado pelo surgimento do bloco comum.

Um marco desse movimento foi o Reino Unido aprovar, em um referendo em junho de 2016, a saída da União Europeia, algo inédito na história do bloco.

A campanha contra imigrantes e refugiados, as supostas desvantagens de integrar a União Europeia e a evocação do nacionalismo britânico foram as bases para o resultado do referendo.

As negociações dessa saída, chamada de Brexit, continuam entre os dois lados — existe uma campanha que almeja reverter a partida. O prazo para o Reino Unido deixar o bloco se esgota em março de 2019.

França, Alemanha e Holanda: crescimento, mas derrota

As duas maiores economias do bloco, França e Alemanha, também viveram em 2017 seus próprios episódios internos da disputa continental.

França

Na França, Marine Le Pen, maior liderança do continente no movimento anti-União Europeia, chegou ao segundo turno da eleição presidencial, em que teve 34% dos votos.

Apesar da derrota para Emmanuel Macron, um forte defensor da integração regional, foi um resultado histórico. Foi a sétima disputa presidencial do partido de Le Pen e, de longe, o resultado mais expressivo. Ela é deputada francesa e segue como uma das vozes mais expressivas na política da França e da Europa.

Ao parabenizar Orbán pela vitória, Le Pen disse que os grupos nacionalistas europeus podem, na eleição de 2019, conquistar a maioria do Parlamento Europeu — braço legislativo da União Europeia.

Alemanha

Na Alemanha, a primeira-ministra Angela Merkel ganhou o quarto mandato consecutivo na eleição de 2017. Mas um partido recém-criado da extrema direita passou a ser a terceira maior bancada no Parlamento, com discurso anti-imigrantes e defendendo uma “Alemanha para os alemães”. Sua principal líder é Alice Weidel. O tamanho do partido de Merkel vem diminuindo a cada eleição.

A partir da crise humanitária de 2015, Merkel foi a principal governante da Europa a defender o acolhimento de imigrantes e refugiados, inclusive com cotas entre os países da União Europeia, o que não chegou a ser implantado de fato. Essa posição lhe rendeu duras críticas de políticos nacionalistas.

Holanda

A Holanda também viu o crescimento de um grupo político da direita nacionalista nos últimos anos, centrado na figura do parlamentar Geert Wilders.

O partido de Wilders foi o segundo mais votado na eleição de 2017. Após meses de negociações para formar uma coalizão, o principal elo entre os variados partidos do novo governo é justamente se contrapor a Wilders. Ele também parabenizou Orbán pela vitória na Hungria.

Com recorrentes falas contra imigrantes e muçulmanos, Wilders foi condenado em 2016 pela Justiça holandesa por incitação à discriminação contra marroquinos que vivem na Holanda. A condenação foi simbólica, já que não houve nenhuma pena. Ele diz que é perseguido politicamente e está protegido pelo direito à liberdade de expressão.

A incógnita na Itália

Na Itália, a eleição de março de 2018 também indicou o crescimento de grupos contra a União Europeia. Dos três partidos mais votados, dois têm esse perfil. As negociações para formar o novo governo italiano ainda estão se desenrolando, portanto não é certo se a direita nacionalista chegará ao poder na Itália.

Polônia e Áustria: chegada ao poder

Polônia

Além da Hungria, o país europeu com o governo mais abertamente nacionalista e de ultradireita é a Polônia. O partido do primeiro-ministro Mateusz Morawiecki está no poder desde 2015, quando conquistou maioria no Parlamento e pôde então formar um governo sozinho. Nesse período, a Polônia também foi comandada pela primeira-ministra Beata Szydlo.

O primeiro-ministro polonês se referiu à vitória de Orbán como um sinal da “política de emancipação” de alguns países frente à União Europeia.

A relação entre o bloco e a Polônia não anda bem, com críticas e ameaças de sanção por parte da União Europeia. Uma reforma do Judiciário polonês é vista pelo bloco como uma manobra para o partido no poder obter controle político sobre a Justiça. Para o governo, são mudanças para aumentar a transparência e o controle público.

Esse assunto vem tensionando os limites da autonomia de um país dentro da União Europeia, o que por um lado alimenta a posição de quem defende o fim do bloco. Por outro, é visto como uma “supervisão” legítima, já que no passado a Polônia se comprometeu a fazer parte dessa comunidade, e é justo que as demandas do bloco sejam seguidas independente do governo polonês do momento.

Outro ponto que rendeu críticas generalizadas, inclusive fora da Europa, foi a nova lei polonesa que criminaliza associar a Polônia ou seus cidadãos a qualquer atividade de suporte ou conivência com o governo nazista da Alemanha (1933-1945). Por essa lei é proibido, por exemplo, falar “campos de concentração poloneses”.

Para o governo, é uma forma de evitar que os poloneses sejam responsabilizados por crimes cometidos pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Para os críticos, é um modo de negar o passado e abre espaço para retaliações a sobreviventes e estudiosos desse período.

Áustria

Já na Áustria, Sebastian Kurz se tornou o chefe de governo mais jovem do mundo em 2017, com apenas 31 anos. Ele é de um partido de centro-direita, conservador nos costumes e defensor de políticas liberais na economia. Mas o seu vice, Heinz-Christian Strache, é de um partido da direita nacionalista.

Strache entrou no governo porque era necessário formar uma coalizão, já que nenhum partido conseguiu sozinho a maioria do Parlamento na eleição de 2017. Terceira maior bancada, o partido de Strache é abertamente contra imigrantes.

 

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