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Quem é Mary Thomas, a primeira negra celebrada com estátua na Dinamarca

Líder de revolta e tida como ‘rainha’ pelos rebeldes de ilha colonizada pelo governo dinamarquês no século 19 ganha homenagem na antiga metrópole

    Foto: Reprodução/Instagram/Museu Vestsjaelland
    Estátua da Rainha Mary Thomas, em Copenhague, Dinamarca
    Inauguração da estátua da Rainha Mary Thomas, em Copenhague, na Dinamarca

    A escultura de sete metros de uma mulher negra sentada em um trono com ares de realeza na cidade de Copenhague se propõe a servir de memória e reconhecimento de um passado que a Dinamarca preferiria esquecer.

    A obra chamada “I am Queen Mary” (Eu sou a Rainha Mary) homenageia Mary Thomas, líder negra de uma revolta rural conhecida como Fireburn que marcou a história da ilha caribenha de Saint Croix (Santa Cruz) em 1878.

    O território, na época uma colônia dinamarquesa, foi vendido ao lado das demais Ilhas Virgens (St. John e St. Thomas) no dia 31 de março de 1917 aos Estados Unidos. Por essa razão, 100 anos depois, a mesma data foi escolhida para a inauguração da estátua. O projeto se anuncia como “a primeira escultura colaborativa a relembrar o impacto do colonialismo da Dinamarca no Caribe e aqueles que lutaram contra ele”.

    “Esse projeto discute o papel da Dinamarca na escravidão e a comemoração de seu passado colonial (...) Ele objetiva mudar a narrativa sobre a história e demonstra como artistas podem liderar essa conversa”, diz o texto do seu site oficial.

    A estátua é fruto de um projeto de duas artistas, a dinamarquesa de ascendência caribenha Jeannette Ehlers e La Vaughn Belle, original das Ilhas Virgens.

    Ehlers celebra a estátua não só pela sua importância, mas pelo modo como o projeto – que teve apoio de agências de fomento e museus dinamarqueses – todo ganhou vida. “Não foi algo comissionado. Fomos nós, duas artistas, que ocupamos o espaço público com a nossa arte. Um espaço em que  98% das estátuas representam homens brancos, na Dinamarca”, disse.

    A artista compara o papel desempenhado por ela e Belle ao dos rebeldes de St. Croix, que “lutaram contra o sistema colonial opressivo”. “Nós estamos confrontando o racismo de hoje e o eurocentrismo ao reivindicar o espaço para as nossas narrativas.”

    Henrik Holm, pesquisador e curador no Museu Nacional de Arte da Dinamarca, comentou a nova estátua dizendo se tratar de um monumento que fará com que o “esquecimento seja algo menos fácil”.

    “Nunca uma escultura assim havia sido levantada em solo dinamarquês. Agora, à Dinamarca é oferecida uma escultura que endereça o seu passado. Mas ela também é uma arte para o futuro.”

    Quem foi Mary Thomas

    Original de Antígua, também no Caribe, Mary Thomas se mudou para St. Croix por volta de 1860 em busca de trabalho nas plantações locais. Na ilha, embora não houvesse mais escravidão – o governo havia decretado a abolição poucos tempo antes, em 1848 –, as condições da população antes cativa e agora assalariada eram tenebrosas.

    Em 1878, depois de o governo negar melhores remunerações e condições que viabilizassem a saída dos trabalhadores insatisfeitos da ilha, deu-se início uma revolta massiva que resultou na queimada (fireburn, em inglês) de prédios na cidade de Frederiksted e de pelo menos 50 grandes campos de plantação.

    Em meio ao episódio, destacaram-se por sua atuação de liderança da revolta três mulheres, as quais ganharam os títulos de “Queens of the Fireburn” (algo como “Rainhas das Queimadas”). Eram elas: Agnes Salomon, Mathilda McBean e Mary Thomas.

    Músicas foram feitas sobre as rainhas, as quais ganharam em St. Thomas, ilha próxima a St. Croix, uma estátua em sua homenagem.

    Foto: Reprodução/Wikimedia Commons
    Retrato feito em 1888 da Rainha Mary por Charles E. Taylor
    Retrato feito em 1888 da Rainha Mary por Charles E. Taylor

    Ao cabo da revolta, Mary Thomas e outros revoltosos foram presos pelo exército conjunto americano, britânico e dinamarquês. A rainha rebelde foi então levada para Copenhague, onde ficou presa de 1882 a 1887, antes de retornar a St. Croix.

    A estátua que homenageia Thomas na capital dinamarquesa fica a poucos quilômetros da sua antiga prisão e em frente a um depósito que armazenava açúcar e rum trazidos de St. Croix para a então metrópole.

    Dando vida à rainha

    A estátua de Mary Thomas feita pela dupla de artistas na Dinamarca coloca a heroína em seu papel de rainha. Sentada em um trono com um turbante na cabeça, uma tocha na mão esquerda (simbolizando as queimadas) e uma ferramenta de corte de cana na direita (uma referência ao trabalho nas plantações), Thomas olha firmemente para frente.

    Seu rosto, no entanto, não se apoia em nenhum retrato genérico da época. Em vez disso, seus traços são uma mistura das faces das duas artistas captados por câmeras especiais e projetados juntos em 3D. “É um híbrido dos nossos corpos, nações e narrativas”, disse La Vaughn Belle, referindo-se às nacionalidades caribenha e dinamarquesa das duas artistas.

    A pose de Thomas ainda tem uma outra referência, esta ligada ao fundador do Partido dos Panteras Negras nos Estados Unidos, Huey P. Newton. Em 1967, o líder do grupo paramilitar tirou uma foto icônica sentado em um trono de vime, sentado com um rifle na mão direita e uma lança, que assim como outros elementos decorativos na imagem, faziam clara referência à cultura africana.

    Foto: Reprodução
    Foto do líder dos Panteras Negras, Huey P. Newton; e estátua de Mary Thomas
    Foto do líder dos Panteras Negras, Huey P. Newton; e estátua de Mary Thomas

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