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O site que aponta sexismo em letras da música popular brasileira

Projeto ‘MMPB’: Música Machista Popular Brasileira foi colocado no ar em abril e aponta problemas em canções

     

    A ampliação do alcance de questões feministas, difundidas em grande parte pela internet, tem reaquecido a discussão sobre o sexismo e a misoginia na cultura pop.

    O debate envolve denúncias de atitudes machistas de músicos e outros profissionais do meio musical e críticas a letras consideradas reflexo e endosso de uma cultura que agride e objetifica as mulheres.

    Criado por quatro amigas e colegas de trabalho feministas, o site “MMPB – Música Machista Popular Brasileira” entrou no ar no dia 3 de abril. Sua proposta se encaixa na segunda categoria: provocar a reflexão sobre o conteúdo machista de canções nacionais, de todas as épocas e gêneros.

    “Vamos falar de músicas cantadas por homens e também por mulheres, vai ter funk e vai ter bossa nova, vai ter letra machista descarada e enrustida”, diz a descrição da página.

    Ao clicar no botão shuffle da página inicial, o MMPB mostra uma música acompanhada de letra, do link do YouTube para ouvi-la, de uma análise de por que a letra é problemática e, eventualmente, de uma indicação de leitura sobre o tema. Cada novo clique no shuffle exibe uma nova canção.

    A origem

    O projeto nasceu em janeiro de 2018, em meio à polêmica causada pelo funk “Surubinha de Leve”, retirado do Spotify por fazer apologia ao estupro, disse a diretora de Arte e Ilustradora Rossiane Antúnez, uma das criadoras do MMPB, em entrevista ao Nexo.

    As canções

    “Química”, do cantor Biel, “Formosa”, de Vinícius de Moraes, “Carabina”, da dupla Bruninho e Davi, e “Marina”, de Dorival Caymmi, constam no MMPB, lançado com um número inicial de 100 músicas.

    Os trechos problemáticos são destacados em verde. É possível enviar sugestões de letras que deveriam constar no site. De acordo com Antúnez, a equipe já recebeu uma série de sugestões desde que o site entrou no ar, que já estão em análise.

    “Amor de malandro”, Francisco Alves

    “O amor é o do malandroOh, meu bemMelhor do que ele ninguémSe ele te bateÉ porque gosta de tiPois bater-se em quemNão se gostaEu nunca vi”

    “Carabina”, Bruninho e Davi

    “Safada, cachorra, bandidaDá o fora da minha vidaAntes que eu pego a CarabinaE te encha de tiro agora”

    “Ciúme de você”, Roberto Carlos

    “Se você põe aquele seu vestidoLindo e alguém olha pra vocêEu digo que já não gosto deleQue você não vê que ele está ficando démodé Mas é ciúme, ciúme de você”

    A explicação do que há de errado com cada música é apresentada em tom coloquial e acessível, mas chama atenção, por exemplo, para os dados de feminicídio do país, o quinto que mais mata mulheres no mundo. A ideia é apontar as canções como parte do pano de fundo cultural dessa violência.

    O MMPB lança um olhar crítico que não poupa figuras como Valesca Popozuda, que se declara feminista. “Beijinho no Ombro” é reprovada por incitar a competição feminina e reproduzir insultos machistas como “piriguete” e “late mais alto”.

    “Não queremos necessariamente apontar dedos ou boicotar artistas. Aliás, vários que estão lá, como o Mano Brown, já se posicionaram abertamente contra muita coisa que eles mesmos fizeram”, disse Rossiane Antúnez ao Nexo. “Estilo Cachorro”, do Racionais Mc's, foi incluída no MMPB.

    “Queremos mais é fazer as pessoas refletirem, mesmo. Correrem atrás de informação, questionarem mais o que consomem”, complementou.

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