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Como é possível ouvir e falar em conversas de tráfego aéreo

Durante voo que levava o ex-presidente Lula de São Paulo a Curitiba, homem se intrometeu em frequência e disse para jogar ‘este lixo janela abaixo aí’

    No caminho do voo entre os aeroportos de Congonhas, em São Paulo, e Afonso Pena, em Curitiba, o avião monomotor que levava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve a conversa entre seu piloto e controladores de tráfego aéreo  interrompida por um intruso não identificado. Após ser repreendido por um dos interlocutores que pediu respeito ao trabalho, a voz masculina respondeu: “Eu respeito, mas manda este lixo janela abaixo aí”, referindo-se ao petista.

    Uma controladora de voo da Torre de Bacacheri, de Curitiba, toma a palavra e lembra que a frequência é aberta e gravada. “E ela pode ser usada contra a gente”, diz, antes de exigir que a comunicação se atenha ao termos típicos da aviação.

    O áudio foi gravado em vídeo (veja abaixo) por uma pessoa com um rádio amador sintonizado na faixa de frequência usada pelos profissionais da aviação, entre 118 MHz e 146 MHz.

    Em nota neste domingo (8), a FAB (Força Aérea Brasileira) confirmou a veracidade do áudio captado, mas afirmou que “as referências ao ex-presidente não foram emitidas por controladores de voo”.

    A FAB ainda explicou que as “frequências utilizadas para essas comunicações aeronáuticas são abertas”, o que é útil para que “todos na sua escuta tenham conhecimento do que está ocorrendo no tráfego aéreo, condição importante para manutenção da segurança operacional”.

    Por isso, como disse o órgão militar, qualquer pessoa com um aparelho de transmissão e escuta comum poderia ouvir e falar no meio da conversa entre pilotos e controladores de voo. “Lamentavelmente, nas gravações em questão, as frequências foram utilizadas de modo inadequado por alguns usuários que se valeram do anonimato para contrariar essas regras”, concluiu a nota.

    Frequência e anonimato

    No Brasil, as frequências de rádio são distribuídas em diferentes faixas, cada uma designada para um tipo específico de uso, além das faixas de uso livre. A aviação faz uso de frequências próprias, a maioria dentro da chamada VHF (frequência muito alta), entre 118 e 136,8 MHz.

    “Por ser analógica, é uma tecnologia de comunicação super simples, antiga mas robusta e que, por funcionar bem e pelo conservadorismo da aviação em adotar uma nova tecnologia, segue sendo usada até hoje”, explica o professor Cristiano Magalhães Panazio, da Faculdade de Engenharia Elétrica da USP, em São Paulo. 

    Qualquer um pode transmitir, qualquer um pode receber. Você pode comprar na internet um rádio escuta de controle aéreo, e aí basta estar perto de um aeroporto ou ter aviões passando próximo e você já consegue capturar esse sinal. Para falar, é a mesma coisa, basta um transmissor na frequência certa e pronto.”

    Cristiano Magalhães Panazio

    Professor na Faculdade de Engenharia Elétrica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo

    Panazio explica que, diferentemente de um sinal digital, a transmissão analógica não conta com elementos que permitam a identificação do autor de uma mensagem. Entre as técnicas possíveis para se identificar o “intruso”, o professor cita possibilidades como determinar a direção de chegada do sinal analógico, o tempo de propagação, ou ainda o mapeamento das aeronaves presentes na região seguido de uma tentativa de reconhecimento de voz. “Não há um modo óbvio de se chegar a quem falou”, disse.

    Na mesma direção afirma Jorge Eduardo Leal Medeiros, engenheiro da Aeronáutica e professor da Escola Politécnica da USP, que diz ser “muito difícil” fazer a identificação do indivíduo que se intrometeu no diálogo, o qual ele chama de “gaiato”. “Essa frequência é padrão. Todos que estão trabalhando na torre, na área de aproximação, no controle de área, todo mundo. O sinal pode ter sido emitido por alguém de qualquer avião na área”, disse ao Nexo.

    Medeiros não duvida da afirmação da FAB de que nenhum controlador de voo, servidor sujeito hierarquicamente à Força Aérea, foi o autor da mensagem sobre o ex-presidente. “Nenhum controlador de voo ia ser louco de fazer isso”, disse. O especialista também não aposta na possibilidade de o “gaiato” ter sido alguém em terra.

    “É possível de ser feito, mas é muito raro. Já aconteceu algumas vezes em Guarulhos de ter interferência de rádio pirata. Isso deve ter sido coisa de um gaiato que cruzou o sinal e falou besteira”, afirmou o professor.

    “Eu já vi uma coisa do tipo. Quando o avião se aproxima do aeroporto, ele sai da frequência de aproximação e vai para a frequência da torre, que também é usada por helicópteros, por exemplo. Tem vários casos de piloto de helicóptero reclamando, desabafando com controlador”, diz.

    Medeiros indica que o meio mais factível de se identificar o autor seria por reconhecimento de voz, mas ainda assim técnicos teriam que buscar as comunicações feitas com todos os aviões na área e comparar suas vozes.

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