Ir direto ao conteúdo

Lula preso: como ficam o PT e os candidatos do partido na eleição

Discurso oficial é de que não há plano B para a Presidência. Petista continuará campanha mesmo da cadeia

     

    O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se entregou à Justiça no sábado (7) para começar a cumprir a pena de 12 anos e 1 mês de detenção em razão da condenação no caso tríplex em Guarujá. Ele está desde então na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

    De acordo com a mais recente pesquisa Datafolha, de janeiro, Lula lidera a corrida presidencial de 2018 com 37% das intenções de voto – aproximadamente 20 pontos percentuais a mais do que o segundo colocado, deputado Jair Bolsonaro (PSL).

    O PT afirma, publicamente, que não tem plano B para as urnas. Nos bastidores, nomes como o do ex-governador da Bahia Jaques Wagner e do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad são cotados para assumir a candidatura se a Lei da Ficha Limpa de fato for aplicada ao petista. Até o momento, porém, nenhum dos dois alcança mais do que 3% das intenções de voto.

    Por ora, não há previsão de que Lula deixe a prisão. Mas ele pode recorrer à Justiça em busca de liminares (decisões provisórias) a fim de responder em liberdade.

    Enquanto isso não ocorre, o nome mais importante da história do PT permanece na cadeia – portanto, fora do palanque eleitoral. Antes de se entregar à Polícia Federal, no sábado (7), ao meio-dia, Lula fez um último discurso em que deu algumas pistas do caminho que deve seguir até as eleições. Mas o cenário é incerto.

    Para saber qual pode ser o impacto da prisão de Lula na imagem e na estratégia eleitoral do partido, o Nexo conversou com dois especialistas. São eles:

    Qual o impacto da prisão de Lula na imagem do PT?

    Leonardo Avritzer Neste momento é um pouco difícil de responder essa questão porque ainda não há clareza sobre como a população avalia a legitimidade [das ações] do Judiciário e especialmente da Operação Lava Jato com relação ao Lula.

    Nós [da UFMG] acabamos de aplicar uma pesquisa com amostra nacional e os resultados são relativamente ambíguos. De um lado, aproximadamente 50% da população apoia a Operação Lava Jato. De outro, 50% das pessoas apoiam o Lula. E os que acham que ele está sendo perseguido pela Lava Jato também somam 50% [em pesquisas de opinião, é possível que uma mesma pessoa diga, por exemplo, que apoia a Lava Jato e que Lula é perseguido pelos investigadores, por isso o professor aponta para uma possível contradição]. Então nós podemos dizer que o país está completamente dividido em relação a essa questão.

    Se, de fato, a legitimidade da Lava Jato, do Poder Judiciário e do Supremo fossem muito alta, o impacto [da prisão] na imagem do PT também seria muito alto. Mas como a população está muito dividida em torno dessa questão, a princípio parece que o impacto é baixo. Por quê?

    Em primeiro lugar, as condenações não diminuíram as intenções de voto do Lula e a rejeição a ele caiu no segundo semestre do ano passado, o que é absolutamente surpreendente. Tudo indica que uma parte da população vê o processo [de condenações contra Lula] como político e, por isso, não altera sua percepção com relação ao ex-presidente e ao PT.

    O mais impressionante com relação à Lava Jato é que ela afetou mais a popularidade dos outros partidos. Na pesquisa que eu citei, nós perguntamos a identificação das pessoas com os partidos e eles vão muito mal aos olhos da população brasileira, a maioria deles fica com nenhuma identificação, mas isso não acontece com o PT. É possível fazer o argumento de que a Lava Jato acabou consolidando uma base petista e diminuiu fortemente a identificação dos brasileiros com os outros partidos.

    José Álvaro Moisés Todo o processo de condenação e, agora, de prisão, atinge o coração da imagem do PT. Por mais prestígio que o Lula tenha, e ele construiu de fato um legado social importante, ninguém vai esquecer que ele está preso por corrupção. E isso causa um estigma na imagem do partido.

    Em um certo sentido, a experiência do Lula e do PT queimou o filme da esquerda. A corrupção era vista como uma prática de partidos mais conservadores, burgueses, mais comprometidos com a manutenção. E casos envolvendo um partido de esquerda levanta dúvidas [no eleitorado]: será que esse outro político de esquerda não vai repetir a mesma experiência de um líder como o Lula? Porque o Lula tem um significado mítico. Ele veio de baixo, era um retirante, se transformou em líder sindical, lutou contra a ditadura. O Lula criou um mito. Agora, quando um mito importante como esse se envolve em atos que são condenados por toda a sociedade, surge um estigma, que pode passar para outras figuras da esquerda.

    Se ele que teve toda essas história fez isso, as pessoas vão se perguntar por que outros não vão fazer a mesma coisa. É claro que eu estou partindo da premissa de que houve denúncia, processo, verificação de provas e o Lula foi condenado.

    Com relação à transferência de votos e à falta de um plano B do PT, como a ausência de Lula na rua impacta a eleição presidencial?

    Leonardo Avritzer Muito provavelmente haverá impacto, mas ainda não há evidências suficientes para afirmar como irá impactar. Nunca um candidato líder nas pesquisas eleitorais para a Presidência, com uma grande capacidade de transferência de votos, foi preso e ficou impedido tanto de concorrer como de fazer campanha.

    Ainda não se sabe qual vai ser o último capítulo dessa história, mas tudo indica que o Lula não vai ser candidato e não vai poder fazer campanha.

    Na última pesquisa que eu ajudei a realizar, 25% dos eleitores do Lula diziam que não votariam em ninguém [se o ex-presidente não pudesse concorrer]. Mas o mais provável é que essa seja uma atitude de revolta e na eleição eles acabem votando em alguém. E alguns candidatos aumentam suas intenções de votos [em cenários sem Lula], como Ciro Gomes (PDT). Outros são beneficiados de forma mais marginal, como o deputado Jair Bolsonaro (PSL).

    A pergunta que fica é: o Lula conseguiria controlar completamente esse processo [de transferência de votos]? Parece muito difícil, porque ele provavelmente terá muitos poucos meios de expressar seu apoio.

    José Álvaro Moisés Na atual fase, do Lula na cadeia, ele e o PT vão explorar a imagem de que o ex-presidente é vítima, vão continuar insistindo na tese de que é vítima de uma conspiração de elite. E é curioso porque parte das elites ganhou muito dinheiro nos governos dele, como o capital financeiro. Essa tese das elites é muito estranha. Uma boa parte dos ministros que votou contra o habeas corpus do Lula foi nomeada nos governos do PT.

    Em todo o caso, o Lula vai manter o discurso de que é vítima de um complô da elite. Agora, o registro que vai ficar é que ele foi preso por corrupção. É uma bandeira ambígua. Ao mesmo tempo em que o Lula se apresenta como vítima, as pessoas lembram que ele está preso por corrupção.

    É difícil avaliar, por ora, exatamente qual peso isso vai ter do ponto de vista eleitoral e de transferência de votos.

    Como a ausência de Lula na rua impacta a eleição parlamentar, para a formação da bancada da Câmara?

    Leonardo Avritzer É difícil de prever, mas é preciso levar em consideração que na eleição de 2014 o PT participou de uma coligação bastante ampla, o que contribuiu para uma certa redução da bancada petista. Em outras palavras, em 2014 o PT acabou elegendo menos deputados do que o seu potencial.

    Nesse sentido, uma análise prévia sobre o possível tamanho da bancada petista precisa levar duas questões em consideração. Quão ampla será a coligação e se há um candidato [à Presidência] que consiga manter a votação no patamar do nível de identificação partidária [do eleitorado com o PT], que está em torno de 19%.

    Muitos analistas argumentam que o PT deve receber, no mínimo, algo próximo desses 19% de votos no primeiro turno. Mas esse não é um argumento totalmente consolidado. Na minha leitura, dependendo do candidato e do cenário político, é possível que o PT receba menos votos do que esse percentual de identificação partidária, porque vai haver disputa para a ida ao segundo turno e isso pode afetar a decisão do eleitor [de realizar um “voto útil”].

    Especificamente sobre a questão da bancada, é muito provável que o PT participe de uma coligação menor e é evidente que ele terá um candidato mais fraco [do que o Lula]. Tudo indica que ele terá, também, uma bancada um pouco menor.

    José Álvaro Moisés O risco de que a ausência do Lula impacte o resultado do PT nas eleições [não só da Presidência] é muito grande. E essa é uma razão pela qual, acredito eu, não vai durar muito a ideia de manter o Lula como candidato de dentro da prisão.

    De certa forma, vai cair a ficha para candidatos a deputado, senador, governador, não dá para acompanhar alguém com uma candidatura [à Presidência] que não se realiza. O PT vai precisar de alguém que potencialize o que essas outras candidaturas precisam. O partido não vai acabar, ele não vai manter o Lula candidato na prisão e abandonar todo o resto. O PT vai querer eleger uma bancada [na Câmara], senadores, governadores, eu acho que a estratégia de manter a candidatura do Lula na prisão, apesar de tudo, não vai funcionar.

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: