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Os 4 eixos do discurso de Lula. E os últimos atos antes de ele se entregar

Ex-presidente decidiu aceitar prisão, mas diz que suas ideias vão continuar, defende seu legado como presidente, ataca a Lava Jato e dá sinais dos próximos passos até a eleição em 2018

    O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu se entregar à Justiça para ser preso neste sábado (7) à tarde e passou à custódia da Polícia Federal às 18h45. Ele acatou finalmente a determinação do juiz Sergio Moro, responsável pela Lava Jato em Curitiba. Moro havia decretado a prisão na quinta-feira (5) e pedido para Lula se entregar à Polícia Federal até as 17h de sexta-feira (6).

    O petista, porém, ficou desde quinta até sábado no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde iniciou sua carreira política. Do lado de fora do prédio, manifestantes fizeram uma vigília em defesa do ex-presidente, o que dificultou a execução da prisão.

    Às 10h40 de sábado (7), Lula saiu pela primeira vez do prédio, aos gritos de “Lula guerreiro do povo brasileiro”, para participar de missa em homenagem ao aniversário de sua mulher Marisa Letícia, morta em fevereiro de 2017. Subiu em um palanque montado na frente do sindicato, tendo ao seu lado quadros do PT como a ex-presidente Dilma Rousseff, os ex-ministros Celso Amorim, Gleisi Hoffmann e Aloizio Mercadante, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, o ex-senador Eduardo Suplicy, além dos pré-candidatos à Presidência Guilherme Boulos (PSOL), Manuela D’Ávila (PCdoB) e líderes sindicais.

    Um ato ecumênico, com participação de pastores evangélicos e luteranos, foi celebrado, comandado por dom Angélico Bernardino, bispo emérito de Blumenau. Ele era próximo de dom Paulo Evaristo Arns e cuidava da Pastoral Operária na época das greves do ABC, nos anos 1970. As falas dos políticos e clérigos foram intercaladas com músicas interpretadas por artistas que compareceram em solidariedade a Lula, como “Maria, Maria”, canção de Milton Nascimento e Fernando Brant. Os manifestantes em São Bernardo do Campo gritavam também “Resistência”, “Lula livre” e “Não se entrega” ao longo do ato.

    Às 11h50 a celebração religiosa foi encerrada com um discurso de dom Angélico, em que ele disse acreditar que o ex-presidente deve ficar em liberdade e que ele foi vítima de um julgamento injusto.

    Ao meio-dia pontualmente, Lula começou seu discurso saudando os políticos que estavam no palanque e seu histórico naquele sindicato, onde se projetou polticamente no anos 1970, liderando grandes greves em meio à ditadura militar. “Aqui foi minha escola, aqui eu aprendi sociologia, economia, aprendi química, física. E aprendi a fazer muita política.”

    Foram 55 minutos de fala de Lula, que encerrou com a frase: “Esse pescoço aqui eu não baixo. Vou de cabeça erguida e sair de peito estufado porque vou provar a minha inocência”. Após o discurso, Lula voltou para o prédio do sindicato. Tentou deixar o local, mas foi impedido por militantes às 17h, que barraram a saída do carro em que estava com seu advogado. Às 18h45, enfim, Lula deixou o prédio a pé, cercado por uma multidão. Houve empurra-empurra, mas Lula afinal passou à custódia da Polícia Federal, que o levou em um comboio de carros.

    O Nexo destaca abaixo os principais pontos do discurso.

    Me entrego, mas a ideia fica

    Na parte final de seu discurso em São Bernardo do Campo, às 12h42, Lula disse que vai aceitar o mandado de prisão. Mas que “suas ideias já estão pairando no ar, não tem como prendê-las”. O ex-presidente afirmou que, ao se entregar, estava fazendo “algo muito consciente”. Ao mesmo tempo em que ele sai de cena momentaneamente, aposta que a militância nas ruas será capaz de manter seu peso político.

    Lula é pré-candidato à Presidência da República e lidera as pesquisas de intenção de voto para 2018. Ele disse que “quanto mais dias eles me deixarem lá [na prisão], mais Lulas vão nascer neste país”, e “que a morte de um combatente não para a revolução”.

    “Eu vou lá [para a prisão] com a crença de que vão descobrir o que tenho dito todo dia. Eles não sabem que o problema deste país não se chama Lula, chama-se vocês, a consciência do povo. Não adianta tentar evitar que eu ande por este país. Porque tem milhões de Boulos, de Manuelas e Dilmas para andar por mim. [...] Meu coração baterá pelo coração de vocês. São milhões de corações.”
    “Eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia. Uma ideia misturada com as ideias de vocês.”

    ‘Crime foi cuidar dos pobres’

    Lula relembrou sua trajetória da liderança sindical à Presidência da República, cargo que ocupou entre 2003 e 2010, e defendeu o legado do seu governo. Afirmou que sempre se apoiou no contato direto com os mais pobres. E que trabalhou pela inclusão das pessoas desfavorecidas ampliando o acesso à universidade, reduzindo a mortalidade infantil e “fazendo pobre comer carne de primeira, andar de avião”.

    Para Lula, a razão de fundo pela qual tem sua prisão decretada neste momento pela Justiça, e pelo que considera uma perseguição por parte da imprensa, dos procuradores do Ministério Público e do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, a segunda instância, se deve a essa agenda de combate das desigualdades.

    “Eu sonhei que era possível levar estudantes das periferias para as melhores faculdades deste país, para que a gente não tivesse só juízes e procuradores da elite. Esse crime eu cometi. E é isso que eles não admitem. Se o crime que eu cometi foi levar comida e educação para os pobres, se foi por colocar pobre e negro na universidade, pobre comprar carro, viajar de avião, ter sua agricultura, eu vou continuar sendo criminoso neste país.”

    Ataques à Lava Jato

    Lula fez críticas à operação Lava Jato, que é julgada na primeira instância pelo juiz Sergio Moro. Atacou o procurador Deltan Dallagnol, o chefe da operação no Ministério Público, mas sem citar seu nome, por ter acusado Lula sem base em provas, mas em convicções.

    O ex-presidente afirmou que não está acima da Justica. “Se eu não acreditasse na Justiça eu não tinha feito partido político, eu tinha proposto uma revolução neste país. Mas  acredito numa Justiça justa, que decide com base na prova concreta.”

    Retomando um argumento que vem usando desde que passou a ser investigado, Lula afirmou que tanto os procuradores como os juízes promoveram seu julgamento de forma politizada e não técnica.

    “Não pensem que sou contra a Lava Jato, não. Se pegar bandido que roubou, tem que prender. Eu quero que continue prendendo rico. Mas você não pode fazer julgamento subordinado à imprensa. Porque você destrói a pessoa e aí o juiz vai decidir e diz que não pode contrariar a opinião pública. Quem quer julgar com a opinião pública, largue a toga e vá se candidatar por um partido político.”

    Radicalização das propostas

    Ainda na parte final de seu discurso, Lula convocou a militância para fazer protestos pelo país e defender seu legado e liderança política. Disse que os manifestantes devem tomar as ruas, “queimar os pneus” e “fazer as ocupações”.

    Fez menções ainda a questões programáticas. Disse que pretende, se conseguir ser reeleito, rever contratos da Petrobras, e que não aceitaria a venda da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil. Defendeu também a manutenção de um BNDES forte, assim como o financiamento da agricultura familiar. Falou que gostaria de fazer uma regulação dos meios de comunicação, “para que o povo não seja vítima de mentiras”.

    “Eu vou provar a minha inocência. Façam o que quiser, os poderosos podem matar uma, duas ou cem rosas. Mas jamais conseguirão deter a chegada da primavera.”

    O caminho judicial até a rendição

    A primeira decisão que aproximou Lula da prisão veio do Supremo Tribunal Federal. Na quarta-feira (4), a corte negou um habeas corpus preventivo que daria ao ex-presidente o direito de recorrer a todas as instâncias em liberdade. O placar foi apertado: seis ministros contrários a Lula, cinco favoráveis.

    O voto decisivo foi dado pela ministra Rosa Weber, que é contra a prisão em segunda instância como regra geral, mas votou contra o petista no caso específico por entender que era necessário seguir o entendimento estabelecido pelo Supremo em 2016.

    Às 17h30 da quinta-feira (5), o TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) publicou um of��cio autorizando que, a partir daquele momento, o juiz Sergio Moro decretasse a prisão de Lula. O juiz de Curitiba não demorou. Antes das 18h – menos de 30 minutos depois de receber o ofício do TRF-4 –, Moro expediu o mandado de prisão.

    O juiz de Curitiba também concedeu a Lula a “dignidade” de se entregar à Polícia Federal até as 17h da sexta-feira. O ex-presidente recusou o benefício e ficou na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

    Ao longo da sexta-feira (6), Lula esperou duas decisões judiciais que poderiam suspender sua prisão. A primeira foi um pedido de liminar do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, solicitando que condenados só começassem a cumprir a pena após a terceira instância – o que beneficia Lula. O ministro Marco Aurélio Mello, responsável por julgar o pedido de Kakay, afirmou que levará o pedido para o plenário do Supremo em 11 de abril.

    A defesa de Lula apresentou, também na sexta, um pedido de habeas corpus ao STJ (Superior Tribunal de Justiça). O ministro Felix Fischer negou essa demanda do ex-presidente durante a tarde. Os advogados do ex-presidente, então, recorreram da decisão ao Supremo e pediram para que o caso fosse julgado pelo ministro Marco Aurélio Mello – que é contrário à prisão em segunda instância.

    O sistema eletrônico que sorteia processos entre ministros, porém, enviou o caso para o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato na corte e favorável às prisões em segunda instância. Fachin negou a liminar no sábado, enquanto Lula estava no palanque em São Bernardo.

    O ex-presidente dormiu no prédio do sindicato, onde permaneceu, ao longo da sexta-feira (6), com amigos. Durante a madrugada, Lula apareceu na janela do prédio e acenou para os manifestantes.

    Lula e seus apoiadores discutiram se o ex-presidente deveria ou não se entregar à Polícia Federal, uma vez que o gesto poderia passar a imagem de confissão de culpa. Um pronunciamento do petista foi marcado para às 16h de sexta-feira (6), mas posteriormente foi cancelado. Em vídeo publicado pelo jornal El País, Lula afirmou: “acho que é prudente eu não falar”.

    Um dos fatores que pesou para as negociações esfriarem foi a missa em homenagem ao aniversário da esposa do petista, Marisa Letícia, que morreu em 2017 e faria 68 anos no sábado (7). Por volta das 19h, a Polícia Federal declarou que não tentaria mais executar a prisão de Lula na sexta. Como o ex-presidente não tentou fugir – sua localização era conhecida –, a Polícia Federal não o considerou foragido.

    A assessoria do juiz Moro também declarou que Lula não descumpriu nenhuma ordem judicial. O prazo de se entregar até as 17h era apenas uma “oportunidade”.

    Mesmo que a Justiça já tenha recusado ações anteriores, a defesa de Lula ainda pode apresentar novos pedidos de habeas corpus. O caminho será o mesmo das solicitações anteriores. Primeiro um julgamento no STJ. Se houver rejeição nessa instância, é possível recorrer ao Supremo. Outra opção para o ex-presidente é o Supremo votar – e revogar – a possibilidade de prisão a condenados em segunda instância.

    De olho em outubro

    Mesmo após ser condenado em segunda instância em janeiro, Lula seguiu dizendo que pretende se candidatar à Presidência – e lidera as pesquisas de intenção de voto para 2018. A Lei da Ficha Limpa barra candidatos que tenham sido condenados em segunda instância, mas Lula poderia contestar judicialmente se sua candidatura fosse impugnada.

     

    A campanha eleitoral começa em agosto. Chamou a atenção, porém, durante o discurso de Lula em São Bernardo do Campo, o protagonismo concedido a outros dois pré-candidatos que não são do PT: Guilherme Boulos, do PSOL, e Manuela D’Ávila, do PCdoB.

    Lula os saudou no início e, especialmente, no fim de sua fala, os apontou como a esperança de renovação política. Ao longo de praticamente todo o discurso, ambos ficaram ao lado do ex-presidente, no centro do palco, ao lado de Dilma Rousseff. Fernando Haddad, que já chegou a ser cotado como possível nome do PT para as eleições, foi brevemente apresentado por Lula e ficou no fundo do palanque a maior parte do tempo.

     

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