Estes são 10 momentos-chave da trajetória política de Lula

Entre a eleição para presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC na década de 1970 e a volta ao local às vésperas da prisão, petista construiu uma das trajetórias mais importantes da política brasileira

 

Com a prisão decretada pelo juiz Sergio Moro, Luiz Inácio Lula da Silva se entregou à Justiça neste sábado, em 7 de abril de 2018, depois de discursar à frente do Sindicato dos Metlúrgicos do ABC em São Bernardo do Campo. Às 18h45 ele deixou o prédio e passou à custódia da Polícia Federal, que o encaminhou para Curitiba.

Ele é o primeiro ex-presidente da história brasileira a cumprir pena pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, pelos quais foi condenado a 12 anos de prisão. Abaixo, o Nexo lista 10 momentos-chave de sua trajetória na política.

Greves do ABC e a prisão no Dops

Nascido no interior de Pernambuco em 1945, Lula surgiu como líder político no final da década de 1970, em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo. Ele havia assumido, em 1975, a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em plena ditadura militar. No posto, participou das grandes greves dos anos seguintes.

Em março de 1979, cerca de 200 mil trabalhadores fizeram a grande greve geral que projetou a imagem de Lula. Com as produções das montadoras Volkswagen, Ford, Mercedes e Scania paradas, a greve foi considerada ilegal pela Justiça. O Sindicato dos Metalúrgicos foi cercado pela polícia, mas Lula negociou uma trégua com os patrões e a greve acabou.

No ano seguinte, em nova greve, Lula teve seu mandato sindical cassado e foi preso com base na extinta Lei de Segurança Nacional, que existia na ditadura. O sindicalista ficou preso por 31 dias no Dops (Departamento de Ordem Política e Social), em São Paulo, onde chegou a fazer greve de fome.

A fundação do PT e da CUT

Em 10 de fevereiro de 1980, entre a primeira greve geral e a prisão, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. O PT representava, na esquerda, uma união inédita entre setores sindicais, intelectuais e alas progressistas da Igreja Católica.

No discurso, o partido também era diferente das outras legendas de esquerda do país. O PT não defendia o comunismo ainda em voga na União Soviética e tentava se distanciar de lideranças consolidadas como Leonel Brizola - herdeiro do getulismo.

Em 1982, o petista disputou sua primeira eleição. Disputou o cargo de governador do estado de São Paulo. Acabou em quarto lugar, com 1 milhão de votos, numa corrida vencida por Franco Montoro.

Em 1983, Lula participou da fundação da CUT (Central Única dos Trabalhadores). A entidade foi a primeira a unir sindicatos de várias áreas, que lutavam separadamente, e veio a se tornar a maior central de trabalhadores do país.

No ano seguinte, em 1984, Lula foi um dos líderes da campanha das Diretas Já, grande movimentação que tomou as ruas do país pedindo eleições diretas para presidente, nos estertores da ditadura. Apesar da pressão popular, a Emenda Constitucional das diretas foi rejeitada pelo Congresso na época.

As eleições de 89 e a ascensão política

O PT cresceu nas eleições seguintes. Elegeu prefeitos e deputados pelo país. Lula foi deputado constituinte, mas teve seu primeiro grande momento na primeira eleição presidencial direta da redemocratização em 1989.

Em um cenário pulverizado, com muitos candidatos, Lula despontou como principal candidato de esquerda, acabando o primeiro turno à frente de Brizola e de políticos que foram importantes na luta pela redemocratização, como Mário Covas (PSDB) e Ulysses Guimarães (PMDB).

A campanha uniu intelectuais e artistas, mas contava com resistências importantes de setores conservadores. O sonho de Lula acabou no segundo turno, quando foi derrotado pelo ex-governador de Alagoas Fernando Collor de Melo. Collor tinha o apoio de empresários e investidores, que temiam o discurso radical de Lula.

O primeiro presidente eleito após a ditadura, porém, acabou sofrendo impeachment, em meio a denúncias de corrupção, no ano de 1992.

As derrotas para FHC

Depois do impeachment de Fernando Collor, em 1992, Lula despontou como o grande favorito para a eleição seguinte, em 1994. O petista fez uma grande caravana pelo país e pretendia usar as imagens no horário eleitoral. Nos últimos meses antes da eleição, porém, a situação mudou para o candidato.

Em março de 1994, o então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso lançou a URV, o primeiro passo do que viria a ser o Plano Real para estabilizar a economia. O PT e Lula se opuseram à nova moeda desde o início.

Em 1º de julho de 1994, apenas três meses antes da eleição, o real foi lançado. A essa altura, Fernando Henrique Cardoso já havia deixado o cargo para disputar a Presidência. Ele levava os méritos pelo controle da inflação.

A eleição foi decidida já no primeiro turno. Lula teve 17 milhões de votos, pouco mais da metade dos 31 milhões obtidos no segundo turno em 1989.

Em 1998, com a inflação sob controle, FHC conseguiu se candidatar graças à emenda da reeleição aprovada em próprio favor. Lula se aliou a Brizola, mas perdeu novamente no primeiro turno.

 

A guinada e a vitória em 2002

O cenário da eleição de 2002 era diferente por vários motivos. O governo Fernando Henrique já tinha problemas de popularidade, o que atrapalhava o candidato do PSDB.

Nesse momento, cercado por assessores como José Dirceu, Luiz Gushiken e Antonio Palocci, Lula e o PT amenizaram o discurso de esquerda.

Com a “Carta ao Povo Brasileiro”, o partido buscou diminuir a rejeição que havia custado a vitória em 1989. O texto pregava o cumprimento de contratos e compromissos com a economia de mercado para diminuir a resistência de setores mais à direita da sociedade, empresários e investidores.

Lula foi eleito no segundo turno e participou de uma transição organizada com seu antecessor, Fernando Henrique. Para acalmar o mercado, convidou o então tucano Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central e implementou uma política econômica que priorizou o combate à inflação e o controle das contas públicas.

 

O escândalo do mensalão

Para governar, o PT se juntou a partidos de centro-direita com os quais não tinha alianças anteriormente. Em 2005, o presidente do PTB, Roberto Jefferson, denunciou que o PT havia comprado o apoio de partidos como o seu, PP e PL, com pagamentos periódicos. Era o escândalo do mensalão.

Uma CPI foi implantada no Congresso para apurar o esquema. Os principais políticos do PT e os principais ministros do governo Lula foram chamados a depor. José Dirceu, então o ministro mais poderoso do governo, teve de deixar a chefia da Casa Civil e voltar à Câmara. Ele foi cassado, assim como outros parlamentares. Pouco depois, Lula perdeu ainda o ministro da Fazenda Antônio Palocci, envolvido em outro escândalo.

Nas vagas dos dois entraram, respectivamente, Dilma Rousseff (Casa Civil) e Guido Mantega (Fazenda), personagens-chave dos anos seguintes. O resultado das políticas sociais do governo deram frutos eleitorais. Em outubro de 2006, Lula foi reeleito com o slogan "deixa o homem trabalhar".

 

'O cara'

O segundo governo de Lula foi mais bem-sucedido política e economicamente. O país cresceu, o desemprego diminuiu e a popularidade do presidente bateu recordes positivos.

Guido Mantega comandou a economia com uma política de incentivos e Dilma Rousseff liderou obras de infraestrutura do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Um terceiro mandato de Lula chegou a ser cogitado pela imprensa, mas não se concretizou.

A confirmação da descoberta de grandes reservas de petróleo no pré-sal em 2007 inaugurou uma onda de otimismo com o Brasil ao redor do mundo. O país foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Em 2010, Lula não teve problemas para eleger sua sucessora, Dilma Rousseff, que nunca havia disputado uma eleição na vida. Em 1º de janeiro de 2011, o petista deixou o cargo como o presidente mais popular da história recente no Brasil.

Fora do cargo, superou um câncer e passou a viajar pelo mundo dando palestras. Esse foi o auge do prestígio internacional do ex-presidente.

 

A Lava Jato e o declínio do PT

Em junho de 2013, protestos contra políticos em todo o Brasil derrubaram a popularidade de Dilma Rousseff. No ano seguinte, a operação Lava Jato foi deflagrada, revelando um esquema de corrupção na Petrobras envolvendo empresários, funcionários e partidos políticos.

PT e aliados foram os principais atingidos, acusados de cobrar propinas disfarçadas de doação eleitoral em troca de contratos da estatal. As investigações abalaram ainda mais o governo Dilma.

Lula ajudou na reeleição da sucessora em 2014, apesar de suspeitas de um relacionamento abalado. A vitória foi apertada e os adversários de Dilma começaram a contestar o resultado.

Nas eleições municipais de 2016, o PT viu cair drasticamente seu número de prefeitos pelo Brasil. A principal derrota veio em São Paulo, que elegeu João Doria, do PSDB, em primeiro turno. Lula colocou seu peso político no palanque ao lado de Fernando Haddad, seu ex-ministro, mas o petista não conseguiu se reeleger.

O aperto da Justiça

No dia 4 de março de 2016, policiais federais chegam ao apartamento de Lula em São Bernardo do Campo e o levam para depor à força. O petista passava a ser oficialmente um alvo da Lava Jato suspeito de ter recebido um tríplex em Guarujá da empreiteira OAS, além de propina disfarçada de pagamento por palestras.

A condução coercitiva motivou reações dos correligionários de Lula, que já estava com o telefone grampeado por ordem do juiz Sergio Moro. Em 16 de março de 2016, Lula foi anunciado ministro-chefe da Casa Civil do governo Dilma Rousseff, mas antes da posse Moro liberou áudios de todos os telefonemas dados pelo presidente.

Sob o argumento de que Dilma havia convidado Lula para o ministério apenas para dar a ele foro privilegiado, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo, impediu que o ex-presidente fosse empossado. Lula continuou sob a jurisdição de Moro e o governo Dilma caiu menos de dois meses depois.

Ainda em 2017, a Lava Jato denunciou Lula no caso tríplex. Sergio Moro condenou o ex-presidente por corrupção e lavagem de dinheiro em julho. Em janeiro de 2018, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região confirmou a decisão e aumentou a pena para 12 anos e 1 mês de detenção.

 

A prisão como pré-candidato

Lula se diz vítima de uma perseguição judicial movitada pela política. Segundo ele e seus aliados, o objetivo é impedi-lo de voltar ao comando do país.

A decisão dos desembargadores do TRF-4, de segunda instância, já prevê o início do cumprimento imediato da pena e coloca o petista sob o crivo da lei da Ficha Limpa, que impede candidatos nessa situação.

Começou aí a contagem regressiva para a prisão de Lula. O ex-presidente fez uma caravana pelo Sul do Brasil para se defender. Manifestantes contrários fizeram protestos em diversas cidades e tentaram impedir seus comícios.

O ápice dos ataques aconteceu em 27 de março de 2018, quando dois dos três ônibus da caravana de Lula foram atingidos por tiros em uma estrada no interior do Paraná. Ninguém se feriu.

No dia 4 de abril, o Supremo Tribunal Federal rejeitou por seis votos contra cinco o pedido de habeas corpus do ex-presidente e abriu caminho para execução de sua prisão. No dia seguinte, Sergio Moro a decretou. Deu um prazo de 24 horas para que Lula se apresentasse à Justiça Federal em Curitiba. O petista não atendeu ao pedido de Moro e ficou dentro do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo, onde começou sua carreira política, até depois das 17h da sexta-feira (6). Manifestantes simpáticos ao ex-presidente cercaram o prédio.  Às 10h40 de sábado, 7 de abril de 2018, deixou o prédio e participou de ato ecumênico em frente ao sindicato. Discursou por 55 minutos dizendo que não seria possível prender suas ideias. Durante a tarde, militantes petistas tentaram impedir que Lula deixasse o sindicato. Ele se entregou, então, às 18h45: saiu do sindicato direto para um carro da Polícia Federal e foi encaminhado para Curitiba.

Lula pode seguir como pré-candidato e tentar se eleger em outubro. Ele está sujeito à Lei da Ficha Limpa, que considera inelegíveis condenados em segunda instância. Para conseguir se manter na disputa teria que recorrer a liminares junto à Justiça.

 

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