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Como funciona o app que ajuda testemunhas a lembrar detalhes de crimes

Ainda limitado a usuários australianos, aplicativo iWitnessed pretende servir de ferramenta por testemunhas de crime e ajudar a manter precisão de fatos presenciados por elas

     

    Pesquisadores australianos lançaram nesta segunda-feira (2) um aplicativo chamado iWitnessed (“eu testemunhei”, em inglês), cuja função é ajudar testemunhas a registrar suas visões de um crime visando garantir a precisão dos fatos assim que eles acontecerem.

    O aplicativo – ainda restrito apenas à Austrália – parte de uma série de fatores ligados à memória e precisão de relatos sobre fatos testemunhados, ambos temas de pesquisa dos seus criadores.

    De acordo com o grupo, formado por pesquisadores do departamento de psicologia forense das Universidades de Sydney e de Nova Gales do Sul, na Austrália, diante de situações traumáticas nossa memória tende a se distorcer com o tempo e com as chamadas informações pós-evento.

    “Isso é particularmente verdade quando há um grande período de tempo entre a observação do evento e o depoimento à polícia. Nós nos esquecemos de detalhes muito rapidamente, e quanto mais nos esquecemos, mais nossas memórias ficam propensas a imprecisões”, explicou a pesquisadora Helen Paterson, que fez parte da equipe responsável pelo iWitnessed.

    A constatação reforça o tamanho do problema de quando, por diversas razões, policiais deixam de colher o depoimento de testemunhas assim que eles acontecem. Foi o que aconteceu, por exemplo, no caso do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) no dia 14 de março.

    No último domingo (1°), o jornal O Globo reportou o caso de duas testemunhas que foram dispensadas por policiais quando esses chegaram na cena do crime.

    Em entrevista ao Nexo, o pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, André Zanetic, comentou como deveria ser a atuação policial nesses casos.

    “Os policiais militares estão na cena do crime, e é inevitável que conversem com as pessoas. O tanto quanto possível, eles devem pegar os dados de quem pode ter visto o que ocorreu, mesmo sem os investigadores da Polícia Civil estarem presentes”, disse Zanetic. “Não tenho dúvidas de que essas primeiras informações que os policiais militares podem obter são as mais úteis.”

    Memória digital

    A pesquisadora Helen Paterson cita pesquisas que indicam que o tempo é crucial para a precisão de informações testemunhadas. Para evitar que os detalhes escapem, uma técnica é recontar para si todas as partes do acontecimento logo depois de ele ter acontecido – se possível, dentro do prazo de 24 horas.

    É nesse ponto que o aplicativo iWitnessed busca se mostrar útil. Em sua tela inicial, o usuário indica que quer criar um novo registro. Na sequência, ele é convidado a responder perguntas (por meio de texto ou áudio) como: O que aconteceu? Quando? Quem estava presente? O que foi dito? Havia armas? E veículos? Algo foi roubado ou danificado? Alguém se machucou? Ou ainda, onde se deu o ocorrido? Para esse item, o aplicativo usa a localização do usuário para auxiliá-lo na indicação precisa da região do crime.

    Além disso, todas as informações inseridas pelo usuário são registrados no aplicativo pelo horário. O relato completo pode ser transformado em um documento PDF deixando-o pronto para ser enviado para a polícia. A expectativa dos criadores do aplicativo é de que o relato feito imediatamente após o ocorrido pela testemunha possa um dia ser apresentado em tribunal como elemento de evidência.

    “Ainda que muito rudimentar, essas anotações podem somar à confiabilidade e força das evidências dadas durante o processo judicial”, diz Paterson, referindo-se ao sistema australiano. Por ora, o relato registrado pelo aplicativo pode, ao menos, ajudar a testemunha a relembrar com precisão dos fatos antes de depor à polícia ou no tribunal.

    “Esperamos que a informação coletada pelo iWitnessed venha facilitar a prática policial e investigações bem como o litígio de julgamentos criminais e civis”, disse.

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