Qual o papel do WhatsApp na disseminação das fake news

‘Primeira camada’ das notícias falsas, aplicativo de mensagens não permite mensurar as informações que circulam nele

 

“Missão impossível” é como o pesquisador Fabio Malini define qualquer tentativa de mensurar a circulação de fake news no WhatsApp. Assim como na eleição de 2014, apelidada de “eleição WhatsApp”, o aplicativo deve ocupar papel central na circulação de informações, verdadeiras e falsas, durante as eleições de 2018. Tudo isso longe dos olhos do público.

No debate sobre a responsabilidade das empresas de internet com relação à circulação de notícias falsas, o foco geralmente se volta para o Facebook. Em resposta, a rede social criada por Mark Zuckerberg tem realizado diversas ações no sentido de combater fake news, entre elas parcerias com sites de checagem de fatos e identificação de jornalistas que assinam notícias.

Se fala bem menos do WhatsApp, sendo que muito do que aparece no Facebook começou sua trajetória no aplicativo. “É a primeira camada, a camada privada, das informações não-checadas”, de acordo com Malini, coordenador do laboratório de estudos sobre imagem e cibercultura (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo, que estuda redes sociais desde 2007.

“Imagine criar um sistema de monitoramento de todas as mensagens do WhatsApp, o que isso iria virar.”

Francisco Brito Cruz

Diretor do InternetLab

Tecnicamente, muito do material que circula não poderia nem ser chamado de fake news. “Não é uma fabricação em forma de notícia, em site que parece noticioso”, avalia Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab. “Tem jeito de boato mesmo.”

Em 31 de janeiro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, e demais ministros da corte fizeram uma reunião para debater o tema fake news e as eleições de 2018 com a participação de representantes do Facebook, Google, Twitter e Facebook. Não foram divulgadas as propostas discutidas no encontro.

Como se compartilha no WhatsApp

No aplicativo, as informações podem ser transmitidas entre perfis individuais, mas a maior divulgação acontece nos grupos, que podem ser de pessoas da mesma família ou relacionados a algum interesse profissional.

Na visão de Malini, isso explica o sentido de “proteção” envolvido na escolha de muito do que é compartilhado. Além do conteúdo de caráter político, há muita coisa relacionada à segurança e à saúde também.

Diferentemente do Facebook, aplicativo oferece menor risco de exposição a quem divulga informação que se prova falsa ou improcedente

Para Brito, do InternetLab, é a mesma lógica da corrente de e-mails de anos atrás, que também avisavam “do arrastão no bairro, do remédio que funciona, mas que os médicos não querem divulgar”. Para o pesquisador, é uma dinâmica de intimidade que “facilita o boca a boca, para o bem e para o mal”.

Ao mesmo tempo, nesse tipo de informação, segundo Brito, “sempre tem alguém que dá algum tipo de legitimidade para a informação e que não é necessariamente um jornalista: ‘um delegado que eu conheço, um amigo que conheço que trabalha na PF, o primo do amigo que trabalha nos Correios’”.

De acordo com Malini, há também em quem compartilha a vontade de se mostrar relevante e ganhar status na rede. É o desejo de “dar o furo antes” para obter credibilidade no grupo. Ao mesmo tempo, lembrou Brito, como a informação ainda não está checada, o aplicativo oferece menor risco de exposição caso ela se prove falsa ou improcedente, diferentemente do Facebook.

As informações acabam migrando para outras esferas, acreditam os pesquisadores ouvidos pelo Nexo. “Dificilmente uma notícia falsa ou boato reside apenas no WhatsApp”, pontuou Malini, que não acredita que existam pessoas que só se informam pelo aplicativo de mensagens.

O pesquisador também pontua que, dado o fluxo intenso de conteúdo, o WhatsApp também “força o esquecimento com mais facilidade do que outros veículos”. Além disso, não há muito lugar para os “textões”, posts longos típicos do Facebook, e material em vídeo pode ser prejudicado porque depende da disponibilidade de uma quantidade maior de dados do celular.

É possível monitorar?

Quando uma mensagem é enviada por um usuário no WhatsApp, ela é criptografada no momento do envio e circula pela rede codificada, sendo “traduzida” de volta no momento em que chega ao seu destino.

Isso torna impraticável a coleta de dados de mensagens baseada em palavras ou hashtags, método usado no estudo de redes sociais como Facebook ou Twitter. Fabio Malini, que regularmente publica análises da repercussão de temas como o assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, ou do impeachment da presidente Dilma Rousseff, costuma se valer de dados do Twitter. Segundo ele, o WhatsApp é pouco estudado por quem trabalha com esse tipo de pesquisa.

Brito questiona se é desejável, afinal, esse tipo de monitoramento ou inspeção em um aplicativo de caráter privado. “Imagine criar um sistema de monitoramento de todas as mensagens do WhatsApp, o que é que isso iria virar”, explicou Brito.

Para ele, quebrar a criptografia do WhatsApp, uma ferramenta de segurança, deixaria os usuários do aplicativo vulneráveis a criminosos. O MPF (Ministério Público Federal) chegou a especular sobre tal medida, mas mudou o discurso posteriormente.

A segunda maior rede

O WhatsApp conta com 120 milhões de usuários no Brasil, segundo dados da empresa, que pertence ao Facebook. É cerca de 10% do número de inscritos em todo o mundo, de 1,2 bilhão.

O volume de usuários brasileiros é quase idêntico ao de pessoas que usam o Facebook, que totalizou 122 milhões de perfis no último trimestre de 2017.

O Instagram, por sua vez, conta com 50 milhões de usuários ativos mensais do Brasil, segundo dados de 2017. Números do mesmo ano mostravam o Twitter com quase 28 milhões de perfis no país.

 

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