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Quais as explicações para o ruído de estalar os dedos

Apesar de décadas de pesquisas sobre o tema, a origem do barulho ainda não é consenso entre os cientistas

    O som estalado que você ouve quando dobra os dedos para trás acontece porque suas articulações estão cheias de uma substância viscosa, chamada de fluido sinovial. Esse líquido, que preenche o espaço entre dois ossos, contém gases dissolvidos na sua composição. Quando há um movimento brusco (um estalar de dedos, por exemplo), a pressão na área diminui. Isso faz com que o gás se agrupe em forma de bolhas, essas sim, responsáveis pelo ruído.

    A descrição do fenômeno é razoavelmente simples. Entender o processo por completo, porém, é algo que mobiliza os cientistas há mais de seis décadas. O primeiro experimento foi feito em 1947, quando pesquisadores usaram uma série de raios-x para flagrar bolhas em articulações, e atribuir o barulho à sua movimentação.

    24 anos depois, em 1971, outra pesquisa cravou que o som em questão era fruto da explosão das tais pequenas esferas de ar. O ar liberado pelo rompimento continua armazenado na área, e, depois de algum tempo, se dissolve novamente no fluido sinovial, permitindo que a pessoa estale os dedos novamente.

    O mistério parecia ter sido finalmente resolvido em 2015, depois que um grupo de pesquisadores da França e dos Estados Unidos surgiu com a explicação definitiva para o barulho - diferente da hipótese mais aceita até então. O ruído característico de quando estalamos os dedos seria resultado da formação das bolhas de ar que ocupam o espaço entre articulações, como assumia a pesquisa de 1947, e não de seu estouro.

    A pesquisa, publicada na revista científica PLOS One, utilizou imagens de ressonância magnética para captar o movimento nos dedos de um dos cientistas. O resultado foi resumido neste vídeo.

    Outras interpretações

    Apenas três anos depois de vir a público, a explicação é agora contestada novamente. Isso porque um novo estudo, publicado no jornal Scientific Reports, defende a ideia de que o estouro das bolhas é o real responsável pelo barulho.

    Para chegar a essa hipótese, cientistas deram uma abordagem matemática ao problema. O rompimento das bolhas produz ondas acústicas que foi calculado com base em três equações.

    “A primeira equação descreve as variações de pressão nas juntas quando estalamos as articulações”, disse o co-autor do estudo Abdul Barakat, em entrevista à BBC. “A segunda é uma já bem conhecida, que descreve como as bolhas variam de tamanho em resposta às mudanças de pressão. E a terceira procura encontrar padrões no tamanho das bolhas com aquelas que produzem som.”

    Os cientistas justificam a escolha argumentando que o comportamento das bolhas não pode ser captado totalmente por câmeras comuns. Todo o fenômeno acontece em 300 milissegundos, o que demanda uma resolução de cerca de 1.200 fps (frames por segundo) para que se registre a ação. No vídeo de 2015, por exemplo, a taxa utilizada foi de 3.2 fps.

    Em parceria com Vineeth Chandran Suja, à época graduando da Escola Politécnica da França, Barakat criou um modelo matemático para a articulação metacarpofalangeana - nome dado à união de metacarpo e falange, pequenos ossos da mão. Com esse modelo, a dupla conseguiu simular o movimento pelo computador, sem precisar analisar voluntários humanos.

    Os resultados mostraram que as bolhas de ar não se partem totalmente. Ao invés de explodirem, é como se elas apenas diminuíssem. Depois do barulho, uma bolha passa a ter entre 30 e 40% do tamanho original.

    Tal conclusão, de certa forma, dialoga com a teoria rival, elaborada há três anos. Para dizer que o “clack” não era causado pelo rompimento das bolhas de ar e sim pelo deslocamento, o estudo de 2015 argumenta que pode-se enxergar a bolha mesmo após o som - como você acompanhou no vídeo.

    Apesar da semelhança que aproxima ambas as visões, a discussão sobre qual modelo é mais preciso parece longe de acabar. Em entrevista ao site Gizmodo, Greg Kawchuk, que chefiou a pesquisa refutada, questionou a razoabilidade da nova teoria. “É preciso ressaltar que o trabalho em questão orientou seu estudo por um modelo matemático, que não foi validado por testes experimentais - o que quer dizer que não sabemos se isso vale mesmo na vida real”, disse o cientista.

    A explicaç��o do fato de nem todo mundo conseguir reproduzir o estalo está na cavidade entre os ossos. “Algumas pessoas não conseguem porque o espaçamento entre suas articulações é grande demais para que isso aconteça”, explicou Barakat ao The Guardian. Ao contrário do que prega o senso comum, estalar os dedos não aumenta o risco de artrite, como comprovou este estudo. 

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