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A relação em disputa sobre maconha medicinal e queda de opioides nos EUA

Pesquisas apontam redução no número de prescrições de opioides a pacientes em estados que permitem o consumo de maconha para fins medicinais

    A população dos Estados Unidos enfrenta atualmente uma grave crise de uso abusivo de opioides, drogas sintéticas ou semissintéticas que levam ópio na base (como morfina, heroína, oxicodona e fentanil) e que agem no alívio da dor, entre outros efeitos.

    Em meio ao debate sobre as melhores formas de lidar com o problema, o uso de uma outra droga tem sido apontado como parte de uma possível solução: a maconha.

    Isso porque a droga, além de também ter efeito analgésico, tem potencial menor de causar dependência ou overdose. Por isso, em estados em que o uso medicinal ou recreativo da maconha é permitido, pacientes e médicos podem recorrer ao seu uso e, assim, reduzir o consumo dos opioides.

    É o que indicam dois estudos publicados nesta segunda-feira (2) na revista científica americana Jama (Journal of the American Medical Association).

    Leis, maconha legal e menos opioide

    O trabalho capitaneado pela Dra. Hefei Wen, professora na Universidade de Kentucky e pesquisadora especialista em políticas de saúde e controle de drogas, analisou dados de 2011 a 2016 do programa de saúde bancado pelo governo chamado Medicaid, do qual fazem parte mais de 74 milhões de americanos de baixa renda.

    Os pesquisadores envolvidos constataram que nos estados em que o uso de maconha para fins medicinais é legal, houve queda de 5,8% do volume de prescrições de opioides. Em estados que permitem também seu uso recreativo, a queda foi de 6,3%.

    “Leis para uso médico e legal de marijuana têm o potencial de reduzir as prescrições de opioides a usuários do Medicaid, uma população de alto risco para dores crônicas, uso abusivo de opioide e overdose de opioide; a liberalização da maconha pode servir como parte de um pacote abrangente para se combater a epidemia de opioides.”

    Hefei Wen e Jason Hockenberry

    Pesquisa publicada no Jama, em 2 de abril de 2018

    O outro estudo, liderado pela equipe de W. David Bradford, pesquisador doutor do departamento de administração e políticas públicas da Universidade da Georgia, se voltou à análise de dados de 2010 a 2015 com o mesmo objetivo, mas centrado em outro público. Chamado de Medicare Part D, trata-se de um programa de subsídio na compra de medicamentos prescritos do qual fazem parte, na maioria, pessoas com mais de 65 anos.

    Os resultados da pesquisa apontaram que, em cinco anos, o número de prescrições de opioides reduziu para 3,7 milhões de doses diárias, em estados que permitem a compra e uso medicinal ou recreativo de maconha. Estados com leis que permitem também o cultivo doméstico de maconha, a queda foi de 1,7 milhões. Como referência, no mesmo período, uma média de 23 milhões de doses diárias de opioides foram prescritas por ano dentro do programa da Medicare.

    Bradford, que aponta no estudo o fato de que, entre 2000 e 2015, o número de mortes ligadas ao uso de opioides cresceu 320%, explica por que os dados corroboram a inclusão de leis pró-maconha como parte de uma política maior de combate ao uso abusivo de opioides.

    “Nós sabemos que a cannabis apresenta um risco muito menor do que os opiáceos, bem como um menor potencial de dependência (...) E certamente nenhum risco de morte”, disse o pesquisador à rádio pública americana NPR, referindo-se a fatalidades causadas pelo uso da droga em si.

    Tamanho da crise

    De acordo com dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA), em um período de 14 meses, entre 2016 e 2017, o número de overdoses causadas pelo uso de opioides cresceu 30% no país, chegando a 142 mil casos, fatais ou não. Quanto ao número de mortes, só em 2016 o país contabilizou 64 mil fatalidades associadas ao uso de opioides prescritos ou adquiridos ilegalmente.

    Série de dados

    Embora ainda não possam afirmar categoricamente que a queda do número de prescrições de opioides se deve à adoção de tratamentos que envolvam o consumo de maconha, os pesquisadores confiam que a relação entre os dados obtidos é um forte indicador a ser observado pelos formuladores de política de saúde no país.

    As recentes pesquisas reforçam o que outros trabalhos já vinham indicando nos últimos anos.

    Em 2014, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, analisando o período entre 1999 e 2010, constataram queda de 25% na taxa de mortalidade por overdose de opiáceo nos estados onde o uso de maconha era legal na comparação com aqueles onde seu consumo ainda era proibido.

    Já em 2016, pesquisadores da Universidade de Michigan acompanharam um grupo de 185 pacientes de dor crônica que passaram a consumir maconha com finalidade medicinal de um dispensário local. De acordo com o estudo, os pacientes relataram uma redução de 64% sobre o uso de medicamentos opioides a eles prescritos. Os entrevistados relataram ainda terem menos efeitos colaterais e melhora na qualidade de vida.

    Em 2017, dois estudos realizados pelas universidades do Norte do Texas e do Novo México, investigando o mesmo tema, chegaram a resultados que apontam para a mesma direção. No primeiro caso, em estados onde a maconha é legalizada, as mortes por abuso de opioides caíram 6,5% no estado do Colorado. Já o segundo estudo indica que pacientes com acesso a medicamentos derivados da cannabis tinham uma chance 17 vezes maior de parar de usar opioides em relação aos que não têm o mesmo acesso.

    Debate e os riscos da cannabis

    Embora científico, o discurso em defesa de políticas liberalizantes sobre maconha contra a crise de opioides enfrenta resistência de quem vê no uso da maconha um novo problema.

    No início de fevereiro de 2018, o procurador-geral da república americano Jeff Sessions apontou o consumo de “marijuana e outras drogas” não como solução, mas como causa da crise de opioides.

    A fala do procurador reflete o que uma pesquisa do departamento de psiquiatria do Centro Médico da Universidade Columbia, em Nova York, demonstrou em janeiro deste ano: que o uso ilegal de cannabis parece aumentar em vez de diminuir o uso abusivo de opioide.

    Independentemente da conclusão desse debate, especialistas apontam para a necessidade de não se ignorar que, apesar de apresentar um risco muito baixo de overdose e morte, o uso regular de maconha ainda oferece efeitos negativos significativos a seus pacientes.

    Como aponta à NPR o pesquisador da Universidade da Georgia, W. David Bradford, “só porque ela [maconha] não é tão perigosa como outras coisas por aí, isso não significa que você precisa necessariamente promovê-la”. “Ainda há muitas questões sem respostas.”

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