Ir direto ao conteúdo

Twitter decide barrar anúncios de novas moedas virtuais. Por que isso importa

Empresa segue Facebook e Google em decisão que procura evitar que a rede siga sendo usada por esquemas potencialmente fraudulentos

    O Twitter passou a proibir a veiculação de anúncios de ICOs (sigla em inglês para ofertas iniciais de moedas virtuais), bem como serviços de carteira virtual e de câmbio associados a esse tipo de tecnologia. A medida foi anunciada em 26 de março de 2018 e deve passar a valer no prazo de um mês.

    “Sabemos que esse tipo de conteúdo é geralmente associado a práticas enganosas e fraudulentas”, disse um porta-voz da rede social, em nota divulgada por e-mail. Além de anúncios, a empresa passaria a identificar contas de usuários que promovem esse tipo de comércio pelo Twitter. Apenas anúncios promovidos por empresas com capital aberto e listadas em bolsas de valores reconhecidas serão permitidos.

    O que é ICO

    A sigla ICO se refere ao termo “initial coin offering” ou oferta inicial de moeda, em português. Ela consiste na criação e venda de uma nova moeda virtual – como o bitcoin –, que poderá ser usada futuramente pelo comprador para adquirir os produtos ou serviços da própria start-up responsável pela moeda.

    Isso se a start-up conseguir levantar a verba necessária para se tornar efetivamente uma empresa real. As chances de isso não acontecer dão a medida do risco que investidores desse tipo de operação enfrentam.

    Em geral, a expectativa do investidor é de que a empresa seja de fato criada, prospere e o valor da moeda aumente. Caso isso aconteça, ele poderá lucrar ao vendê-la a outros interessados por um preço bem acima do pago por ele na época da ICO.

    Trata-se de uma prática semelhante aos IPOs (initial public offering) feitos por empresas quando optam por abrir seu capital em uma bolsa de valores. Entre outras finalidades, o IPO é uma forma comum de uma empresa arrecadar dinheiro, o que se dá por meio da venda de suas ações no mercado financeiro.

    A oferta inicial de moeda cumpre um objetivo semelhante e tem sido usado – com uma frequência crescente por startups de tecnologia desde 2013 – como alternativa ao IPO por ser menos burocrática, custosa e não envolver perda de controle acionário.

    Em janeiro, a Kodak anunciou sua intenção em fazer a ICO de uma moeda chamada Kodak Coin. A ideia é que ela  pudesse ser usada como meio de pagamento a fotógrafos pelo uso de imagens produzidas por eles.

    Facebook, Google e o peso do Twitter

    A atitude do Twitter não está isolada. Na verdade, o anúncio ocorre tempos depois de Facebook e Google tomarem a mesma decisão.

    Como notou o site de tecnologia Recode, a primeira decisão do tipo, tomada pelo Facebook, foi recebida com surpresa, já que sentam à mesa do conselho da rede social investidores conhecidos por apoiar moedas virtuais, tais como Marc Andreessen e Peter Thiel.

    O mesmo pode ser dito do fundador e atual presidente do Twitter, Jack Dorsey, que disse, em setembro de 2017, se tratar uma “questão de tempo” até que a sociedade conheça os benefícios das criptomoedas.

    Apesar de o banimento por Google e Facebook – ambos responsáveis pelo maior volume de receita em publicidade no meio digital – ter pesado para o mercado de moedas virtuais, a decisão recente do Twitter deve representar um problema maior a quem se vale das criptomoedas para cometer fraudes.

    De acordo com Jared Podnos, executivo do Twitter responsável pela oferta de serviços de tendências financeiras da plataforma, moedas virtuais têm crescido vertiginosamente como assunto na rede, sobretudo desde o início de 2017.

    Foto: Reprodução/Jared Podnos/Twitter
    Bitcoin chart by Twitter
    Gráfico feito pelo Twitter relaciona volume de tweets sobre bitcoin (colunas) e seu valor no mercado (linha)

    Ainda de acordo com Podnos, citando o diretor da empresa Social Market Analytics – que monitora redes para o mercado financeiro –, o Twitter “está claramente tomando a liderança como o lugar para as discussões relacionadas às novas tecnologias monetárias”.

    Para o consultor financeiro ouvido pela Reuters, Zennon Kapron, a decisão do Twitter pode até tirar recurso da empresa, mas a dispensa de um problema ainda maior. “Embora certamente os anúncios de ICOs tenham funcionado como uma fonte significante de receita para o Twitter, as repercussões de atividades fraudulentas simplesmente não valem o risco.”

    Moedas em baixa

    Ao passo que moedas virtuais alternativas – ou “altcoins”, assim chamadas para diferenciá-las da mais conhecida e melhor estabelecida moeda do tipo, o bitcoin – se tornaram cada vez mais populares, órgãos reguladores do mercado financeiro passaram a se pronunciar e apontar seu alto potencial de fraude.

    Em dezembro de 2017, o presidente da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) se manifestou a respeito da “agitação” causada pelas criptomoedas nas redes sociais e esclareceu que, ao contrário do que autores de esquemas fraudulentos possam ter dito, a SEC não havia chancelado nenhum ICO até a data.

    Na ocasião, a entidade produziu um site dedicado ao tema e fez uma série de recomendações a seus investidores sugerindo cautela e “extremo cuidado” ao aplicar dinheiro em operações do tipo.

    Por aqui, a CVM brasileira, que já havia proibido fundos de investirem em criptomoedas, preparou uma lista de riscos ligados a ICOs, entre eles os de “fraudes e pirâmides financeiras”, “lavagem de dinheiro ou de evasão fiscal ou de divisas”, “atuação de prestadores de serviços sem observância da legislação aplicável” e “material publicitário de oferta que não observa a regulamentação da CVM”.

    Desde que a primeira das três empresas do Vale do Silício anunciaram o veto a anúncios de ICOs e criptomoedas, os valores de outras moedas como bitcoin e ether (Ethereum) vêm continuamente caindo. Só na segunda-feira, após o anúncio do Twitter, o valor do bitcoin despencou 8,4%, voltando ao patamar de US$ 8 mil, cifra 42% menor do que a do início deste ano.

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!