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Por que Israel está atacando a Faixa de Gaza

Perto da fronteira, 17 palestinos foram mortos por forças israelenses. Governo defende ação, apesar de críticas internacionais

A histórica tensão entre Israel e o mundo árabe, especialmente a Palestina, ganhou um novo episódio na virada de março para abril de 2018.

Na sexta-feira (30), durante um protesto na Faixa de Gaza, em área palestina nas proximidades da fronteira com Israel, forças israelenses mataram 17 manifestantes. Foram mais de mil feridos, atingidos por armas de fogo ou balas de borracha.

A ação dos militares israelenses contra os palestinos recebeu críticas de líderes estrangeiros, organizações de direitos humanos e da Autoridade Palestina, poder executivo dos territórios.

Por outro lado, Israel defendeu o uso de fogo contra quem se aproxime da fronteira ou possa representar uma ameaça ao país.

Que protesto era esse

Na sexta-feira (30), dia do maior protesto e com mais casos de violência, havia aproximadamente 30 mil pessoas protestando no local, segundo estimativas dos próprios militares israelenses.

O protesto foi organizado inicialmente pelo ativista digital palestino Ahmed Abu Artema, para durar seis semanas e culminar no dia 15 de maio. A data representa o aniversário de 70 anos da fundação de Israel e da guerra iniciada logo em seguida entre o novo Estado e países árabes vizinhos.

A proposta é que os manifestantes acampem em um local a menos de um quilômetro da fronteira com Israel, numa estrutura com internet sem fio, banheiro, comida e água gratuitos.

Rapidamente, o Hamas, partido político que controla a Faixa de Gaza e também possui um braço armado, apoiou o plano, emitindo mensagens de incentivo para que mais pessoas fossem ao acampamento e aos protestos. O Hamas declara que seus apoiadores que participaram das manifestações estavam “lado a lado” com as demais pessoas, não lideravam a ação.

A principal pauta dos manifestantes é a recuperação de terras que eles consideram possuir em territórios que hoje pertencem oficialmente a Israel.

Cerca de 70% da população de Gaza é de pessoas que moravam em territórios hoje israelenses, ou de seus descendentes.

Alguns manifestantes atiraram pedras ou coquetéis molotov e se aproximaram da cerca que marca a fronteira com Israel. O contingente militar israelense no local havia sido reforçado nos últimos dias, com a previsão de grandes protestos.

Mesmo com o episódio mais violento de sexta-feira, o acampamento segue no local, com algumas manifestações menores desde então.

O protesto de sexta-feira (30) aconteceu no Dia da Terra Palestina, data que relembra a morte de seis árabes (e cidadãos de Israel) por forças israelenses durante um manifestação contra uma medida do governo de Israel de confiscar terras pertencentes a árabes no norte do país, em 30 de março de 1976.

É uma data simbólica para a Palestina, representando uma homenagem a todas as pessoas que se dedicam ou se dedicaram a preservar o território e a identidade palestina.

A sexta-feira marcou também o início da comemoração da Páscoa judaica (ou Pessach, em hebraico), celebração importante do calendário do judaísmo e, portanto, também em Israel.

Com aproximadamente 2 milhões de habitantes, a Faixa de Gaza é um dos dois territórios que compõem a Palestina. O outro é a Cisjordânia, onde moram cerca de 3 milhões de pessoas.

O que disseram os dois lados

O governo do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, político do Likud, um partido  de direita e de perfil militarista, defendeu a atuação dos soldados. O próprio Netanyahu disse que as forças agiram “com determinação” para proteger Israel e seus cidadãos, permitindo celebrações tranquilas do feriado da Páscoa judaica.

A posição oficial é que os disparos foram feitos contra agressores ou potenciais agressores, que tentavam cruzar a fronteira, e portanto a reação foi legítima. Israel identificou parte dos mortos como terroristas do Hamas.

“[Os soldados israelenses] fizeram o que tinha que ser feito (...) Eu acho que todas as nossas tropas merecem uma medalha”

Avigdor Lieberman

ministro da Defesa de Israel, no domingo (1), sobre a ação de militares israelenses na fronteira com a Faixa de Gaza dois dias antes

Segundo fontes militares disseram anonimamente ao jornal israelense Haaretz, Israel não irá rever suas políticas de abrir fogo contra palestinos que se aproximem da fronteira em Gaza.

Ao jornal americano The New York Times, o general da reserva israelense Shlomo Brom disse que a ação dos soldados foi um fracasso. Isso porque, para ele, o objetivo dos manifestantes, de chamar atenção para as demandas palestinas por território e recolocar o assunto na agenda internacional, deu certo.

Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina (órgão reconhecido internacionalmente para exercer as funções de governo em toda a Palestina), declarou um dia nacional de luto no sábado. A organização de direitos humanos israelense B’Tselem declarou que é crime usar força letal contra manifestantes caso a vida dos soldados não esteja em risco.

A União Europeia e a ONU (Organização das Nações Unidas) deram declarações solicitando investigações independentes do caso, a fim de averiguar se o uso da força por soldados israelenses foi justificado. O governo de Israel rejeita essa proposta.

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, um defensor frequente da soberania da Palestina, disse se tratar de “um ataque desumano”. Netanyahu o respondeu, dizendo que não aceitaria “lições de moral” de um governante que ataca a própria população, em referência aos turcos de etnia curda. Erdogan então chamou Netanyahu de terrorista.

“Nós estamos lidando com terroristas [se referindo ao que considera agressões de grupos curdos], mas vocês não estão. Porque vocês [Israel] são um Estado terrorista (...) Você [Netanyahu] também é um terrorista. A história está registrando o que você fez contra todos aqueles palestinos oprimidos”

Recep Tayyip Erdogan

presidente da Turquia, neste domingo (1)

A situação de Gaza

Desde 2007, Gaza vive sob um bloqueio econômico e político de Israel e dos Estados Unidos. Importações por terra, mar ou ar são controladas, assim como a saída de pessoas.

É uma forma de isolar e enfraquecer o Hamas, que defende uma ação armada contra Israel e é considerado um grupo terrorista tanto por Israel quanto por EUA e União Europeia. Esses países defendem que não há chance de estabilidade política na região enquanto o Hamas estiver no poder.

Críticos do bloqueio, incluindo a ONU, afirmam que são medidas que sufocam a economia de Gaza, geram danos à população comum e violam regras humanitárias.

Gaza atravessa uma crise econômica, com altos índices de pobreza, efeitos de destruição de guerras nos últimos anos e problemas de infraestrutura (como recorrentes quedas no abastecimento de energia elétrica).

Desde que o Hamas chegou ao poder, em 2007, houve três guerras em Gaza contra Israel, a mais recente em 2014. A Cisjordânia, outra região da Palestina, é governada por outro partido, o Fatah, mais moderado.

Hamas e Fatah iniciaram em 2017 uma reaproximação política, após uma década de rompimento total. Mas os efeitos práticos dessa conciliação não são percebidos, sem grandes ações concretas até o momento. Pelo plano, o Hamas cederia boa parte do seu espaço ao Fatah, partido considerado legítimo pelas potências estrangeiras, e haveria novas eleições legislativas na Palestina, o que não ocorre desde o cisma de 2007.

Qual a origem do conflito Israel-Palestina

O Estado de Israel foi criado em 1948, em um território sagrado para a religião judaica e então controlado pelos britânicos. Após a perseguição em massa contra judeus durante a Segunda Guerra Mundial, havia ganhado força o sionismo — movimento histórico pela criação de um Estado nacional judaico a fim de reunir o povo judeu, disperso pelo mundo, em um território comum.

A ONU e potências ocidentais apoiaram a criação de Israel. Países de maioria árabe rejeitaram a proposta na época, considerando injusta a partilha do território.

As discordâncias ocasionaram guerras, a maior em 1967 (Guerra dos Seis Dias), com vitória de Israel, que expandiu suas fronteiras. O território israelense atual é, portanto, maior do que o desenhado originalmente nos anos 1940.

Há décadas, o governo israelense tem conduzido e apoiado assentamentos, que são condomínios ou vilarejos construídos em territórios ocupados, sob o argumento de ter o controle legítimo sobre essas terras. Esse locais são monitorados e protegidos por guardas armados e criam tensão entre os dois lados.

Diversos países predominantemente muçulmanos (como Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes, Irã, Líbano e Indonésia) até hoje não reconhecem a existência de Israel. Já o Egito e a Jordânia, são vizinhos de Israel que reconhecem o país, com quem têm tratados de paz.

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