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O terremoto sentido no Brasil e os outros tantos com origem no país

Terremoto que atingiu a vizinha Bolívia teve reflexos em cidades brasileiras. Além desse, no Brasil há dezenas de tremores ocorrendo todo mês. Saiba por quê

Dois sismos de magnitudes 6,8 e 4,5 na escala Richter atingiram o sudeste da Bolívia na manhã desta segunda-feira (2), entre 9h40 e 11h. De acordo com os jornais locais, não houve relatos de feridos, nem danos significativos às estruturas da região.

Apesar de os terremotos terem sido de intensidade e alcance relativamente baixos ao redor do epicentro, segundo o monitoramento do USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos), houve quem tivesse notado os reflexos dos tremores no Brasil.

Além de relatos na capital federal, o tremor também foi percebido em outras cidades de pelo menos cinco estados das regiões Sul e Sudeste. Na cidade de São Paulo, prédios na região da Avenida Paulista chegaram a ser evacuados.

Sismos nacionais

Embora o tremor sentido tenha sido apenas um reflexo do sismo ocorrido no país vizinho – mais sujeito a esses fenômenos dada a sua proximidade com bordas de placas tectônicas –, o Brasil também está sujeito a lidar com tremores originados dentro do seu território. A diferença é que, nesses casos, o poder de destruição desses abalos sísmicos é muito menor.

Só em março de 2018, de acordo com o Observatório Sismológico da UnB (Universidade de Brasília), foram 26 ocorrências deles, registrados no Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Tocantins, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Minas Gerais.

No dia 3 daquele mês, um tremor atingiu a região de Maceió, em Alagoas, dando um susto na população. A sua intensidade, no entanto, era de 2,4 na escala Richter, dois pontos abaixo do tremor de 4,3, o maior do mês de março, registrado no Acre (por se tratar de uma escala logarítmica de base 10, cada 1,0 ponto a mais equivale a um alcance 10 vezes maior).

“Terremoto é uma terminologia internacional que virou sinônimo de sismos catastróficos, com magnitudes superiores a 5 pontos, que é quando um sismo tem potencial de dano relevante”, explicou José Roberto Barbosa, técnico do Centro de Sismologia da USP (Universidade de São Paulo), ao Nexo em 2017.

A universidade paulista forma com a UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e a UnB (Universidade de Brasília) a Rede Sismográfica Brasileira, responsável pelo monitoramento de sismos em todo o território nacional.

Foto: Rodolfo Almeida/Arte Nexo
Mapa de placas tectônicas
Mapa das placas tectônicas distribuídas pelo mundo

Tremores históricos

O terremoto mais grave da história se deu no Chile, em 1960. Um sismo com magnitudes registradas entre 9,4 e 9,6 devastou o país e ainda provocou um tsunami que atingiu outros países no oceano Pacífico. Estimativas da época apontam que a tragédia teria provocado a morte de até 6.000 pessoas.

Por aqui, os sismos mais graves já registrados aconteceram há 62 anos. Em janeiro de 1955, um sismo de 6,2 foi registrado na Serra do Trombador, no estado de Mato Grosso. Por se tratar de um lugar pouco habitado, o terremoto não deixou vítimas ou causou danos estruturais à cidade de Porto dos Gaúchos, a 100 km do epicentro.

“Em 1998 e em 2005 foram registrados sismos de 5,0 e 5,1 de magnitude. Esses causaram transtorno porque já havia mais gente morando por lá. Cortou energia, trincou parede, quebrou janela. Foi um terremoto com consequências”, lembra. 

No mês seguinte daquele mesmo ano, outro grande sismo atingiu o país. Com epicentro no oceano, a 300 km da cidade de Vitória, no Espírito Santo, o abalo registrou 6,1 na escala Richter. Em razão da distância, o tremor chegou até a ser percebido por moradores, mas não houve registro de danos na época.

Por que o Brasil treme

O Brasil fica no meio de uma placa tectônica, porção de terra formada da camada superior da crosta terrestre. No planeta Terra há 55 placas tectônicas, em constante movimentação. A atividade sísmica e vulcânica é maior nas regiões próximas às bordas dessas placas. É o caso dos países da costa oeste da América do Sul, como Chile e Peru, que ficam sobre a divisa entre a placa Sul-americana e a placa de Nazca.

Longe delas, no interior das placas, esse tipo de atividade sísmica é muito menos grave, mas ainda assim a região está sujeita aos chamados “sismos intraplacas”. Eles ocorrem em regiões onde a estrutura geológica é mais frágil e cede diante do acúmulo de forças propagadas pelas tensões das placas. São as chamadas falhas geológicas.

Os sismos acontecem ao longo dessas falhas mas não são todas as falhas que produzem sismo, apenas as “ativas”. Uma das falhas geológicas mais conhecidas do mundo é a de San Andreas, na costa da Califórnia, nos Estados Unidos.

De acordo com Lucas Vieira Bastos,  professor de geociências e membro do Observatório Sismológico da UnB, é possível caracterizar os sismos brasileiros por três aspectos: são “rasos”, ou seja, acontecem a uma profundidade muito baixa; por se darem no interior de placas, perdem pouca energia em sua propagação, o que faz deles sismos de efeitos de longo alcance; e, por fim, são “traiçoeiros”.

“O que nós sabemos é que uma falha ativa é fonte de sismo. Ao se movimentar, ela libera forças acumuladas ao longo de muitos anos, e aí esse ciclo recomeça, e a falha pode então gerar novos sismos”, diz Barros. “No entanto, isso não significa que uma região que nunca teve sismo não vá ter um no futuro.”

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