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MBL: do discurso anticorrupção à proximidade com as fake news

Movimento político possui relação com site que propagou boatos sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco

     

    Informações falsas sobre vereadora do PSOL Marielle Franco tomaram a internet após ela ser assassinada no centro do Rio, no dia 14 de março, às vésperas de a intervenção federal na segurança pública do estado completar um mês. As mensagens tentavam desqualificar o trabalho da ativista de direitos humanos, negra e feminista, que dias antes de ser executada havia denunciado ações violentas da polícia numa comunidade da capital fluminense. 

    Primeiro, as informações falsas circularam em correntes de WhatsApp. Logo estavam sendo reproduzidas em redes sociais. Uma desembargadora do Rio escreveu e publicou que Marielle estava envolvida com traficantes de drogas.

    O fato ganhou atenção da mídia, em razão do cargo público ocupado pela desembargadora. Num site intitulado Ceticismo Político, porém, a manchete foi a seguinte: “Desembargadora quebra narrativa do PSOL e diz que Marielle se envolvia com bandidos e é ‘cadáver comum’”.

    Depois, a notícia foi compartilhada pelo MBL (Movimento Brasil Livre). O post do grupo político teve 360 mil compartilhamentos no Facebook e 1 milhão de visualizações no Twitter. As notícias falsas sobre a vereadora mobilizaram jornais e agências de checagens de notícias a fim de desmentir os boatos.

    O MBL se defendeu da acusação de ter propagado fake news. Em um vídeo no YouTube, Kim Kataguiri, um dos coordenadores do movimento, afirmou que o texto compartilhado apenas relatava o discurso da desembargadora, que posteriormente se mostrou falso.

    Na quarta-feira (28), a Justiça do Rio de Janeiro determinou que o Facebook informe se a postagem do MBL com notícias falsas sobre Marielle Franco foi patrocinada — uma forma de fazer as publicações alcançarem mais usuários.

    O que é o Movimento Brasil Livre

    O MBL é um grupo político criado em novembro de 2014 por cinco jovens críticos ao governo da então presidente Dilma Rousseff (PT) – que havia sido reeleita semanas antes. No topo das prioridades anunciadas pelo movimento estava o combate à corrupção.

    O grupo ganhou projeção nacional ao ajudar a organizar protestos com a participação de milhares de pessoas, junto com outros grupos antipetistas, como o Vem Pra Rua e o Revoltados OnLine. Entre março de 2015 e agosto de 2016, o número de pessoas que aderiram às manifestações engrossadas pelo MBL chegou à casa do milhão.

    Renan e Alexandre Santos (irmãos), Kim Kataguiri, Frederico Rahu, Gabriel Calamari eram os nomes por trás da fundação do movimento que conquistou apoio de milhões de pessoas e pressionou políticos a votarem pelo impeachment de Dilma no Congresso.

    Além da mobilização por pautas conjunturais — contra o governo do PT e a favor da Lava Jato —, o MBL defende uma agenda liberal na economia, com menos participação do Estado, e conservadora nos costumes, como no combate a políticas de cotas raciais e a pautas do movimento LGBT.

    O ativismo digital do movimento

    A internet é o maior meio utilizado pelo MBL para expor suas posições. E o grupo possui uma grande quantidade de seguidores. A página do movimento no Facebook é curtida por 2,6 milhões de pessoas.

    Kim Kataguiri é o principal porta-voz do grupo, com quase 650 mil seguidores no Facebook. Em protestos e vídeos da internet, o jovem, atualmente com 22 anos, assume o discurso de ataque a partidos e movimentos sociais de esquerda.

    Arthur do Val, que mantém o canal MamãeFalei no YouTube (com quase 1 milhão de inscritos), e o vereador da cidade de São Paulo pelo DEM Fernando Holiday (com quase 495 mil seguidores no Facebook) também são membros ativos nas redes sociais.

    Renan Santos, uma das cabeças mais ativas dentro do grupo, tem menos de 8.000 seguidores no Facebook e fez a última postagem em sua página pública da rede social em maio de 2017.

    Depois da exitosa mobilização pelo impeachment de Dilma, o MBL reduziu suas atividades de rua no governo Michel Temer, que enfrentou denúncias de corrupção, mas cuja agenda de reformas e privatizações são apoiadas pelo movimento.

    Desde que o vice-presidente assumiu no lugar de Dilma, as vezes em que houve mobilização, elas não tiveram Temer como alvo. O foco foi a defesa da Operação Lava Jato e a exaltação do juiz federal Sergio Moro, responsável pelos processos da operação na primeira instância judicial, em Curitiba.

    O grupo ganhou destaque em 2017 com sua campanha contra uma exposição de arte em Porto Alegre (Queermuseu) e contra uma performance artística no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

    Nos dois episódios, o MBL protagonizou, ao lado de políticos conservadores, uma espécie de “guerra cultural” na qual dizia que a arte bancada por dinheiro público estava incentivando “pedofilia”.

    Vídeos no YouTube e postagens no Facebook são a forma que o MBL encontrou para propagar suas campanhas. As publicações nos canais do YouTube de representantes do movimento contam com centenas de milhares de visualizações e muitos dos posts da rede social são compartilhados dezenas de milhares de vezes, o que aumenta o seu alcance.

    Estratégia recente do grupo foi utilizar-se de um aplicativo digital para compartilhar automaticamente em páginas de seguidores do perfil do MBL no Facebook publicações postadas pelo movimento. O grupo enviou uma mensagem direta aos fãs de sua página pedindo ajuda para aumentar o alcance das publicações do movimento. Aqueles usuários que clicaram no botão, autorizaram o MBL a publicar até duas postagens por dia em seu perfil na rede social. A publicação era feita por meio do aplicativo Voxer. Após ter sido procurado pela reportagem do jornal O Globo sobre o caso, o Facebook desativou o Voxer.

    O ativismo político do grupo

    Na eleição de 2016, membros do MBL se candidataram e foram eleitos. Entre eles Fernando Holiday, que obteve uma das 55 vagas da Câmara Municipal de São Paulo. Filiado ao DEM, Holiday tornou-se o mais jovem vereador da capital paulista, aos 20 anos.

    O grupo também apoiou candidatos que venceram a prefeitura de capitais, como João Doria (PSDB) em São Paulo e Nelson Marchezan (PSDB) em Porto Alegre.

    Em 2018, Kim Kataguiri irá concorrer ao cargo de deputado federal, pelo DEM, ou Democratas, que é o antigo PFL, Partido da Frente Liberal. Ao todo, o movimento projeta eleger 15 deputados pelo Brasil. O empresário Flávio Rocha, que irá concorrer à Presidência pelo PRB — partido ligado à Igreja Universal —, também deverá receber apoio do MBL na eleição deste ano.

    Quem financia o MBL

    Não há informações claras sobre o financiamento do MBL. O movimento nunca explicou em detalhes de onde saiu o dinheiro para bancar as manifestações anti-PT de 2015 e 2016, por exemplo. Diz apenas que obtém verbas com doações e vendendo camisetas e outros produtos com a sua marca.

    O grupo sempre se declarou como movimento apartidário e independente financeiramente das legendas políticas. Em maio de 2016, porém, áudios envolvendo membros do grupo sugeriam que o MBL havia recebido dinheiro de partidos como MDB, PSDB, DEM e Solidariedade para impressão de panfletos e pagamento de carros de som.

    Em outubro de 2017, a Revista Piauí publicou uma reportagem com conversas de um grupo de WhatsApp intitulado “MBL – Mercado”, composto por coordenadores nacionais do movimento — como Kataguiri, Holiday, Renan e Alexandre Santos — e executivos de médio e alto escalão do mercado financeiro.

    Nas conversas, um integrante do grupo afirmou que o MBL “não está exatamente nadando em dinheiro”. Os executivos que participavam do grupo passaram a registrar doações feitas ao MBL em uma planilha. De acordo com a reportagem da Piauí, em duas semanas foram arrecadados cerca de R$ 50 mil.

    Em setembro de 2017, uma reportagem do jornal El País revelou que o dinheiro recebido por produtos vendidos pelo movimento — como canecas com a frase “Somos Todos Moro” — ia parar na conta de uma organização sem fins lucrativos chamada MRL (Movimento Renovação Liberal), cujo estatuto registra Renan e Alexandre Santos, Stephanie Santos (irmã deles) e uma quarta pessoa como membros.

    Questionado pelo El País sobre sua relação com o MRL, o MBL afirmou que, “para não perder sua essência de movimento cívico compreendido como reunião espontânea de pessoas, optou-se por essa formatação”, em que o MRL repassa o dinheiro da compra de produtos ao MBL e presta apoio formal ao movimento, como na realização de eventos.

    Sobre a ausência de prestação de contas, o grupo afirma que, como entidade privada, se reserva o direito de preservar a privacidade de seus colaboradores e não divulgar seus balanços financeiros.

    Juntos, os irmão Santos acumulam mais de 100 processos por dívidas contraídas por suas empresas antes da criação do MBL. De acordo com documentos aos quais o El País teve acesso, o total das pendências chega a R$ 20 milhões.

    O MBL e as notícias falsas

    Arthur do Val, integrante do MBL, publicou em janeiro de 2018 em seu canal do YouTube MamãeFalei cenas de um grupo de pessoas tentando invadir um prédio. Disse que eram sindicalistas tentando invadir um prédio público no Rio Grande do Norte em protesto contra a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso tríplex. O vídeo foi compartilhado por Kim Kataguiri e chegou a ter quase 500 mil visualizações.

    Tratava-se, na verdade, de um protesto de funcionários públicos do Rio Grande do Norte contra privatizações e demissão de servidores. Após a revelação de que a notícia era falsa, o MBL retirou o vídeo do ar.

    Em junho de 2017, Kim Kataguiri postou um vídeo pelo fim do regime semiaberto no Brasil, afirmando que 70% dos criminosos no país eram reincidentes e que mais de 100 mil criminosos estariam em regime semiaberto.

    Questionado pela Agência Pública sobre a fonte das informações, o MBL classificou a checagem de fatos como intimidação, não respondeu às perguntas e enviou a foto de um pênis de borracha com um capacete escrito “imprensa” e a legenda “check this!” (cheque isso) à repórter.

    Apuração da Agência Pública mostrou que a reincidência no Brasil, segundo dados do Ipea de 2015, era de 24,4%. O número de presos no regime semiaberto apresentado por Kim Kataguiri estava correto, são 99 mil pessoas de acordo com levantamento feito em 2017 pelo Conselho Nacional de Justiça.

    Para além dos materiais produzidos pelo próprio movimento, o MBL compartilha com frequência o conteúdo de dois sites que o grupo considera  “independentes”. São eles o Ceticismo Político e o Jornalivre.

    O MBL diz que a relação se dá apenas por afinidades ideológicas, mas há evidências de que os responsáveis por esses dois veículos possuem canais de comunicação diretos com os membros do movimento político.

    Os dois sites têm uma narrativa forte e frequentemente acusam opositores do MBL de serem de “extrema esquerda” e de produzirem “fake news”.

    Em setembro de 2017, o colunista da Folha de S.Paulo Pablo Ortellado, que pesquisa “guerras culturais”, disse que uma das estratégias do MBL para atacar seus críticos é “produzir uma manchete sensacionalista para uma matéria no site Jornalivre e compartilhá-la pela página do grupo no Facebook”.

    Qual a relação com o Ceticismo político

    A relação entre o Ceticismo Político e o MBL não é recente. Ao menos desde março de 2016 o site publica textos que rebatem críticas sofridas pelo movimento. Não raro, afirma que o grupo “inverte” as críticas e se “fortalece” quando recebe críticas da “extrema esquerda”.

    No mês de maio de 2016, o MBL publicou em seu próprio site um texto assinado por "Luciano Henrique Ayan" — nome do perfil falso que administra o Ceticismo. Já em novembro de 2017 o Ceticismo Político publicou uma matéria celebrando os três anos de existência do movimento.

    Em 22 de março de 2018, um dia antes da publicação de O Globo sobre a viralização da notícia falsa sobre Marielle Franco, o MBL compartilhou seis links do Ceticismo Político em seu Facebook.

    O caso da notícia falsa envolvendo a vereadora do PSOL colocou essa conexão entre MBL e Ceticismo Político em evidência, sobretudo depois que o jornal O Globo investigou a propagação dos boatos.

    Inicialmente, MBL e Ceticismo Político se defenderam da acusação de que produziram notícias falsas sobre o assassinato. O site afirmou que apenas relatou o texto da desembargadora. Já o MBL afirmou ao jornal O Globo que não conhecia “Luciano Ayan” e que não tem responsabilidade pelo site.

    No dia 23 de março, porém, uma nova reportagem de O Globo reforçou a suspeita de que a atuação dos dois grupos era coordenada. O jornal do Rio enviou um e-mail ao MBL com perguntas sobre a relação do movimento com o Ceticismo. E-mail similar, mas com diferenças significativas, foi enviado ao Ceticismo Político, questionando sua relação com o MBL.

    O e-mail de O Globo para o MBL foi usado por Luciano Ayan para escrever um texto contra o jornal publicado no Ceticismo Político, sugerindo que os dois grupos possuem canal de ligação não-público. E a nova publicação do Ceticismo Político também foi compartilhada pelo MBL.

    “Luciano Henrique Ayan” divulgou sua verdadeira identidade no site Ceticismo Político no sábado (24). Seu nome é Carlos Augusto Moraes Afonso, atua na área de tecnologia e começou a “desenvolver um método para a guerra política” — como ele próprio diz — em 2011.

    Afonso também afirmou que o Ceticismo Político passou a ser “monetizado” em 2017, mas não apresentou as fontes nem o montante de recursos recebidos pelo site.

    O dono do Ceticismo é sócio de um dos membros do MBL, Pedro D’Eyrot, na empresa Yey Inteligência Ltda., reforçando a hipótese de que os membros do movimento já sabiam quem era Carlos Afonso.

    Um texto publicado pelo site Catraca Livre — que já travou discussões públicas com o MBL — no sábado (24) afirma que outro membro do MBL, Rafael Rizzo, também já foi sócio de Carlos Afonso.

    No mesmo sábado, o Facebook removeu a página Ceticismo Político da rede social. O site ainda continua funcionando na internet.

    O Nexo entrou em contato com o MBL por e-mail na terça-feira (27) e perguntou qual é a relação entre o movimento e o Ceticismo Político, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem.

    Qual a relação com o Jornalivre

    Outro site com ligação com o MBL é o Jornalivre, que costuma atacar jornalistas e políticos contrários ao movimento. Na página do MBL no Facebook é possível encontrar o compartilhamento de várias notícias desse veículo por dia.

    O jornal El País publicou um levantamento em 1º de outubro de 2017 mostrando que entre junho e setembro daquele ano, o MBL realizou 4.977 postagens no Facebook. Desse total, 2.321 eram links de textos do Jornalivre.

    Questionados pela reportagem do El País, o movimento afirmou que sua relação com o Jornalivre é “amigável, assim como é com diversos outros sites independentes”.

    Ainda em outubro de 2017, um levantamento realizado pela Vice mostrou que ao menos três membros do MBL escreviam textos que eram publicados no Jornalivre. Destes, dois — Renan Santos e Rafael Rizzo — não assinavam os materiais com seus nomes reais.

    Assim como o Ceticismo Político, pouco se sabia sobre quem era o responsável pelo Jornalivre até abril de 2017. Foi quando veio à tona que o site era editado também por um perfil falso.

    A sequência de fatos que levaram à revelação começa com o vereador Fernando Holiday — defensor do projeto “Escola Sem Partido” — visitando colégios municipais para verificar se professores de escola estavam fazendo “doutrinação ideológica de esquerda” em seus alunos.

    O secretário da Educação de São Paulo, Alexandre Schneider, considerou a medida abusiva. Armou-se, então, uma queda de braço. O prefeito João Doria, na época apoiado pelo MBL, passou a ser pressionado para exonerar Schneider.

    O MBL passou a propagar notícias falsas de que Schneider era vinculado ao PSOL. O Jornalivre aderiu aos ataques. Foi quando o site Catraca Livre mostrou que o administrador do Jornalivre, que se apresentava como “Roger Scar”, era na verdade Roberto Dias de André, ex-diretor de formação da Juventude do DEM de Santa Catarina.

    O Nexo entrou em contato com o MBL por e-mail na terça-feira (27) e perguntou qual é a relação entre o movimento e o Jornalivre, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem.

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