3 propostas para enfrentar os problemas hídricos globais

Documentos propõem gerenciamento de ecossistemas e governança internacional como saídas para os grandes desafios hídricos do século 21

 

No dia 22 de março, comemorou-se o Dia Mundial da Água. Em Brasília, entre os dias 18 e 23 de março, aconteceu o Fórum Mundial da Água. O ‘Nexo’ aproveitou as datas para tratar de alguns dos temas relevantes ao assunto, em cinco conteúdos (quatro expressos e um gráfico). Este é o último texto da série.

Entre as grandes preocupações do século 21, a água ocupa papel de destaque. Maior consumo humano das fontes de água doce, crescentes danos ambientais e mudanças climáticas aparecem como fatores que contribuem para elevar as chances de insegurança hídrica em diversas áreas do planeta.

Além disso, a qualidade da água se torna cada vez mais degradada em muitas áreas, por problemas como poluição e saneamento inadequado. Com isso, os custos de tratamento da água aumentam e os riscos à saúde pública são potencializados. Mesmo quando há água potável disponível em quantidades suficientes, ela não está à disposição de todos por fatores econômicos que limitam o acesso.

O Nexo lista três relatórios recentes que propõem medidas globais contra alguns dos problemas relacionados à água. Os dois primeiros são de 2018 e o terceiro é de 2013.

A saída natural

Há 15 anos, a Unesco organiza o relatório global de desenvolvimento da água. Este ano, o enfoque do documento foi em “soluções baseadas na natureza”, em vez de alternativas “cinzentas” (baseadas em obras humanas, com mais impacto social e ecológico). O relatório foi lançado durante o Fórum Mundial da Água, realizado em março de 2018 em Brasília.

O documento destaca que as saídas podem estar “mais próximas do que pensamos”. Ressalta, porém, que na maior parte dos casos, uma conjugação de soluções naturais e artificiais será necessária.

O gerenciamento do ecossistema, incluindo vegetação, zonas úmidas e solo, está presente em boa parte das soluções baseadas na natureza descritas no relatório. Ações podem envolver a conservação ou reabilitação de ecossistemas ou a criação ou melhoria de processos naturais em ecossistemas modificados ou artificiais. Segundo a Unesco, soluções podem ser em escala micro (um banheiro seco) ou macro (paisagismo).

Esse tipo de solução está intimamente ligado a conceitos como a preservação da biodiversidade e uma economia “circular”, em que o reúso e a reciclagem são partes essenciais.

Entre as ideias presentes no relatório da Unesco estão

  • Incentivos monetários para fazendeiros ou proprietários de terra, em troca de práticas sustentáveis no solo
  • “Cidades verdes”: medidas em áreas urbanas que aumentem a presença de áreas verdes, em telhados, jardins, parques, etc
  • “Represas de areia”: paredes que ajudam rios a conter melhor seu volume d’água e facilitam o acesso a ela

De olho nas gestões públicas

Uma base de dados global com indicadores relacionados à gestão pública de água. Eis a proposta do World Resources Institute, ONG presente em mais de 50 nações, com mantenedores como o Google, as Nações Unidas e governos de países como Holanda, Reino Unido e Dinamarca, além do MIT (Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos), em um projeto de parceria.

O texto de introdução da proposta afirma que a falta de dados leva a avaliações incompletas de atividades que podem evitar problemas com água. Os dados não viriam das empresas que gerenciam os serviços locais de água e esgoto, mas de empresas multinacionais, que responderiam a questionários específicos sobre a gestão da água nos locais onde atuam.

Um dos motivos para a escolha desse perfil de empresa se deve ao seu alcance, o que permitiria uma cobertura internacional melhor em relação às informações levantadas. Para o documento, as empresas também têm interesse em criar mecanismos de avaliação desse tipo de serviço. Outro fator é que muitas empresas já reúnem esse tipo de informação.

Entre os indicadores que a proposta sugere avaliar estão a existência de regulação referente ao acesso à água, a confiabilidade do fornecimento e as informações disponíveis sobre demanda e disponibilidade.

Entre exemplos que usa para provar a importância desse compartilhamento global de dados, o estudo lembra o caso de São Paulo. Apesar de situada em área de “baixo estresse hídrico, usuários frequentemente enfrentam significativos riscos relacionados à água”. Para o texto do documento, boa parte desses riscos advém de “gestão inadequada da água pública que, em tempos de estiagem, representa uma ameaça ao fornecimento de água doméstico, industrial e agrícola”.

O relatório admite, entretanto, que o sucesso da iniciativa é dependente da boa vontade das empresas, e que a informação coletada não será completada, uma vez que certos aspectos são difíceis de mensurar como, por exemplo, características da rede de saneamento básico.

Uma rede internacional

Uma governança internacional para a água é o que defende o documento da ONG Pacific Institute. A entidade é um instituto de pesquisa independente que tem entre seus fundadores o cientista americano Peter Gleick, especializado em hidroclimatologia e energia.

Em 2013, a ONG divulgou um relatório em que argumenta a favor da governança global da água. O documento esclarece que não se trata de um sistema centralizado, protagonizado por governos, segundo uma ideia tradicional de governança global. O enfoque seria em uma rede muito maior de agentes políticos, sociais e econômicos, “em diferentes níveis da sociedade”.

Entre as recomendações do estudo estão a criação de métodos de interação e diálogo entre diferentes agentes, com o estabelecimento de padrões de metas para a resolução de disputas. Outra sugestão é o fortalecimento do mandato de organizações intergovernamentais envolvidas com a governança de água. Um terceiro ponto é o aumento da participação da sociedade civil e governos regionais em etapas da gestão d’água.

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