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Como foi a ação dos robôs na campanha presidencial de 2014

Pesquisadores da FGV apontam uso de perfis automatizados na disseminação de conteúdos oficiais de Dilma, Aécio e Marina

    Redes de perfis automatizados, os chamados robôs, ou bots, compartilharam conteúdos elaborados pelas campanhas de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (hoje na Rede) na eleição de 2014.

    A atuação dessas redes indica um vínculo entre elas e empresas que prestaram serviços às campanhas, além da atuação de perfis de usuários de outros países na disseminação de conteúdos favoráveis a determinados candidatos.

    A análise faz parte de estudo realizado pela DAPP (Diretoria de Análises de Políticas Públicas) da FGV (Fundação Getúlio Vargas), publicado em março.

    Em “Redes sociais e política no Brasil: análise de interferências de perfis automatizados nas eleições de 2014”, pesquisadores analisaram centenas de perfis e milhares de mensagens publicadas no Twitter durante o período eleitoral.

    Em 2018, novamente as redes sociais tendem a ter papel relevante nas campanhas. Por essa razão, os pesquisadores alertam para os riscos do uso de mecanismos ilegais, como robôs e perfis falsos. Três pontos justificam essa preocupação, segundo os autores do estudo:

    1. Robôs facilitam a disseminação de fake news (notícias falsas) nas redes sociais. O fenômeno já apareceu em 2014, mas ganhou força de 2016 para cá.
    2. Em 2018 haverá um fundo público exclusivo para o custeio das campanhas. Logo, é essencial atentar para o uso correto dos recursos.
    3. O uso de redes sociais é hábito consolidado na sociedade atual e importante fonte de informação dos usuários.

    Interferência dos robôs no debate eleitoral

    Para os autores, a presença de perfis automatizados (ou robôs) representam um “risco à lisura do debate público” e do processo eleitoral.

    Esse alerta já foi feito em agosto de 2017, quando outro estudo do DAPP demonstrou a participação de perfis automatizados em momentos-chave do cenário político em 2014, entre eles as eleições.

    No debate entre Dilma e Aécio na TV Globo, no segundo turno, por exemplo, ao menos 20% das interações verificadas no Twitter, rede social analisada, ocorreram com robôs e não com perfis mantidos por usuários reais.

    A análise das mensagens e das informações postadas demonstrou que aquelas contas inflavam posicionamentos mais radicais, com potencial para influenciar o debate público em torno de determinados assuntos da agenda pública.

    O novo estudo mostra agora como redes de perfis falsos atuaram também no compartilhamento de conteúdos produzidos pelas campanhas oficiais de Dilma, Aécio e Marina. Os pesquisadores não analisaram a veracidade das mensagens publicadas pelos perfis, mas o mecanismo de divulgação.

    Análise de perfis e padrões de comportamento

    A pesquisa organizou uma base de dados com tuítes coletados no decorrer da campanha de 2014. A partir deles, os autores identificaram a atuação de uma rede de robôs (botnet, em inglês) composta por centenas de perfis. Eles basicamente replicavam conteúdos produzidos por sites das campanhas dos três candidatos.

    Para identificar essas redes, os pesquisadores observaram, por exemplo:

    • Perfis que publicavam exatamente a mesma mensagem, na mesma data e horário – indício de uma ação automatizada em redes sociais.
    • Perfis que geraram ao menos duas vezes dois tuítes consecutivos em menos de um segundo.
    • Contas que usaram plataformas para gerar tuítes de forma automatizada.
    “O comportamento automatizado das contas​, junto como a data de sua criação e a data da última postagem, dão a entender que as contas foram criadas com um propósito específico. É suspeito que ​algumas se tornassem inativas​ uma vez encerrado o pleito”

    Redes sociais e política no Brasil

    estudo realizado pela DAPP da FGV, publicado em março de 2018

    O que o estudo identificou

    Aécio e Marina

    Havia uma rede de robôs composta por 699 perfis que compartilharam conteúdos elaborados pelas campanhas do senador tucano e, em menor volume, da ex-ministra, à época filiada ao PSB. Daquele universo de perfis, 508 foram criados em 2 dias (em 2013) e publicaram o último tuíte entre outubro e novembro de 2014 – ou seja, ficaram inativos tão logo a campanha terminou.

    Dilma

    Os pesquisadores encontraram 509 contas automatizadas que, basicamente, compartilhavam os conteúdos elaborados por dois dos principais sites de campanha da petista. Dilma e Aécio foram para o segundo turno e Marina ficou em terceiro (com 21,3% dos votos). A petista foi reeleita com 51,6% dos votos, ante 48,3% de Aécio.

    Influência externa

    A análise de parte dos perfis que compunham a rede de robôs ligadas a Aécio sugeriu haver usuários de outros países, principalmente da Rússia. Isso porque dados e fotos de perfil faziam referências àquele país, com imagens de pontos turísticos ou de figuras históricas ou artísticas. A presença desses perfis pode sugerir ter havido atuação de empresas ou grupos estrangeiros na campanha. A Rússia, em especial, está no centro das suspeitas de irregularidades na campanha digital de Donald Trump, em 2016.

    Vínculo com as campanhas

    Os pesquisadores afirmam que o estudo não identificou, nem investigou, se as campanhas compraram os robôs para atuar para elas nem tampouco se os candidatos tinham conhecimento da atuação deles. O ponto é que o comportamento identificado na rede social identificou o vínculo entre as redes e as prestadoras de serviços, algo que não havia sido identificado pelos pesquisadores nos estudos anteriores.

    Houve influência no resultado da eleição?

    O estudo não faz relação entre a presença desses instrumentos com o resultado das eleições. Portanto, não é possível afirmar que as redes de robôs tenham sido determinantes para o desempenho deste ou daquele candidato. O enfoque da análise é atentar para a potencial interferência desses mecanismos no debate político.

    É importante lembrar que na campanha de 2014 ainda eram permitidas as doações empresariais (proibidas em 2015 por decisão do Supremo Tribunal Federal) e as estratégias dos candidatos não ficavam resumidas às redes sociais. O volume de gastos declarados pelas campanhas atingiu R$ 5,1 bilhões, um recorde histórico. PT e PSDB foram os que mais gastaram.

    Em 2018, o cenário é outro, já que, além do veto às doações de empresas, haverá limite de gastos e menos tempo de campanha, o que confere mais importância a internet e redes sociais.

    Veto a robôs é insuficiente para barrar ação

    Entre 2014 e 2018, a Justiça Eleitoral criou novas regras para a campanha eleitoral na internet. Nas eleições de outubro, será proibido usar robôs ou perfis falsos para aumentar a visibilidade de conteúdos. Por outro lado, os candidatos estão autorizados a impulsionar publicações por meio de posts pagos.

    Apesar do veto, os pesquisadores da DAPP já identificaram a existência de robôs ligados às redes de apoiadores dos principais pré-candidatos, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL).

    A análise de 730 mil tuítes, coletados entre novembro e dezembro de 2017, mostram como perfis automatizados atuaram no debate de modo significativo, como indicam as interações registradas na rede social.

    Os debates em que os pesquisadores observaram a atuação de contas falsas foram maiores entre os apoiadores de Lula e Bolsonaro, mas também aparecem nos campos de apoio do ex-governador Ciro Gomes (PDT) e de Marina.

    Por essa razão, e com base no comportamento identificado em 2014, os pesquisadores sugerem alguns caminhos para coibir que robôs interfiram no debate público. Segundo eles, é essencial:

    1. A Justiça Eleitoral exigir uma prestação de contas detalhada por parte das campanhas dos serviços contratados na área de tecnologia.
    2. A criação de uma plataforma para registro e denúncia de robôs.
    3. Capacitar agentes do poder público para que saibam identificar a atuação ilegal na campanha.

     

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