A influência do Japão sobre a obra do pintor Vincent van Gogh

Artista tinha em sua coleção mais de 600 gravuras japonesas e incorporou elementos dos trabalhos à sua produção

     

    Apesar de o pintor holandês Vincent van Gogh nunca ter ido ao Japão, o país foi uma das fontes de inspiração para seu trabalho, sobretudo após a mudança para a França, em 1886. Uma exposição inaugurada em março no Museu Van Gogh, em Amsterdã, na Holanda, aprofunda-se na relação do artista com técnicas de pintura orientais.

    A mostra “Van Gogh and Japan” apresenta uma série de trabalhos do artista holandês que têm relação direta ou indireta com a arte japonesa, entre elas, duas de suas obras mais conhecidas: “Autorretrato com a orelha cortada” e “Quarto em Arles”. Também são exibidas gravuras japonesas que pertenceram à coleção particular de Van Gogh e que dão dimensão do que era a imagem do Japão idealizada pelo artista.

     

    Poucos pintores holandeses contemporâneos a Van Gogh estudavam a arte japonesa, e seu primeiro contato com as gravuras importadas foi na Bélgica, em 1855. O artista comprou as primeiras obras de sua coleção quando trabalhava na Antuérpia, e as deixava penduradas nas paredes do quarto. 

    Mas foi um ano depois, na França — onde as xilogravuras ukiyo-e já eram um fenômeno — que o artista começou a colecionar obras orientais com assiduidade. Em 1886, quando mudou para a casa do irmão, Theo, em Paris, os dois adquiriram juntos mais de 600 gravuras de artistas japoneses. Cerca de 500 delas hoje integram a coleção permanente do Museu Van Gogh.

    As xilogravuras ukyio-e foram uma escola artística comum no Japão durante o período Edo (1603-1868), e se popularizaram na Europa no século 19.

     

    Com o tempo, o pintor passou a incorporar alguns elementos das gravuras à sua produção, como os contornos escuros e bem delineados e as cores fortes. Da pintura japonesa, Van Gogh também herdou a atenção aos detalhes da natureza e o jeito de lidar com a perspectiva nas obras, que rompia com a tradição da pintura ocidental.

    O contato com a arte  japonesa deu ao artista uma nova direção para suas composições, segundo uma das curadoras da exposição, Nienke Bakker. “[As gravuras] ajudaram Van Gogh a intensificar suas cores e simplificar as composições”, disse à BCC. “Ele queria trazer mais luz e mais cores para as pinturas, e melhorar seu estilo de desenho.”

    O impacto da arte japonesa na Europa

    Assim como Van Gogh, diversos artistas europeus tiveram sua produção influenciada pelo chamado japonismo. O termo, cuja autoria é atribuída ao crítico francês Philippe Burty, descreve o fascínio pela estética japonesa que tomou conta da França e de outros países do continente em meados do século 19.

    Em 1854, as atividades comerciais do Japão com outros países foram restabelecidas depois de mais de 250 anos de isolamento. Essa aproximação impulsionou uma rápida incorporação de objetos de arte, decoração e outros adereços orientais no cotidiano europeu. A adoção de elementos da cultura japonesa à vida europeia também inspirou mudanças na arquitetura e no design moderno.

    Na arte, o desenvolvimento do impressionismo e do pós-impressionismo esteve intimamente ligado à influência das gravuras japonesas, que serviram de inspiração para pintores como Édouard Manet e Edgar Degas. Claude Monet, que também tinha a arte oriental como referência, mantinha uma coleção de gravuras ukyio-e feitas por expoentes da técnica, como Hiroshige, Utamaro e Hokusai.

    Três artistas da coleção de Van Gogh

    Hiroshige

    Foi uma das grandes inspirações de Van Gogh nessa fase. Enquanto estudava a arte japonesa, o pintor holandês recriou algumas das obras célebres de Hiroshige pertencentes à série “Cem Paisagens de Lugares Famosos em Edo”, de 1857. 

    O artista nasceu em Edo (atual Tóquio), em 1797, e foi um dos maiores expoentes do ukiyo-e. Conhecido pela habilidade na composição de paisagens, Hiroshige foi referência para pintores impressionistas e pós-impressionistas. Uma das suas obras mais conhecidas é a série “53 Estações de Tōkaidō”, produzida entre 1833 e 1834. São gravuras feitas depois de uma viagem a Kyoto, em 1832, em que o artista passou pela estrada Tokaido. O sucesso da obra ajudou a projetá-lo entre os maiores gravuristas do período.

    Utagawa Kunisada

    Nascido em Edo, em 1786, Kunisada foi um dos mais prestigiados criadores de gravuras do gênero ukiyo-e. O artista é conhecido por ter documentado, por meio de suas obras, o cotidiano no Japão durante o período Edo (1603-1868). São conhecidas suas séries em que retrata mulheres, atores, costumes e interesses da época, aspectos da moda e hábitos alimentares dos japoneses.

    Utagawa Kuniyoshi

    Pintor e xilógrafo, Kuniyoshi nasceu em 1798 e também produziu gravuras ukiyo-e, mas ficou conhecido pelas criações no estilo musha-e. É uma forma de gravura dedicada a retratar heróis japoneses, que transita entre as lendas e personagens reais da história do país. Kuniyoshi também produziu paisagens, como a série “Tōto meisho” (Lugares famosos da Capital), um de seus trabalhos mais conhecidos, e teve o mesmo professor que Kunisada, o gravurista Utagawa Toyokuni.

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