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O protagonista Marco Ruffo, personagem de Selton Mello em 'O Mecanismo'

“O Mecanismo”, série da Netflix baseada na Operação Lava Jato, entrou no ar na plataforma de streaming na sexta-feira (23). Dirigida por José Padilha, dos filmes “Tropa de Elite” e “RoboCop”, tem provocado reações de espectadores e da classe política.

Nas redes sociais, enquanto alguns celebram o retrato feito pela série ficcional da maior operação contra a corrupção já realizada no Brasil, outros a acusam de distorcer a realidade, lançando uma campanha de boicote à Netflix por meio do cancelamento de assinaturas.

A indignação do grupo se deve, principalmente, ao fato de que, na série, a frase “tem que mudar o governo para estancar essa sangria” é uma fala do ex-presidente Higino, personagem baseado no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

A citação foi dita, originalmente, pelo senador Romero Jucá (MDB) ao ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado e revelada em 2016 por meio de uma gravação. Repercutiu intensamente por sugerir relação entre o impeachment de Dilma e a intenção de barrar a Lava Jato.

“O Mecanismo” não é a primeira narrativa ficcional a lidar com o tema. O filme “Polícia Federal - A Lei é Para Todos”, dirigido por Marcelo Antunez, estreou em setembro de 2017 e, também focado na operação, é o primeiro de uma trilogia. 

O que disseram os políticos

Ainda no dia do lançamento, Marina Silva (Rede) publicou no Valor Econômico uma coluna em que menciona a série de Padilha para tratar do clima político do Brasil, da corrupção e do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL).

A pré-candidata à presidência compartilhou a coluna em sua conta no Twitter, acompanhada do texto “Todos sabemos: o dinheiro que remunera o crime é o mesmo que financia o arbítrio policial, as milícias e grupos de extermínio. E todos estão ligados aos propinodutos da corrupção. Seremos capazes de desmontar o mecanismo?” e as hashtags #OMecanismo e #MariellePresente.

Sobre o texto, uma imagem da vereadora carioca assassinada. Criticada pela associação, Silva apagou o post.

No domingo (25), a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) divulgou uma nota em que acusa a série de mentir, dissimular, assassinar reputações e criar notícias falsas. No mesmo dia, no Twitter, Fernando Haddad (PT) disse que a produção faz parte de um novo gênero cinematográfico: o “fake fiction” (ficção falsa, uma referência ao termo fake news).

A defesa de Padilha

Em entrevistas à Folha de S. Paulo e ao Observatório do Cinema do Cinema, do UOL, Padilha argumenta que “estancar a sangria” é uma expressão comum e que escritores são livres para usá-la. Diz, ainda, não ter dirigido ou roteirizado o episódio no qual a frase foi dita.

Outro ponto levantado pelo cineasta é que a série seria o retrato da corrupção como um problema sistêmico, e não uma crítica a um político ou partido específico.

“‘O Mecanismo’ é uma obra-comentário. Na abertura de cada capítulo está escrito que os fatos estão dramatizados, se a Dilma soubesse ler, não estaríamos com esse problema.”

José Padilha

Em entrevista à Folha

Abaixo, o Nexo fez quatro perguntas ao professor de história da arte da PUC-Rio, Sérgio Bruno Martins, a respeito da responsabilidade da obra em relação aos fatos que retrata, a inserção dela no debate sobre fake news, e outros aspectos.

Qual a responsabilidade de uma obra de ficção ao lidar com fatos históricos?

Sérgio Martins Não se trata de uma questão de a obra ter responsabilidade por fatos históricos; a questão primeira é que a obra é ela própria um fato histórico. Ou seja, ela inevitavelmente participa da construção ou reprodução da nossa compreensão da realidade e possui sentido histórico.

Portanto, a tarefa crítica não é a de avaliar a adequação ou não da obra a um fato pré-estabelecido, mas as opções inscritas no fazer da obra e as convenções culturais que ela reproduz ou questiona. Isso vale inclusive para a opção de representar um fato histórico de conhecimento público e a forma com a qual ele é representado.

Há relação entre os acontecimentos representados pela série e o debate sobre fake news?

Sérgio Martins Sim, mas não aquela relação imediatista que aparece em discussões nas redes sociais. A rigor, é de fato absurdo acusar uma série de ficção de produzir fake news. Mas não é absurdo avaliar que o partido narrativo assumido pela série possa se coadunar com uma paisagem ideológica de memes e fake news.

É o que eu creio que acontece, por exemplo, com a reiterada opção do José Padilha de cindir seus protagonistas-policiais em dois: por um lado, o personagem que vemos na tela, dilacerado por um sistema ou “mecanismo” ao qual ele virtuosamente se opõe; por outro, sua calma voz em off, que já “sacou” a lógica do sistema e nos explica tudo em retrospecto.

Muitos memes e fake news partem exatamente da desorientação de seus receptores para funcionar fornecendo explicações verossímeis e imediatas que desacreditam modelos explicativos mais contra-intuitivos ou complexos.

Como você vê o uso dessa nomenclatura nas críticas à série, que é ficcional? É pertinente falar em fake news ou 'fake fiction' nesse caso?

Sérgio Martins É uma nomenclatura movida mais por seu valor retórico e polêmico do que explicativo. Tanto essa ideia de fake fiction quanto o argumento de que obras de ficção estão isentas de qualquer compromisso com a realidade partem da mesma premissa de que haveria uma cisão entre fato real, de um lado, e a ficção, de outro.

A primeira cobra adesão da obra ao fato cuja veracidade é pré-estabelecida e a segunda, autonomia absoluta da obra, absolvendo-a de antemão inclusive de qualquer crítica quanto ao seu sentido histórico e político, como se ela fosse produzida, circulada e recebida num limbo. É o mesmo equívoco de fundo, apenas explorado para fins diferentes.

Há algum agravante quando se trata de fatos políticos recentes? Como você avalia as tentativas da ficção brasileira de dar conta de episódios recentes da política brasileira, em especial da Operação Lava Jato?

Sérgio Martins A alusão a episódios recentes não é um problema por si só. Mas o fato desses serem polêmicas ainda candentes indica uma opção comercial: são filmes ou séries que querem ganhar audiência explorando temas que ainda movem paixões muito intensas e polarizadas.

Isso aumenta o risco de que esses produtos tenham sido pensados para aproveitar ao máximo esse estado de coisas, isto é, que suas opções estéticas e narrativas sejam norteadas por uma espécie de engenharia dos afetos – quanto mais reação imediata o produto gerar, melhor. Isso tende a ser um cálculo mais comercial do que artístico. A polêmica rasa e os pedidos de boicote são indícios de que a estratégia dos produtores deu certo.

 

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