Quem mais perde com uma eventual candidatura de Temer ao Planalto

Presidente fala abertamente em candidatura. Partidos ligados a governo impopular têm agora quatro possíveis nomes para a disputa

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    Um ano e dez meses depois de assumir o Palácio do Planalto, Michel Temer já admite publicamente que poderá entrar na disputa presidencial de outubro de 2018. As primeiras declarações públicas nesse sentido foram dadas na terça-feira (20), em Brasília. Três dias depois, a revista IstoÉ publicou uma entrevista com o presidente na qual ele afirma claramente:

    “Seria covardia não ser candidato”

    Michel Temer

    presidente da República, segundo quem é necessário fazer a defesa de seu governo

    Temer foi eleito vice-presidente duas vezes, em 2010 e 2014. Nos dois primeiros anos do segundo mandato, articulou com seus aliados no Congresso o impeachment da titular Dilma Rousseff.

    Ele assumiu o Palácio do Planalto em maio de 2016 com o discurso de que faria um mandato de transição. Já presidente, afirmou mais de uma vez que não seria candidato à reeleição.

    “Estou negando a possibilidade de uma eventual reeleição”

    Michel Temer

    presidente da República, em 15 de maio de 2016

    O discurso do presidente era de que, sem a preocupação com a reeleição, poderia tomar as medidas que julgava que o país precisava, sem levar em conta a popularidade.

    No cargo, Temer assumiu uma agenda de pautas liberais na economia que eram rejeitadas pela maioria da população. Somada às denúncias de corrupção de que foi alvo, registrou os menores índices de aprovação da história recente do Brasil.

    Mas Temer começou a se mover em fevereiro de 2018. Decretou uma intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, algo que nunca tinha acontecido desde a Constituição de 1988.

    A medida, anunciada de repente e sem planejamento, foi classificada por Temer por “jogada de mestre”. Ali ele tentava mudar o foco do fracasso de sua tentativa de aprovar a reforma da Previdência apostando em um assunto de apelo popular: o combate à violência.

    Elsinho Mouco, seu marqueteiro, afirmou em entrevista ao jornal O Globo que a intervenção “virou a agenda” do país. “Ele [Temer] já é candidato”, disse o assessor presidencial ainda em fevereiro.

    Agora, é Temer que começa a falar publicamente sobre ir para a reeleição. A ideia declarada é tentar defender o que fez no período em que comandou o país. O MDB, seu partido, pode lhe garantir um bom tempo de TV na propaganda eleitoral.

    Caso venha mesmo a sair candidato, a ala governista que quer ir para a campanha com nome próprio ficará ainda mais embolada. No momento, e contando com Temer, são quatro os partidos que construíram a chegada do peemedebista à Presidência dispostos a disputarem seu lugar na urna em outubro.

    O quadro, se concretizado, lembra o que ocorreu nas eleições de 1989, quando vários partidos ligados ao governo impopular de José Sarney lançaram nomes.

    No fim, nenhum deles conseguiu votação significativa. E praticamente todos foram abandonados pelos aliados durante a campanha. Fernando Collor de Mello, que herdou esse apoio, bateu Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno. Os dois eram oposição a Sarney.

    Alckmin: a favor das reformas

    Geraldo Alckmin, recém confirmado pelo PSDB como pré-candidato,  tenta se descolar do governo. O apoio dos tucanos, porém, foi decisivo para a tramitação e aprovação do impeachment de Dilma Rousseff e, consequentemente, para a chegada de Temer ao poder. O PSDB também apoiou a agenda de reformas do governo.

    As denúncias de corrupção contra Temer, fruto da delação da JBS, dividiram o partido - o então presidente nacional tucano, senador Aécio Neves, também foi atingido em cheio por essas delações.

    Aos poucos, o PSDB foi se afastando do governo, deixando ministérios, mas mantém alguns postos na máquina federal, como o ministério de Relações Exteriores, nas mãos do senador Aloysio Nunes Ferreira

    Fora de Brasília, Alckmin oscilou entre a aproximação e a separação de Temer. Quando assumiu a presidência do PSDB no lugar de Aécio, o partido deixou, oficialmente, a base de apoio ao governo no Congresso.

    Meirelles: a cara da agenda econômica

    Henrique Meirelles é o responsável pela agenda econômica de Temer desde que este assumiu o comando do país. O ministro da Fazenda fez carreira no mercado financeiro, mas tem pretensões políticas.

    Já foi eleito deputado federal pelo PSDB de Goiás. Depois ocupou a presidência do Banco Central no governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Agora voltou ao governo pelas mãos de Temer.

    Nos últimos meses, Meirelles tem dado entrevistas, ido a igrejas e foi o destaque do programa do PSD na TV em dezembro de 2017. Nesse programa, não citou Temer.

    Oficialmente, o ministro diz que só vai tomar a decisão sobre um eventual lançamento de candidatura em abril, limite legal para deixar o Ministério da Fazenda se quiser ser candidato.

    “Se eu decidir ser candidato e o presidente também vamos conversar para ver qual será o melhor entendimento”

    Henrique Meirelles

    ministro da Fazenda, em 19 março de 2018

    O problema para Meirelles é que o principal ponto de sua agenda, a reforma da Previdência, não foi para frente. O ministro tem a seu favor, porém, a melhora dos índices econômicos.

    O presidente do PSD, Gilberto Kassab, tem feito elogios constantes a Meirelles, a quem chama com frequência de plano A do partido. No entanto, Kassab admitiu no dia 19 de março que o partido talvez não tenha condições de lançar uma candidatura sem apoio.

    Maia: outro aliado em busca de independência

    Rodrigo Maia é o primeiro na linha de sucessão da Presidência, o que fez seu nome ser cotado para substituir Temer no auge da crise da JBS - algo que causou algum problema com o presidente. Mas durante a maior parte do tempo, o presidente da Câmara foi um aliado do Planalto.

    O DEM, seu partido, tem ministros no governo, incluindo áreas-chave como a pasta da Educação, e foi um dos partidos que mais ganhou politicamente com o fim das administrações do PT, durante as quais se manteve na oposição e perdeu força.

    Maia já é oficialmente pré-candidato pelo DEM, teve seu nome aprovado na convenção do partido no início de março. O presidente da legenda, ACM Neto, prefeito de Salvador, disse que a candidatura de Maia não será “uma candidatura do governo”. Maia, porém, pensa em atrair parte da base que hoje sustenta o governo Temer.

    “Vamos construir alianças para ser também o candidato de partidos aliados”

    Rodrigo Maia

    presidente da Câmara e pré-candidato do DEM, em 08/03/2018

    Duas análises sobre a disputa por espaço

    Com a entrada de Temer, passam a ser quatro os possíveis pré-candidatos à Presidência que participaram da base do governo. Isso não quer dizer que todos estarão com o nome nas urnas em outubro.

    As candidaturas para valer serão registradas apenas em agosto. Nesse período anterior, muitos desses lançamentos acabam servindo para que haja um maior poder de barganha na formação de alianças.

    Diante desse quadro, o Nexo perguntou a dois cientistas políticos se há espaço, de fato, para tantos nomes na disputa. E como uma eventual candidatura de Temer afeta as pretensões dos outros três nomes governistas. São eles:

    • Felipe Borba, cientista político e professor da Unirio
    • Rafael Cortez, cientista político da consultoria Tendências

    Como uma candidatura de Temer impacta os projetos de Maia e Meirelles?

    Felipe Borba Temer enfraquece as outras forças ligadas a ele não apenas por sua presença na eleição - que nem deve ser assim tão contundente. Mas mais porque ele enfraquece os outros, principalmente Alckmin.

    Maia se lançou pré-candidato para se cacifar politicamente, aumentar um pouco seu poder de barganha em uma coligação. Porque Maia não tem expressão eleitoral para se candidatar a Presidência: ele teve 2% quando tentou a prefeitura do Rio e foi eleito deputado com 53 mil votos. Por mais que ele ache, ele não é viável nacionalmente.

    Meirelles é a mesma coisa, está em um partido que não parece muito interessado em lançar candidato. Ele também precisaria do apoio de um partido grande, como o MDB, para poder ter força política. Sozinho, dificilmente ele consegue.

    Rafael Cortez Uma eventual candidatura de Temer é certamente um limitador para a entrada de demais nomes de partidos de centro-direita - fundamentalmente os partidos da base aliada. Não me parece que há mercado para todos eles, para todos esses projetos.

    Se eventualmente todos aparecerem nas urnas, há uma chance de canibalização do voto. O que a fragmentação do centro gera na prática é o aumento das chances de um segundo turno entre um nome da esquerda contra Jair Bolsonaro [pré-candidato do PSL].

    Temer na eleição defendendo o próprio governo é bom ou ruim para Alckmin?

    Felipe Borba Um candidato que defenda abertamente o legado de Michel Temer não vai ter muito sucesso eleitoral. A avaliação de governo é uma das principais variáveis que explicam a votação no candidato do governo. Governo mal avaliado dificilmente consegue fazer seu sucessor. Por isso alivia um pouquinho para Alckmin porque, com Temer, ele consegue se afastar um pouco da carga negativa que o governo tem.

    Mas se Temer se lança candidato, ele desfaz uma aliança que ia caminhando, entre MDB e PSDB. Ele pulveriza a eleição e distribui os recursos. Acaba o sonho do PSDB de ter o MDB na chapa para poder ter mais tempo de televisão, mais recursos do fundo eleitoral.

    Rafael Cortez Em um certo sentido, a candidatura do Temer é negativa para Alckmin. Mas é verdade que ela tira do tucano a responsabilidade de defender o legado da administração Temer. Mas por outro lado divide recursos importantes de poder, especialmente tempo de televisão, recursos financeiros.

    A despeito de tentar se distanciar da administração Temer em termos de agenda econômica, em termos políticos a associação é muito próxima. O PSDB foi ativo na formação no impeachment e votou uma série de medidas junto com o governo. Certamente a esquerda vai fazer essa associação.

    No fim, liquidamente, é ruim. Acho que Alckmin pode se viabilizar se for o único nome entre os partidos de centro-direita, com um eleitorado que busca as reformas e menor incerteza.

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