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Como este jogo representa o cabelo natural de sua protagonista negra

‘In the Valley of Gods’ tem mulher à frente da equipe de criação e busca lidar com as especificidades do cabelo crespo tipo 4

 

Um jogo ainda em produção pelo estúdio independente Campo Santo, de São Francisco, nos EUA, está preocupado em representar corretamente a textura do cabelo natural de sua protagonista, que é negra.

Além de a quantidade de mulheres negras personagens dos videogames ser pequena, sua representação, quanto ao cabelo, acaba sendo imprecisa, diz o site The Outline, restrita a um ou dois tipos de cabelo crespo, quando existem muitos outros.

“In the Valley of Gods” é um jogo de aventura ambientado no Egito dos anos 1920 e está sendo desenvolvido por uma equipe especialmente atenta às questões culturais e técnicas embutidas na representação do cabelo de Zora, a personagem em questão.

Depois de “Firewatch”, é o segundo game desenvolvido pela Campo Santo, com previsão de lançamento para 2019.

A designer que lidera esta equipe, Jane Ng, escreveu sobre o assunto na primeira semana de março no blog da Campo Santo.

“Como mulher imigrante de origem chinesa com um cabelo atipicamente frisado e ondulado, meu cabelo é, em certa medida, a expressão visível do meu conflito com quem sou e o lugar ao qual pertenço (ou não)”, escreveu. “Estamos comprometidos a dar a Zora um cabelo que ela ame, da maneira que ela escolheu usar, com todo carinho e esforço possíveis.”

A especificidade do cabelo que pretendem tratar com justeza é ser um cabelo afro chamado de “tipo 4”, comum entre mulheres negras e caracterizado por “cachos bem apertadinhos que começam na raiz”, finos e macios, segundo uma descrição publicada na revista Raça.

O processo de criação

O trabalho feito até o momento mirava na apresentação do trailer no Game Awards de 2017, cerimônia americana de premiação voltada para a indústria de games.

A versão do cabelo de Zora que pode ser vista atualmente, portanto, ainda será aprimorada para o produto final.

 

Para atingir uma aparência natural, que tivesse textura, volume e movimento, foi preciso mesclar duas técnicas usadas na criação de cabelos de personagens de videogames e explicadas por Jane Ng em seu post.

“Hair helmet” (cabelo capacete, em tradução livre) é a que se assemelha ao cabelo de um boneco “action figure” ou de Lego, geométrico e opaco. O cabelo da princesa Zelda no jogo “The Legend of Zelda: Breath of the Wild”, é o exemplo que a artista dá como referência desse tipo de cabelo.

 

“Hair cards” (camadas de cabelo, em tradução livre), por outro lado, sobrepõem camadas de fios de cabelo, retratando um cabelo mais fluido, como o de personagens do jogo “Uncharted 4”.

 

O cabelo de Zora é uma variação do “hair card” padrão, chamada por ela de “grandes tubos”, que assumem a forma de “hair helmet”. A combinação permite que a forma do cabelo tenha, ao mesmo tempo, movimento e estabilidade.

 

A equipe ainda realizou testes para verificar como o cabelo criado interagia com a luz. Foi preciso fazer ajustes para garantir que ele respondesse adequadamente a diferentes iluminações. O resultado pode ser visto abaixo.

 

O problema da representação

Em um artigo publicado em 2017 no site Kotaku, o escritor Evan Narcisse, que é negro, se queixa de não conseguir reproduzir seu próprio cabelo mesmo nos jogos que permitem criar um protagonista e customizar suas características.

“Eu tento me recriar na forma digital. É um impulso incontrolável (...), reflexo de décadas sem ver pessoas negras [nos videogames] — que não fossem ‘tokens’, piadas ou [figuras] sub-humanas”, escreve.

De acordo com ele, alguns estilos e tipos de cabelo afro são mais representados que outros: é o caso dos dreadlocks e tranças, que costumam aparecer com alguma frequência nas telas dos games.

Para Narcisse, estilos como esses geralmente estão atrelados, nos jogos, a alguma característica da personalidade do personagem: ser espiritualizado, engraçado, ou “estiloso”. O cabelo afro mais comum, natural, como o dele próprio, é raramente representado.

Como uma das formas de solucionar a questão, o autor do texto aponta para a necessidade de haver mais pessoas negras criando videogames. E afirma que “qualquer discussão sobre o cabelo de pessoas negras é, em sua base, sobre mais do que os folículos crescendo no corpo de alguém”.

O problema precede a questão capilar: está na criação de personagens negros que sejam protagonistas e que fujam de estereótipos.

“A era moderna dos videogames  — os últimos 20 anos, mais ou menos  — praticamente não tem personagens negros principais nos jogos de grande orçamento ou nos independentes, de equipes pequenas. Houve muitos auxiliares e companheiros [negros do personagem principal]. Muitos deles se apoiaram em estereótipos vergonhosamente retrógrados.”.

Evan Narcisse

No texto ‘The Natural: The Trouble Portraying Blackness in Video Games’

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