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Por que um curso sobre felicidade bateu recorde de popularidade em Yale

Aulas baseadas em psicologia positiva oferecem a alunos estratégias para se tornarem mais felizes. Após sucesso, curso está disponível na internet

Foto: Reprodução/TED
Laurie Santos, professora do departamento de psicologia da Universidade de Yale
Professora Laurie Santos acredita que curso pode ajudar a mudar cultura em Yale

No início deste ano, o departamento de psicologia da universidade americana Yale, na cidade de New Haven, acatou a proposta da professora Laurie Santos e abriu vagas para uma disciplina chamada “Psicologia e a boa vida”, em tradução literal.

A expectativa era de que menos de 100 alunos se inscrevessem  para o curso – em geral, o número de estudantes em cursos muito concorridos na Yale não passa de 600. Em três dias, mais de 300 estavam inscritos. Em seis dias, o número de matrículas atingiu a marca de 1.182. Um recorde na universidade, que é uma das mais antigas e respeitadas do país.

A reitora foi obrigada a passar a disciplina que seria dada em uma sala simples – com direito a transmissão ao vivo para estudantes que não conseguiram se inscrever a tempo – para um auditório normalmente usado somente para grandes eventos.

A proposta da disciplina é a de passar fundamentos da psicologia sobre “como se viver uma vida melhor e construir um mundo melhor”. Os assuntos das aulas envolvem “estratégias validadas cientificamente para se tornar mais feliz, mudando seu comportamento, lidando com vieses cognitivos e escolhendo uma carreira significativa”.

Em entrevista ao The New York Times, Laurie Santos diz esperar que com as aulas e os exercícios práticos – que envolvem aplicar no dia a dia o que tenha sido ensinado em sala –, o cotidiano no campus melhore.  “Se virmos bons hábitos, coisas como estudantes mostrando mais gratidão, procrastinando menos, aumentando suas conexões sociais, nós estaremos realmente mudando a cultura da universidade”, disse.

Para Santos, a aula causou interesse sobretudo de estudantes que acabaram de entrar na universidade. Isso porque, diz, muitos “despriorizaram” a própria felicidade para se dedicarem e atingirem as notas necessárias para serem admitidos. Isso inclui a adoção de hábitos ruins para a saúde, como privação de sono, o que leva à “crise de saúde mental que estamos vendo em lugares como a Yale”, disse ela.

Um relatório de 2013 do conselho universitário da Yale embasa a afirmação de Santos: metade dos alunos procuraram atendimento de saúde mental na universidade durante o período de graduação. Ao The New York Times, uma estudante de 19 anos que frequenta as aulas da professora Laurie Santos disse que muitos alunos vivem “ansiosos, estressados, infelizes e ‘anestesiados’”.

“Eu odeio ver eles [os alunos] gastando os anos de universidade ansiosos sobre o futuro. Eu queria abrir uma conversa ampla sobre a cultura da Yale de forma geral. Mas eu acho que se tornou uma conversa maior do que eu pretendia”, disse.

Psicologia positiva

Em suas aulas, Santos diz se amparar em dois grandes eixos: a psicologia positiva e a mudança comportamental. O primeiro é um braço da psicologia que se apoia no conceito aristotélico de “boa vida” e busca entender formas de garantir que as pessoas possam ter vidas mais felizes e gratificantes.

Essa linha da psicologia ganhou mais força entre as décadas de 1990 e 2000, sob a influência de Martin Seligman, pesquisador e ex-presidente da APA (Associação Americana de Psicologia).

No Brasil, um coletivo de professores e pesquisadores de diferentes universidades passaram a formar o CPBEC (Centro de Pesquisa Aplicada em Bem-Estar e Comportamento Humano), sediado desde 2016 no Instituto de Psicologia da USP. Com apoio privado da Natura e da Fapesp, o objetivo do centro é “promover pesquisas sobre o bem-estar psicológico, abordando aspectos como emoções positivas, intervenções comportamentais e a base neural de processos sociais e afetivos”.

O segundo eixo, auto-explicativo, envolve a parte mais prática da aula que vai além de provas e trabalhos. Os estudantes são convocados a se envolver em um projeto chamado “Hackeie você mesmo”, que visa instigar os alunos a se “reprogramarem” e aplicar as aulas em suas rotinas.

“A psicóloga Sonja Lyubomirsky [professora na Universidade da Califórnia e adepta da psicologia positiva] compara ser feliz com aprender a tocar violino ou a se tornar um astro do futebol”, disse Laurie Santos à BBC. “Não é algo que você simplesmente possa fazer. Tem que praticar para ser cada vez melhor.”

Manual do bem-estar

Ainda à BBC, a professora fez uma lista com as quatro “tarefas” que indica a seus alunos praticarem durante a semana, para adotarem melhor bem-estar na vida.

  • Agradeça: diariamente à noite os estudantes devem fazer uma lista com todas as coisas pelas quais eles se sentem agradecidos, “reconhecendo as próprias conquistas pessoais ou experiências de vida”. “Parece bem simples, mas vimos que aqueles que fazem esse exercício regularmente tendem a ser mais felizes”, disse Santos à rede britânica.
  • Durma: o exercício, na teoria, é simples. Os alunos são desafiados a dormir 8 horas por dia durante uma semana inteira. “Parece bobo, mas sabemos que o aumento do tempo de sono diminui a depressão e aumenta a atitude positiva”.
  • Medite: de acordo com a psicóloga, os alunos devem buscar meditar ao menos 10 minutos por dia visando aumentar “a atenção plena”, o que supostamente pode contribuir para o bem-estar.
  • Aproveite seu tempo: por fim, Santos indica usar melhor o tempo livre para se conectar com amigos e familiares – e quando o fizer, é preferível que seja presencialmente e não pela internet. “Se você está sacrificando seu tempo para trabalhar mais e ganhar mais dinheiro, isso não é um bom comportamento. Seria melhor aumentar a quantidade de tempo livre que você tem”, aconselhou a professora.

Felicidade on-line

A lotação nas aulas de Laurie Santos em Yale acabou não se tornando um problema tão grande para quem não conseguiu se inscrever a tempo. A professora e a universidade fizeram uma parceria com a plataforma de ensino on-line Coursera, que passa a oferecer desde esta terça-feira (20) o curso gratuitamente pela internet (sem certificação).

Renomeado para “A ciência do bem-estar”, o curso on-line de seis semanas (falado e legendado em inglês) promete “não só ensinar o que as pesquisas na psicologia dizem sobre o que nos faz feliz, mas também a colocar aquelas estratégias em prática”.

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