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Por que tampar rios tem impacto nas enchentes de cidades brasileiras

Para urbanista e geógrafo do projeto Rios e Ruas, abordagem da população e autoridades em relação aos cursos d'água urbanos deve ser revista

 

Chuvas fortes que atingiram São Paulo no dia 20 de março trouxeram o conhecido roteiro de ruas inundadas, carros ilhados, casas danificadas e até mortes. Quatro dias antes, ruas e avenidas de Belo Horizonte se transformaram em volumosas corredeiras que arrastaram carros aos montes.

Na capital paulista, o secretário das Prefeituras Regionais de São Paulo, Claudio Carvalho, disse que a prefeitura tinha feito a sua parte em relação a limpeza de bueiro, galerias e córregos. Mas o esforço teria sido em vão diante da precipitação maior que o normal. “Foi um índice acima da média, 55 mm de precipitação em uma hora nas regiões central e oeste da cidade”, afirmou à GloboNews.

Em Belo Horizonte, a prefeitura decretou situação de emergência. O objetivo é conseguir verbas do governo federal para obras emergenciais, entre elas a readequação de estruturas de drenagem. A Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura reconhece que diversos pontos hoje não suportam as cheias em um cenário de maior urbanização e impermeabilização do solo.

“Um rio canalizado resolve um problema local, mas mais abaixo ele vai chegar com volume muito maior, daí as enchentes.”

José Bueno

Urbanista e arquiteto, projeto Rios e Ruas

Para os fundadores do projeto Rios e Ruas, o geógrafo Luiz de Campos Junior e o arquiteto e urbanista José Bueno, enquanto as cidades brasileiras insistirem em soluções que perpetuem as estruturas que canalizam e tampam córregos e ribeirões, o progresso em relação aos problemas trazidos pelas chuvas será limitado.

O Rios e Ruas foi fundado pela dupla em 2010, ao lado da bióloga Juliana Gatti, para chamar a atenção para os rios “escondidos” da cidade de São Paulo por meio de oficinas, exposições e expedições a nascentes.

“Nossa conversa toda é parar de reproduzir de uma vez por todas um modelo antigo, vencido, de canalização e tamponamento e começar a repensar a presença desses rios no tecido urbano, com áreas [naturais] de drenagem”, explicou Bueno em entrevista ao Nexo. “No Brasil, é uma questão cultural. A gente foi habituado a não desejar esses rios na cidade, a associar eles com esgoto. A demanda das prefeituras é para canalização desses rios. O grande desafio é mudar o entendimento das pessoas quanto à necessidade deles na paisagem urbana,”

Em 20 de março de 2018, Bueno coordenou a mesa “Rios urbanos: cidadãos como agentes transformadores deste ambiente” no Fórum Mundial da Água, em Brasília. A proposta do encontro foi de refletir sobre a importância de recuperar rios e riachos nas cidades, reincorporando a água no cotidiano urbano. Entre os participantes, estava o engenheiro português Pedro Teiga, responsável por projetos de reabilitação de rios e ribeirões na cidade do Porto.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com José Bueno e Luiz de Campos Jr. do Rios e Ruas.

O fato de as cidades brasileiras terem muitos de seus rios e córregos cobertos e canalizados tem qual influência nas enchentes que vemos todo ano, quando há chuvas fortes?

José Bueno A culpa é colocada na chuva, mas se trata de cheia de rio. Essas águas aparecem e sempre vão aparecer. Quando você canaliza e retifica um rio, ele vai correr com muito mais velocidade e volume. No curso natural, um rio normalmente desacelera. Um rio canalizado resolve um problema local, mas mais abaixo ele vai chegar com volume muito maior, daí as enchentes. Vem então a solução dos piscinões. Vamos enterrar mais profundamente estes rios.

Luiz de Campos Jr. Não há novidade aqui. É a política da desinformação. Sempre temos as explicações rasteiras dos gestores urbanos de que tem que limpar galerias e tudo mais. Bom, em 2006, fiz um estudo sobre três dias de muita chuva em 3, 4 e 5 de janeiro de 2005. Houve eventos catástrofes em vários pontos da cidade. Por meio do centro de emergência da prefeitura de São Paulo, peguei todos os pontos que inundaram, onde carros não conseguiam circular. Quando se comparava estes pontos de enchente com a hidrografia da cidade, estavam todos em cima de um rio. É uma correlação direta entre o local de inundação e onde os rios correm. Construímos em lugares que não deveríamos ter construído. Quando dizem que o rio invadiu a Marginal [do Tietê, em São Paulo] é uma falácia, foi a Marginal que mergulhou no rio, pois ali é uma várzea.

Isso é algo que se observa no Brasil inteiro? Há cidades indo em outra direção?

José Bueno É difícil pegar bons exemplos. Algumas cidades menores, que estão em processo de tamponamento, começam a questionar o modelo. Sorocaba está repensando a convivência com seu rio. Não é exemplar, mas é uma cidade com uma relação bem diferente. Em Piracicaba [interior de São Paulo], onde estamos fazendo esta exposição, há uma relação de afeto com o rio Piracicaba, mas tem 60 outros rios que estão tamponados na cidade. Esse modelo pegou feito uma praga. Cidades por todo o mundo adotaram essa opção da canalização como maneira de viabilizar o desenvolvimento.

Existem autoridades já contemplando a ideia de repensar os rios?

José Bueno Não é agenda, não é pauta para ninguém entre as autoridades. Tem que vir como demanda da sociedade, é nesse sentido que trabalhamos, criar o conhecimento para criar o desejo para criar nova legislação, uma nova gestão dessas águas. Mas hoje ainda não há isso.

Que soluções urbanísticas seriam possíveis, em um curto ou médio prazo?

Luiz de Campos Jr. Coisas de que ninguém fala por aqui como jardim de chuva [canteiro com plantas, formado em solo rebaixado, que coleta água da chuva por meio de aberturas em seu contorno], parques inundáveis [áreas verdes que contém cheias de rios], telhados verdes [colocação de solo e vegetação em uma base impermeável sobre as construções] e reutilização de águas de chuva para usos não nobres, como lavar quintal e resfriar máquinas. Essas estruturas verdes, além de minimizar o problema das enchentes, diminuem a velocidade das águas e retêm água, permitindo que ela entre no subsolo. A água chega também com maior qualidade, pois passa filtrada pelo solo e não vai direto da sarjeta para o cano e depois para o rio, com lixo e tudo mais. São soluções desenvolvidas e difundidas em países mais desenvolvidos, mas aqui continuamos com essa ideia de acabar com as enchentes por meio da canalização e piscinões.

Após uma chuva forte, o piscinão fica completamente lotado de sedimento e lixo. Leva duas semanas de filas de centenas de caminhões e máquinas dentro do piscinão para retirar esse lixo todo. Depois ele tem de ser todo recuperado. Isso acontece pela vida inteira do piscinão. Imagine o custo de manutenção de um piscinão depois de uma temporada de chuva. É um equipamento urbano que degrada o ambiente porque visualmente é feio e não pode ser aproveitado pelas pessoas. Totalmente diferente de um parque, como feito em Portland, nos Estados Unidos, uma cidade modelo neste sentido. Integrado à paisagem da cidade e utilizado pela população. É pensar na área inundável não como um desastre, mas como uma coisa positiva para a qualidade ambiental urbana.

 

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