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Quais os contextos e os objetivos das 3 caravanas de Lula

Viagens do ex-presidente pelo país marcaram estratégia eleitoral do PT na década de 1990. Agora, elas se inserem na batalha do ex-presidente contra sua condenação por corrupção

     

    Em 1993, Luiz Inácio Lula da Silva era o favorito para vencer a disputa presidencial marcada para o ano seguinte. Traçou, então, um plano para viajar o país sob o nome de “Caravanas da Cidadania”. A ideia era usar os eventos realizados em centenas de cidades fazia parte de uma estratégia eleitoral, que passava também pela elaboração de um programa de governo.

    As caravanas viriam a se repetir outras duas vezes, em proporções menores. No biênio de 2001 e 2002, que também antecederam eleições presidenciais. E agora, entre 2017 e 2018, quando Lula lidera, de novo, as pesquisas de intenção de voto para o Palácio do Planalto. O contexto e os objetivos das viagens, porém, são outros.

    1993 e 1994: estreia do projeto

     

    A primeira caravana começou em 1993, tendo como ponto de partida Garanhuns (PE), onde Lula nasceu. Até 1994, ano em que o petista disputaria a Presidência pela segunda vez, foram realizadas outras seis incursões, que, nos cálculos dos registros do PT, somaram 359 cidades em 26 estados. Por meio delas, Lula dizia que queria conhecer melhor o Brasil e seus problemas.

    As caravanas foram organizadas pelo Instituto Cidadania, ONG fundada após as eleições de 1989 - em que Lula foi derrotado no segundo turno para Fernando Collor de Mello. Ela servia como apoio ao programa político de Lula.

    Ao sair em viagem pelo país, em 1993, o ex-sindicalista abriu o calendário eleitoral, tornando-se o primeiro nome a se lançar em campanha.

    O cientista político Lincon Secco, especialista na história do PT, lembra que as viagens tiveram efeito importante para a estratégia eleitoral de Lula. Além da atenção que atraiu, o líder petista conseguiu se firmar como candidato e mapeou lideranças locais vislumbrando possíveis aliados durante a campanha de fato.

    Qual o momento político

    O país passava por um momento econômico ruim,  em 1993, com a inflação em alta. Na política, havia se passado poucos meses do impeachment de Fernando Collor de Mello (concluído em dezembro de 1992). 

    2.780,6%

    era a inflação acumulada do ano de 1993

    O vice Itamar Franco havia assumido a Presidência e o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, começava a apresentar seus planos para estabilizar a economia e reduzir a inflação, que incluia o lançamento de uma nova moeda, o Real. O cenário ruim para o governo favorecia Lula, que liderava as pesquisas de intenção de voto.

    O que ocorreu

    As caravanas deram projeção a Lula, que explorou nas viagens o discurso de que visitava locais esquecidos pela maioria dos políticos, como a região do semi-árido, no Nordeste. Mas o lançamento do Plano Real, em 1994, virou o jogo eleitoral e favoreceu o candidato do governo, Fernando Henrique (PSDB).

    No período próximo da eleição, o índice de inflação ainda era alto, mas já dava sinais de melhora – terminou o ano acumulado em 1.093,8%. As mudanças na economia projetaram Fernando Henrique, que acabou eleito ainda no primeiro turno, com 54,3% dos votos válidos.

    2001 e 2002: versão menor reeditada

    Embora ainda não se declarasse candidato do PT à Presidência, em meados de 2001 Lula reeditou as “Caravanas da Cidadania”. Menor que a primeira versão, foram três viagens, passando por 47 cidades em sete estados. A temática principal era falar do combate à fome, mas o petista aproveitava os eventos para fazer um discurso de oposição ao governo Fernando Henrique.

    Qual o momento

    A economia brasileira não ia bem, em parte também por causa dos efeitos da crise mundial. O Real teve forte desvalorização e havia pessimismo do mercado em relação ao futuro. A crise do apagão obrigou o governo a executar um programa de racionamento de energia, aprofundou o desgaste de Fernando Henrique. Um ano antes da eleição de 2002, Lula aparecia como favorito nas pesquisas, posição que sustentou quase o tempo todo até a votação.

    O que ocorreu

    O cenário político e econômico em 2002 era mais favorável a Lula. Apenas 23% do eleitorado achava a gestão FHC “ótima ou boa”, segundo o Datafolha de setembro de 2002, e a campanha do candidato do PSDB, José Serra, sofreu o baque de representar a continuidade de um governo desgastado.

    Lula, por sua vez, adotou o tom “paz e amor”, ajustando seu discurso para se aproximar do empresariado e do mercado. Nessa campanha, apresentou a “Carta ao Povo Brasileiro”, em que se comprometia a manter os fundamentos econômicos do governo tucano.

    O documento ainda hoje é considerado como um dos trunfos da campanha por ajudar a vencer a resistência de parte do setor econômico a um líder operário. Lula foi eleito no segundo turno, com 61,3% dos votos, ante 38,7% de Serra.

    2017 e 2018: ameaça de prisão e polarização

    Em 2006, quando Lula disputou a reeleição, o PT anunciou uma nova edição das caravanas, mas sem a participação de Lula. Desde então, o ano de 2017 marca o retorno de fato do projeto que foi destaque quase 25 anos antes.

    Se em 1993 as caravanas deram projeção a Lula e aos programas de governo do PT, a partir de 2017 o propósito das viagens era outro: uma estratégia de defesa do ex-presidente e do partido, em busca de apoio popular a fim de conter o desgaste público provocado por uma série de eventos.

    A versão atual das caravanas foram batizadas de “Lula Pelo Brasil”. Ela já passou por cidades do Nordeste, do Sudeste e agora está no Sul. A primeira incursão na região, em Bagé (RS), teve um roteiro adverso, com protestos contra o petista, que precisou mudar o trajeto em cima da hora. “Confesso que saio triste daqui”, afirmou o ex-presidente.

    A sequência de crises

    O julgamento do mensalão em 2012

    O escândalo que atingiu a cúpula do PT em 2005 veio a ser julgado em 2012. A acusação central era de que o partido havia comprado apoio no Congresso para o governo Lula. Nomes importantes do partido como o ex-ministro José Dirceu e o ex-deputado José Genoino foram condenados por corrupção. Os dois, ao lado de vários outros, foram presos.

    As manifestações de junho de 2013

    No ano seguinte à condenação, o Brasil viveu uma série de manifestações, que começaram com protestos contra aumento de passagens nas cidades e viraram algo difuso. A sequência de atos derrubou a popularidade da sucessora de Lula no Planalto, Dilma Rousseff, e mudou os rumos dos seu governo.

    A deflagração da Lava Jato em 2014

    Inicialmente, a Lava Jato atingiu com mais intensidade políticos do PT, que estava na Presidência quando a operação foi deflagrada, em 2014, primeiro mandato de Dilma. Depois do mensalão, o partido agora era apontado como beneficiário de um esquema ainda maior, de desvios de contratos da Petrobras e de grandes obras pelo país. Além de parlamentares, ministros e ex-ministros, a operação chegou até Lula, liderança mais importante do PT.

    A crise econômica de 2015

    Dilma conseguiu se reeleger em 2014, mas o cenário era ruim. Enquanto as investigações da Lava Jato avançavam, o país entrou em uma de suas mais graves crises econômicas. A inflação voltou a subir, o desemprego aumentou e o Brasil entrou em recessão. No ano de 2015, o desemprego começou a crescer. Manifestações antipetistas tomaram o país.

    O impeachment de Dilma em 2016

    O governo Dilma entrou em crise, resultado do isolamento político da presidente, da Lava Jato e da recessão econômica. Novas manifestações tomam as capitais, pedindo a saída de Dilma, afastada temporariamente em maio e definitivamente em agosto de 2016 sob acusação de ter cometido manobras fiscais. O vice Michel Temer assumiu o país, num processo que o PT e parte da sociedade chama de golpe. O resultado das eleições municipais daquele, quando o PT teve a maior perda de votos, demonstrou o efeito que as crise política e econômica tiveram para a legenda  de Lula.

    A condenação de Lula em 2017

    Em julho de 2017, o juiz federal Sergio Moro condenou Lula a 9 anos e 6 meses de prisão em 2017 no caso do tríplex de Guarujá, pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo Moro, o petista recebeu propina da OAS, empreiteira com contratos com a Petrobras, em forma do apartamento tríplex no litoral paulista. Pouco depois da condenação começam as viagens da caravana pelo Nordeste.

    A confirmação da condenação em 2018

    A pena foi confirmada e aumentada pelos juízes da segunda instância, em janeiro de 2018, a 12 anos e 1 mês. Lula ainda aguarda recurso, mas sua prisão pode ser decretada a qualquer momento a fim do início do cumprimento de sua pena. A condenação também ameaça sua candidatura à Presidência, já que o petista pode ser enquadrado pela Lei da Ficha Limpa. A única saída para o petista é que o Supremo mude seu entendimento sobre o início do cumprimento de penas de condenados, algo que vem causando tensão no tribunal.

    O discurso da atual caravana

    Na nova versão das caravanas, Lula dedica parte dos discursos à sua defesa, com ataques à Lava Jato, que segundo ele age para persegui-lo politicamente e evitar que ele se candidate à Presidência.

    Em outra frente, Lula faz críticas ao presidente Michel Temer, que assumiu o poder após o impeachment de Dilma e adotou uma agenda econômica diferente da antecessora, com ênfase nas reformas trabalhista e da Previdência e programas de abertura da economia para o setor privado.

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