O silêncio de Anitta. E a posição de artistas mulheres no caso Marielle

Cantora foi cobrada por fãs por não ter feito menção à morte da vereadora. Engajamento no meio musical é crescente, dizem especialistas

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    Com o assassinato da vereadora Marielle Franco na última quarta-feira (14), muitas artistas da música se manifestaram de diversas maneiras, em aparições públicas e nas redes sociais.

    “Por favor, mulheres que estão à frente, que lutam por todas nós, não deixe que essa tragédia cale a voz de uma geração...”, escreveu a cantora sertaneja Marília Mendonça em seu perfil no Twitter.

     

    Na mesma rede social, a rapper Karol Conka postou que “a vereadora Marielle Franco foi executada no Rio enquanto milhares de brasileiros sonham com a igualdade, segurança e empatia”.

     

    A manifestação mais comentada foi de MC Carol, no Instagram. A funkeira falou sobre um encontro recente com a vereadora e publicou um relato comovido em que dizia que “eu só sinto ódio, só sinto raiva e mt [muito] medo”.

    Durante o Women’s Music Event, evento que destaca o papel das mulheres na música, realizado em São Paulo entre 16 e 18 de março, o caso Marielle e seus significados foram lembrados inúmeras vezes em apresentações e palestras, segundo afirmou ao Nexo uma das fundadoras, a jornalista Claudia Assef.

    Não foram apenas as brasileiras. Em turnê pelo país, a cantora americana Katy Perry projetou uma imagem de Marielle no telão em um show no Rio. A artista também recebeu e abraçou no palco a irmã e a filha da vereadora.

    A ausência de Anitta

    Por outro lado, muitas artistas não fizeram menção ao caso. Nos perfis de artistas muito populares como Ivete Sangalo, Simone, Simaria e Anitta, por exemplo, no Twitter e no Facebook, não houve citação a Marielle.

    No caso de Anitta, o silêncio foi questionado por muitas postagens de usuários nas redes sociais, especialmente porque a artista vinha explorando conceitos como empoderamento feminino e a origem em comunidade pobre.

    “É uma época em que as pessoas se posicionam, não ficam muito em cima do muro. E é muito orgânico esse posicionamento.”

    Claudia Assef

    Cofundadora do Women's Music Event

    “Na hora de lançar ‘Vai Malandra’ ela adora falar que veio da favela né? Quando matam uma mulher negra da favela, vereadora da cidade em que Anitta nasceu e vive, aí ela fica calada?”, escreveu um comentarista. “Não estou cobrando um posicionamento, talvez eu que tenha criado alguma expectativa por algo que era puramente comercial mesmo. É bom pra manter os pés no chão”, ponderou outro.

    No dia 19 de março, cinco dias após a morte de Marielle Franco, Anitta publicou um texto no Instagram em resposta às pressões. Explicou que iria se manifestar três meses após o caso, mas antecipou o comunicado por impaciência com o “ódio gratuito dos internautas”.

    A resposta também sofreu críticas, que chamaram o texto de genérico e insincero. Uma hora depois de ir ao ar, o texto foi removido. A reportagem do Nexo enviou e-mail para a assessoria da cantora algumas horas antes da postagem, mas não obteve resposta.

    Tempos de posicionamento

    No meio musical, tem aumentado o posicionamento de artistas mulheres em relação a causas feministas, acreditam especialistas ouvidas pelo Nexo.

    Para Fabiana Batistella, diretora da conferência musical SIM, a arte tem “o poder de transformar”, por isso o meio artístico tem a “responsabilidade de se posicionar”.

    “O trabalho da Anitta por si só já contribui para essa transformação. Mas, nos tempos que vivemos hoje no Brasil, quando uma artista que desafia as estruturas conservadoras da sociedade, que vem do morro, que se impõe pelo direito de ser livre se cala após um assassinato de uma mulher negra militante, não só o discurso artístico pode parecer vazio, mas ela perde a chance de levar sua mensagem de transformação para milhares de pessoas de forma bem mais forte e direta”, afirmou.

    Para Assef, do Women’s Music Event, antes do público, a cobrança vem das próprias artistas como reação aos tempos atuais. “É uma época em que as pessoas se posicionam, não ficam muito em cima do muro. E é muito orgânico esse posicionamento, uma percepção das artistas em relação ao momento que estamos vivendo”, acredita.

    A maior representatividade também contribui para um aumento no engajamento nas gerações mais novas da música. “Quando comecei minha carreira, há quase 20 anos, tinha só duas mulheres produtoras que me inspiravam na música. Hoje somos muitas mulheres trabalhando no mercado e inspirando jovens profissionais. Mas ainda não somos 50%”, pontuou Batistela.

    “As celebridades, incluindo as da música, têm uma visibilidade que gera um tipo de expectativa da audiência”, afirmou Adri Amaral, professora de pós-graduação em Comunicação da Unisinos e pesquisadora do CNPq. Quando uma personalidade deixa de se posicionar, contradizendo o discurso que vinha adotando, caso de Anitta, acontece uma ruptura que provoca reações dos fãs. “É como quando uma banda muda de estilo de som”, comparou a pesquisadora.

    Amaral lembra que engajamento e cobrança por posições existem na música popular desde a década de 1960. Uma das diferenças dos últimos anos é que, por conta da internet e das redes sociais, ele hoje acontece na esfera pop, de Anitta e Beyoncé, enquanto antes acontecia mais nos cenários alternativos.

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