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Qual a parte difícil da vitória fácil de Putin na Rússia

Conflitos armados e sanções marcam agenda de presidente que iniciará seu 4º mandato no Kremlin

 

A reeleição do presidente russo, Vladimir Putin, no domingo (18), com 76% dos votos, era esperada. O alto comparecimento às urnas, de 67%, também estava no horizonte do governo.

A incógnita está em como Putin, daqui em diante, manterá a imagem da “Rússia grande”, que une recuperação econômica ao protagonismo externo, a partir de uma política conflitiva e dispendiosa, marcada pelo atrito constante com adversários como os EUA e as principais potências europeias.

Hoje, Putin é um líder inconteste. Não existe na Rússia nenhum político capaz de rivalizar com ele. E, mesmo descontando os relatos de fraudes eleitorais, o apoio popular a ele é tão grande que seus adversários nem sonham com a chance de construir uma oposição verdadeira.

No domingo (18), Puin recebeu mais de 56 milhões de votos, convertendo-se no líder russo mais bem votado desde o fim da União Soviética, em 1991.

O novo mandato vai de maio de 2018 a maio de 2024 (6 anos). Entre os cargos de presidente e de primeiro-ministro, serão 25 anos ininterruptos no poder.

Depois da queda do czarismo, com a revolução de 1917, o tempo de Putin no poder só é menor do que o período do ditador Josef Stálin, que governou por 29 anos, de 1924 até 1953.

Mandatos de Putin

1999-2000

Como vice, assume a presidência por apenas um ano, após a renúncia do então presidente russo, Boris Yeltsin.

2000-2008

É eleito e reeleito presidente. Cumpre, portanto, seu primeiro mandato completo, por quatro anos. E repete o período em seguida.

2008-2012

Passa quatro anos como primeiro-ministro da Rússia, enquanto seu apadrinhado político, Dmitri Medvedev, assume a presidência.

2012-2017

Volta a eleger-se presidente, dessa vez com mandato de seis anos.

2018-2024

Vence a eleição presidencial no domingo (18) e inicia o que deve ser seu último mandato, caso a Constituição seja respeitada.

O sistema político da Rússia é do tipo semi-presidencialista. O presidente é eleito pelo voto direto. E, uma vez no cargo, nomeia quem será seu primeiro-ministro.

6 anos

É o tempo de mandato presidencial na Rússia

4

É o número de mandatos presidenciais de Putin, incluindo o mandato conquistado na eleição deste domingo (18)

25 anos

É o tempo que Putin terá passado ininterruptamente no poder – entre os cargos de presidente e de primeiro-ministro –, quando terminar, em 2024, o mandato presidencial conquistado neste domingo (18)

56 milhões

É o número aproximado de votos recebidos por Putin na eleição de domingo (18)

Os desafios do vencedor

Putin nunca teve dúvida de que ganharia. Muitos analistas e correspondentes internacionais compararam a eleição russa a um referendo, pois se tratava basicamente de votar contra ou a favor do presidente.

O segundo colocado, Pavel Grudinin, ficou bem atrás, com 11,9%. Daí para baixo, o índice foi quase inexpressivo: Vladimir Jirinovski (5,7%), Ksenia Sobchak (1,6%) e outros quatro com 1% cada.

O desafio da legitimidade

Uma vez que a vitória era dada como certa, a preocupação de Putin voltou-se para a legitimidade dessa vitória. Essa legitimidade viria com um alto percentual de comparecimento e com uma margem ampla de votos em relação aos adversários.

O presidente russo apostava numa fórmula numérica chamada 70/70 – na qual o ideal era reunir algo como 70% dos votos e 70% comparecimento.

O resultado ficou apenas um pouco abaixo em relação ao comparecimento (67%), mas bem acima em relação aos votos recebidos (76%).

O desafio da democracia

A democracia russa é vista com desconfiança no mundo. Putin é apresentado em jornais ocidentais como o ex-agente do serviço secreto russo que age para desestabilizar eleições em outros países e sufocar a oposição internamente.

Seu principal adversário político, o ativista Alexei Navalny, sequer pôde concorrer, dadas as diversas condenações na justiça russa, pelas mais diferentes razões. Navalny se diz perseguido político.

Em nenhum momento da campanha Putin participou de qualquer debate eleitoral televisionado com adversários. Ele também não apresentou qualquer plataforma ou plano de governo para disputar a eleição.

Há hoje na Rússia toda uma geração que nasceu sob Putin e nunca conheceu outro líder político. Nesta eleição, metade dos eleitores tinha mais de 45 anos. Apenas 9% tinham entre 18 e 25 anos.

O desafio da continuidade

Pela lei, Putin não pode concorrer a um novo mandato presidencial subsequente, após maio de 2024. Entretanto, ele tem a força política necessária – pois tem o apoio no Congresso e na sociedade – para promover uma reforma constitucional que mude essa regra eleitoral a qualquer momento.

Por enquanto, ele disse que não tem planos de se perpetuar no poder. Se isso for verdade, os próximos seis anos serão de busca por um sucessor, o que pode transformá-lo, ao fim do atual mandato, num “pato manco”, na avaliação de analistas como Neil MacFarquhar, chefe do escritório do jornal americano The New York Times em Moscou. A expressão “pato manco” é muito usada nos EUA para se referir ao presidente em fim de mandato que não pode ou não quer se reeleger.

O desafio econômico

Putin imprimiu a marca do grande recuperador da economia russa. Entre o fim da União Soviética, em 1991, e o último ano da Rússia sem Putin, 1999, o PIB (Produto Interno Bruto) per capita do país caiu 38%.

Quando ele chegou ao poder, o PIB per capita voltou a crescer. Em 2013, chegou ao valor recorde, de US$ 16 mil ao ano. Os pobres, que representavam 33,5% em 1992, passaram a representar 13,4% em 2016.

Porém, o país passou a ser alvo de pesadas sanções internacionais em 2014, após a decisão de anexar militarmente a Crimeia. As sanções estão restringindo o acesso de empresas russas ao crédito, com possível impacto cumulativo sobre o emprego e a renda.

Caberá a Putin negociar o fim do bloqueio, sem abrir mão das pretensões militares internacionais que incomodam europeus e americanos.

O desafio das guerras

Como potência nuclear de alcance global, a Rússia desempenha papel decisivo no conflito sírio, que completou em 2018 seu sétimo ano, sem solução à vista. E o conflito sírio, por sua vez, é importante para o arranjo de forças em todo o Oriente Médio.

O apoio militar ostensivo de Putin ao presidente sírio, Bashar al-Assad, garantiu a sobrevivência do regime e, em consequência, representou uma das maiores derrotas internacionais dos EUA e das grandes potências europeias, que pressionavam pela saída de Assad.

Essa conquista na política externa reavivou internamente a imagem de uma Rússia grande e influente, mexendo não apenas com o imaginário em relação aos tempos da Guerra Fria (1945-1991), mas, antes disso, ao czarismo, que vigorou no país por quase quatro séculos (1547-1917).

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