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Os sinais de que a imunidade piora na velhice pelo sedentarismo, não só a idade

Pesquisadores do King’s College London identificaram que ciclistas idosos produziam tantas células brancas de defesa quanto jovens sedentários

 

Uma das consequências do envelhecimento é a deterioração do sistema imunológico, que fica mais sensível a infecções e tem mais dificuldade em desenvolver defesas a vírus e bactérias e outros agentes nocivos, também chamados de antígenos. Essa dificuldade ocorre mesmo com o uso de vacinas.

Uma das principais causas desse enfraquecimento das defesas do corpo é a deterioração do timo, uma glândula que fica próxima à traqueia e é responsável pela produção dos linfócitos T. Os linfócitos T são um grupo de glóbulos brancos responsáveis exatamente pelo combate aos antígenos.

No geral, os estudos que tratam dessa decadência do sistema imunológico partem do pressuposto de que se trata de um processo inerente ao envelhecimento.

Um artigo científico publicado em março de 2018 na revista Aging Cell por pesquisadores do King’s College London argumenta, no entanto, que a maior parte dos idosos é sedentária, e que faltam dados a respeito do que acontece com o sistema imunológico daqueles que se exercitam regularmente.

O estudo analisou 125 ciclistas amadores de alto desempenho idosos e os comparou com jovens e idosos sedentários.

A conclusão foi de que muitos dos sinais de decadência do sistema imunológico não ocorriam entre os idosos fisicamente ativos, apesar de haver alguns pontos que sinalizavam decadência mesmo com a realização de atividades físicas.

Os cientistas afirmam terem encontrado, portanto, indícios de que uma parte considerável da decadência do sistema imunológico pode não ser inerente ao envelhecimento, mas sim ao sedentarismo que frequentemente o acompanha na sociedade contemporânea.

Com o envelhecimento, muitos se retiram do trabalho e de atividades sociais, além de se sentirem desestimulados a se exercitar. Essa ligação entre sedentarismo e um sistema imune mais frágil também existe entre os mais jovens.

O trabalho é intitulado “Grandes traços da imunossenescência, incluindo a produção tímica, são melhorados por altos níveis de atividade física na vida adulta”.

Ele conclui que apesar de haver pontos do sistema imunológico que pioraram mesmo entre os idosos ativos, “a inatividade física com a idade pode ser um profundo indutor de aspectos severos da imunossenescência [a deterioração do sistema imunológico com o envelhecimento]”, afirma o trabalho.

Como a pesquisa foi feita

Foram selecionados 125 ciclistas amadores de idades entre 55 e 79 anos, dos quais 84 eram homens e 41 eram mulheres que haviam praticado o ciclismo em grande parte de suas vidas adultas.

Como critério de seleção, os homens selecionados precisavam ser capazes de pedalar 100 km em menos de 6,5 horas. As mulheres precisavam ser capazes de pedalar 60 km em menos de 5,5 horas.

Para fins de comparação, também foram recrutados 75 idosos de entre 57 e 80 anos que não praticavam atividade física regularmente. Destes, 30 eram homens e 25, mulheres. E outros 55 jovens, de entre 20 e 36 anos que não praticavam exercícios físicos regularmente.

Foram realizadas análises de sangue dos participantes após um período de jejum.

Os pontos fortes dos idosos ciclistas

Mais linfócitos T CD4

A pesquisa identificou uma frequência de linfócitos T CD4 entre os ciclistas idosos superior à de idosos sedentários e equivalente à de jovens sedentários saudáveis. Tratam-se de células brancas recobertas pela glicoproteína CD4, e que têm entre seus papéis principais o de enviar sinais para outras células imunes para que venham ao resgate e destruam antígenos, como bactérias ou vírus.

Mais linfócitos T CD8

A pesquisa identificou uma frequência de linfócitos T CD8 entre os ciclistas idosos superior a dos idosos que não se exercitavam e mesmo à dos jovens sedentários saudáveis. Tratam-se de células brancas recobertas pela glicoproteína CD8, que têm entre suas funções eliminar antígenos e células danificadas ou infectadas por antígenos, em especial por vírus. Tanto o nível elevado de T CD8 quanto o das células CD4 foram classificados como 'marcantes e inesperados'.

Níveis mais altos de IL-7

A pesquisa encontrou entre os ciclistas idosos níveis mais altos da proteína interleucina 7 do que entre os que não se exercitavam e mesmo do que entre os jovens. Ela está relacionada à formação de linfócitos, ou células brancas, maduros. Por isso, uma presença maior pode ser um indício de que a capacidade do timo se manteve adequada.

Níveis mais baixos de IL-6

Foram encontrados entre os ciclistas idosos níveis mais baixos da proteína interleucina 6 em relação aos que não se exercitavam, porém um pouco mais altos do que entre os jovens. Ao contrário da IL-7, ela está relacionada à supressão da atividade do timo. Por isso, a presença menor pode ser um indício de que a capacidade do timo se manteve adequada.

Níveis mais altos de IL-15

Foram encontrados entre os ciclistas idosos níveis mais altos de interleucina 15 do que entre os idosos sedentários ou mesmo os jovens sedentários. Essa proteína está relacionada com a regulação do funcionamento do sistema imunológico, e contribui para a sobrevivência de linfócitos T virgens, ou seja, aqueles que ainda não entraram em contato com antígenos e têm potencial de se especializar em combater invasores que surgirem.

 

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