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O uso ilegal de dados do Facebook pela Cambridge Analytica. E o que há de novo

Caso ainda sob investigação nos EUA e no Reino Unido recai sobre coleta e uso indevido de dados de 50 milhões de americanos e envolve russos, Donald Trump e Brexit

Neste sábado (17), um esquema de coleta, venda e uso indevido de dados de milhões de americanos foi revelado por jornalistas do jornais The New York Times e Observer of London, ligado ao The Guardian. As reportagens relatam como a Cambridge Analytica – empresa fundada em 2013, conhecida por seus trabalhos para as campanhas pró-Brexit no Reino Unido e Donald Trump nos EUA – montou “psicográficos”, espécie de perfis baseados em traços da personalidade, de cerca de 50 milhões de americanos com o objetivo de formar opiniões e direcionar votos ao candidato republicano.

Investigações anteriores já haviam colocado luz sobre as atividades da empresa. Há pouco mais de um ano, em fevereiro de 2017, o Guardian, por exemplo, mostrava o interesse do bilionário americano Robert Spencer na empresa de inteligência britânica e de que maneira ela poderia direcionar a população britânica a adotar uma visão a favor da saída do país da União Europeia.

No entanto, fatos novos vieram à tona colocando mais detalhes sobre a mesa em uma situação que leva o Facebook a ser questionado mais uma vez sobre seu papel diante daquilo que vem sendo considerado uma intervenção nos processos democráticos nos EUA e no Reino Unido. Isso porque um antigo empregado da Cambridge Analytica chamado Christopher Wylie, um jovem prodígio de 28 anos, assentiu em abrir o jogo e revelar o que sabe, viu e fez em nome da empresa.

O que é a Cambridge Analytica

A Cambridge Analytica é uma empresa que faz análise de dados de comportamento para direcionar propagandas com uma finalidade, seja ela arrebanhar eleitores para um candidato ou consumidores para uma marca.

A empresa, criada pelo britânico Alexander Nix sob o guarda-chuva de uma companhia chamada SCL Group e com investimento da ordem de US$ 15 milhões do bilionário americano Robert Mercer, coleta dados e identifica o público-alvo das suas campanhas com base na lista de personalidades (saiba mais sobre o modelo “Ocean” aqui) desenvolvida pelo pesquisador, cientista de dados e psicólogo Michael Kosinski, da Universidade de Stanford.

Quem é Christopher Wylie

Wylie tinha apenas 23 anos quando começou a trabalhar para Steve Bannon, na época o executivo por trás do site de mídia americano e conservador Breitbart News. Em 2016, anos depois de Wylie cortar laços com o antigo empregador, Bannon se tornou o principal estrategista da campanha eleitoral de Donald Trump.

Nascido no Canadá, Wylie aprendeu a programar por conta própria e estudou Direito em Londres, para onde se mudou em 2010. O jovem se especializou em gerar previsões partindo da análise de dados. Inicialmente seu foco era a indústria da moda, mas logo passou para a política. Bannon apresentou Wylie a Alexander Nix, da SCL Groups, que ofereceu uma oportunidade de trabalho ao jovem em um projeto. Nascia ali a Cambridge Analytics.

O que foi feito

No centro de tudo, estava o interesse de Bannon em usar informação para moldar a opinião pública americana, a cultura do país e, por consequência, a política. Na visão dele, essas coisas estão atreladas, e nessa mesma ordem.

Para fazer isso, o empresário apostava no trabalho da Cambridge Analytics e suas “psyops” ou operações psicológicas. Como explica o Observer, ela faria isso “mudando a cabeça das pessoas não através da persuasão, mas por meio de ‘domínio informacional’, uma série de técnicas que incluem rumores, desinformação e fake news”.

“Ele queria armas culturais e nós podíamos construí-las para ele”, disse Wylie.

Em 2014, a empresa tinha Christopher Wylie, milhões de dólares e a missão de influenciar o cenário político americano a favor de Trump. Faltavam apenas os dados que permitissem determinar os “psicográficos” dos eleitores daquele país.

Foi então que a Cambridge Analytica se associou a uma empresa chamada Global Science Research, de Aleksandr Kogan, um pesquisador do departamento de psicologia da Universidade de Cambridge.

Kogan havia vendido um modo de conseguir em pouco tempo milhões de informações pessoais de usuários do Facebook, as quais poderiam ser usadas para traçar a personalidade de cada um deles.

Para isso, questionários – com perguntas sobre orientação política, QI, religião e temas de interesse – foram entregues a 320 mil pessoas por meio de uma aplicação desenvolvida por Kogan chamada thisisyourdigitallife (essa é a sua vida digital). Para responder, era preciso autorizar o acesso da aplicação ao seu perfil pessoal no Facebook. Em troca, os entrevistados recebiam pagamentos que variavam de US$ 2 a US$ 5.

Além de garantir acesso da aplicação ao próprio perfil, bem como o histórico de curtidas dado pelo usuário, os entrevistados permitiam que a Cambridge Analytica e Kogan tivessem acesso às informações pessoais de toda a sua rede de amigos. Partindo de uma média de 160 contatos por usuário do Facebook, a empresa de dados obteve assim informações pessoais de mais de 50 milhões de americanos.

As informações obtidas pelo questionário foram cruzadas com os dados obtidos pela análise dos perfis na rede social e, dessa forma, a Cambridge Analytica teria obtido informações refinadas dos usuários, aos quais poderia começar a direcionar mensagens e propagandas para as quais seus perfis apontassem ser mais suscetível do que outras – prática conhecida no mundo do marketing político como “microtargeting”.

Experimento antiético

“Nós quebramos o Facebook”, disse Wylie ao The Guardian, que classificou a prática como um “experimento extremamente antiético”. “Você está brincando com a psicologia de um país inteiro sem o consentimento ou ciência deles”, disse ele, acrescentando: “Você está brincando com a psicologia de um país inteiro no contexto de um processo democrático”.

O cientista de dados disse que em, alguns casos, até mensagens privadas podem ter sido coletadas e usadas na montagem dos perfis durante processo que durou de 2 a 3 meses para ser concluído.

Falando sobre o que chama de “guerra de informações”, Wylie explicou as vantagens de se obter tais dados. “Se você pode controlar todos os fluxos de informação sobre seus oponentes, você pode influenciar como eles vão perceber esse espaço de batalha e você pode prever como eles vão se comportar e reagir”, disse.

“Nós saberíamos a que tipo de mensagem você é suscetível”, continuou Wylie. “Incluindo o enquadramento do assunto, os temas, o conteúdo, o tom, se acharia assustador ou não. [Saberíamos] ao que você é suscetível e como consumiria aquilo. [E também] quantas vezes a gente precisaria tocar você com aquele tema de forma a mudar o modo como você pensa sobre um assunto”, afirmou.

O jovem cientista de dados disse que sites e blogs foram criados com o intuito de criar conteúdo direcionado para essas pessoas e suas “suscetibilidades”.

Wylie comparou a vantagem da prática de microtargeting a um orador falando em uma praça pública a um grande número de pessoas diferentes, tentando convencê-las a aderir à sua narrativa. A prática adotada pela Cambridge Analytica era mais eficiente, segundo ele, pois conseguia “sussurrar uma coisa no ouvido de um eleitor e outra coisa para outro eleitor”.

“Estamos arriscando fragmentar a sociedade de forma que não teremos mais experiências compartilhadas e entendimentos comuns. Se não temos mais entendimentos comuns, como podemos ser uma sociedade funcional?”, disse.

Envolvimento russo

Além do seu próprio depoimento, o cientista de dados Christopher Wylie divulgou documentos como cópias de e-mail que incluem uma demonstração do trabalho da Cambridge Analytica à petroleira russa Lukoil, em 2014.

“Aquilo não fazia o menor sentido para mim”, disse ainda ao jornal britânico. “Eu não entendi nem o e-mail, nem a apresentação que nós fizemos. Por que uma empresa de petróleo russa gostaria de direcionar informações a eleitores americanos?”. O trabalho em questão seria compartilhado com o diretor da empresa, Vagit Alekperov, um antigo ministro soviético associado a Putin, de acordo com o The Guardian.

Durante uma audiência no parlamento britânico que investiga a disseminação de fake news (notícias falsas), Alexander Nix refutou que sua empresa tenha trabalhado para empresas russas. Nix também negou ter ido adiante com o trabalho feito em parceria com a empresa Global Science Research, de Kogan. “Tivemos uma relação com a GSR. Eles fizeram uma pesquisa para nós em 2014. A pesquisa se mostrou infrutífera e por isso a resposta é não [sobre o envolvimento entre eles].”

Os Estados Unidos atualmente investigam uma série de ações controladas por agentes russos que teriam influenciado os resultados das eleições de 2016, que resultaram na vitória de Trump sobre a democrata Hillary Clinton.

O que pesa contra o Facebook

Com a divulgação feita  no sábado (17), as ações do Facebook caíram 8,1%. No sábado (17), a empresa negou que os dados tenham sido roubados da base de dados da plataforma.

“Aleksandr Kogan pediu e teve acesso às informações dos usuários que optaram por aderir ao seu aplicativo, todos os envolvidos deram seu consentimento”, e reforçou que “nenhum sistema foi infiltrado, nenhuma senha ou partes de informações sensíveis foram roubadas ou hackeadas”, diz o comunicado. A rede social diz que Kogan solicitou aprovação do seu aplicativo dizendo se tratar de uma pesquisa a ser usada por psicólogos, mas quebrou as políticas da empresa ao repassar as informações a terceiros.

“Quando soubemos da violação em 2015, nós removemos o aplicativo do Facebook e exigimos certificações de Kogan e de todas as partes a quem ele entregou os dados de que a informação havia sido destruída”, diz o Facebook. No sábado, a empresa também suspendeu as contas e qualquer relação com a SCL e a Cambridge Analytica, incluindo as contas pessoais de Christopher Wylie.

“Isso é a coisa mais inacreditável para mim”, disse Wylie. “Eles esperaram dois anos e não fizeram absolutamente nada para checar se os dados realmente haviam sido deletados. Tudo o que eles me pediram foi para assinalar um formulatório e devolvê-lo pelo correio”. De acordo com o seu depoimento, diversas cópias dos dados colhidos foram feitas pela Cambridge Analytica.

Em um novo comunicado publicado nesta segunda-feira (19) o Facebook diz ter contratado um especialista para fazer um auditoria na Cambridge Analytica para assegurar que os dados tenham realmente sido excluídos. Além disso, a rede social esclareceu que, pelas políticas atuais, a solicitação de um aplicativo como o de Kogan por informações de amigos de um usuário não seria mais permitida pelo Facebook.

A rede social é ainda criticada por não ter notificado agências reguladoras voltadas à proteção de dados pessoais sobre o uso indevido das informações na época em que a prática foi descoberta. Em diversos estados americanos, incluindo a Califórnia, onde fica a sede do Facebook, há legislações que obrigam as empresas a alertar o governo em caso de vazamento.

Por fim, a rede social recomenda que seus usuários revisem todos os aplicativos já autorizados por eles a terem acesso a seus perfis por meio do item “Configurações de aplicativos”.

Mais investigação

Na esteira das novas informações, membros dos governos americano e britânico anunciaram investigações sobre a Cambridge Analytica e seu envolvimento nos eventos políticos dos dois países.

No Reino Unido, a agência reguladora de dados pessoais disse nesta segunda (19) que buscarão um “entendimento amplo dos fatos, do fluxo de dados e do uso feito das informações” coletadas.

No parlamento britânico, o conservador Damian Collins já disse que convocará novamente Alexander Nix para depor posto que “ficou claro que ele deliberadamente enganou o comitê e o Parlamento”.

Nos Estados Unidos, o chefe das investigações sobre a possível interferência da Rússia sobre as eleições americanas, Robert Mueller, solicitou ainda na quinta-feira (15) pelos registros de e-mail da Cambridge Analytica sobre o presidente Donald Trump.

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