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Este estudo afirma que o Uber só é barato porque os motoristas ganham mal

Executivo da empresa na Austrália diz que quem sabe se aproveitar bem dos preços dinâmicos consegue faturar mais

     

    O aplicativo Uber, que conecta passageiros a motoristas, chegou ao Brasil em 2014 e já conta com mais de 500 mil carros em mais de 100 cidades. Essa é apenas uma fração do alcance da empresa, que chega a 78 países e é fonte de trabalho para mais de 3 milhões de motoristas.

    A companhia é de capital fechado, portanto não é obrigada a divulgar dados de desempenho. Mas, segundo números divulgados seletivamente pelo Uber, o faturamento bruto com as corridas atingiu US$ 37 bilhões em 2017, um aumento estrondoso de 85% frente ao ano de 2016.

    O aumento do alcance da companhia não significa, no entanto, saúde financeira. Esses números são de faturamento bruto, não lucro, e o Uber teve prejuízo recorde em 2017.

    Os motoristas não são contratados diretamente nessa ampliação. Eles assinam um acordo de prestadores de serviço autônomos e arcam com os custos de adquirir e manter seus carros. O Uber se define apenas como uma empresa de tecnologia, uma “ponte” entre o motorista e quem precisa se locomover, não um empregador.

    Ele seria apenas uma plataforma que une uma constelação de pequenos negócios, não uma empresa de transportes.

    A empresa defende que se agigantou por ser capaz de gerar eficiência econômica, ligando passageiros a pessoas dispostas a dirigir. O Uber teria ganho espaço por viabilizar o atendimento de uma demanda reprimida por transporte eficiente e confortável, e por ser capaz de garantir renda a motoristas independentes dispostos a trabalhar.

    Dessa maneira, afirma o Uber, as cidades em que atua se tornam mais “acessíveis", ou seja, mais fáceis de circular.

    Esse ponto de vista é, no entanto, questionado. Em 2016, uma corte britânica decidiu que, por definir e controlar diversos aspectos sobre como os motoristas devem trabalhar - o preço cobrado e a conduta profissional, por exemplo -, o Uber seria na verdade um empregador, e não uma mera “ponte” entre oferta e demanda.

    Por isso, foi condenado a pagar direitos trabalhistas a dois motoristas britânicos que haviam ingressado com processos na Justiça. A empresa apelou contra a decisão, perdeu e continua lutando na Justiça. O mesmo tipo de embate ocorre em outros países. No Brasil, a Justiça tem decidido favoravelmente ao Uber.

    Muitos dos que acreditam que a empresa deve ser considerada um empregador defendem que seu grande trunfo é, na verdade, ter criado um tipo inusitado de relação de trabalho que ainda não é explicitamente coberto pela legislação trabalhista. Sob este ponto de vista, a empresa usa novidades tecnológicas para explorar brechas legais.

    Ainda de acordo com essa visão, isso permite que os executivos faturem sobre o trabalho dos motoristas sem pagar pela compra, depreciação e manutenção do carro, pela gasolina, assim como férias, seguro saúde, horas extras, salário mínimo e outros direitos consolidados na maioria das economias em que o Uber atua.

    Muitos questionam se o modelo de negócios não estaria levando à erosão dos padrões de trabalho, em especial em países desenvolvidos, onde a aplicação das leis trabalhistas é em geral mais consolidada.

    Uma análise publicada em março de 2018 pelo instituto de pesquisas The Australia Institute comparou os ganhos de motoristas do Uber em seis cidades da Austrália com o salário mínimo previsto pela legislação do país. A entidade se define como um think tank financiado a partir de doações e dedicada à análise e promoção de políticas públicas em prol de uma sociedade “justa, sustentável e pacífica”.

    A conclusão foi de que, para os seus motoristas, o Uber rende menos do que o salário mínimo nacional. E que este é um fator essencial para manter a companhia mais competitiva do que os tradicionais taxistas. Intitulada “Subsidiando Bilionários”, a análise afirma que os motoristas estão, na prática, subsidiando a multinacional e seus proprietários.

    De acordo com o estudo, se os preços cobrados subissem o suficiente para pagar o salário mínimo, “quase toda a vantagem de preço do UberX relativa a táxis tradicionais desapareceria”.

    A instituição recomenda que políticos australianos modernizem a legislação trabalhista para que iguale as proteções garantidas a motoristas de Uber àquela garantida aos outros trabalhadores da Austrália.

    “O modelo de negócios do Uber - em que seus trabalhadores são artificialmente definidos como negócios independentes - ajuda a disfarçar os sacrifícios financeiros que motoristas fazem para permitir que esse modelo funcione.”

    Estudo ‘Subsidiando Bilionários’, publicado em março de 2018 pelo The Australian Institute

    Em resposta ao estudo, o gerente geral do Uber para a Austrália, David Rohrsheim, não negou a existência de motoristas que ganham menos do que o salário mínimo.

    Ele argumentou, no entanto, que motoristas podem ampliar os seus ganhos se aproveitando dos chamados “preços dinâmicos”. Um valor mais alto do que a média é praticado nos momentos em que há grande demanda da parte dos passageiros.

    “Os motoristas sabem disso, e os mais espertos acessam o aplicativo nas horas certas e nas áreas certas para faturar alto.”

    David Rohrsheim

    Gerente geral do Uber para a Austrália, em entrevista à Australian Broadcasting Corporation

    Como o trabalho foi feito

    O trabalho comparou as taxas de Uber com as de táxi em um tipo de corrida que definiu como “típica”, de 10 km e 22 minutos em seis cidades australianas - Sydney, Melbourne, Brisbane, Perth, Adelaide e Canberra. Há diversos tipos de corrida no Uber, e o estudado foi o mais conhecido, chamado de “UberX”, em que há espaço para quatro passageiros.

    O preço estimado para as viagens de Uber se baseou em dados publicados pela própria companhia. Os preços das corridas de táxi foram estimados com base na regulação dos preços em cada cidade.

    40%

    Maiores eram os preços dos táxis em comparação com o UberX

    A pesquisa afirma que o preço cobrado pelo Uber varia de acordo com cada cidade, mas sempre acompanha, em grande medida, o cobrado pelos táxis em cada uma delas. Invariavelmente, é mais barato. “Isso é consistente com a conclusão de que o UberX estabeleceu suas taxas com a meta de superar as taxas de táxi por uma margem significativa em cada mercado local”.

    Em seguida, a pesquisa estima os custos e o ganho líquido dos motoristas com base nas taxas cobradas pela empresa, o custo da gasolina, os custos de depreciação e manutenção dos carros, seguro e a cobrança de impostos e taxas governamentais.

    Custos adicionais, como conta de telefone e internet e amenidades para os passageiros, como garrafas d’água e balinhas, não foram incluídos. A pesquisa aponta a parcela da receita que é repassada ao Uber, mas não destrincha, por outro lado, como essas receitas são gastas pela companhia.

    34,8%

    É a proporção da receita que fica com os motoristas australianos após a contabilização de todos esses gastos

    A renda dos motoristas e o salário mínimo

    O salário mínimo na Austrália é de 18,29 dólares australianos por hora. Quando se leva em consideração o tempo que os motoristas de Uber ficam ociosos entre uma viagem e outra, eles faturam, em média, 14,62 dólares australianos, de acordo com o trabalho. “Outros estudos estimaram a renda líquida de entre 10 e 15 dólares australianos”, afirma o documento.

    A diferença seria ainda maior caso se levasse em consideração que a legislação trabalhista garante pagamento extra para o trabalho em final de semana, feriados e de madrugada, condições em que motoristas do Uber frequentemente trabalham.

    A pesquisa ressalta que o sistema de “preços dinâmicos” do Uber em tese pode aumentar o pagamento aos motoristas em situações em que há muita demanda. Estes ganhos não foram, no entanto, contabilizados pelo trabalho. “Não se pode contar com essa renda ‘dinâmica’, à medida que motoristas não podem controlar ou saber quando (ou mesmo se) esse sistema será ativado.”

    Distribuição dos ganhos na Austrália

    Pelos cálculos do trabalho, para que os ganhos dos motoristas atingissem o salário mínimo australiano seria necessário que o valor pago pelo serviço aumentasse 37%, o que praticamente anularia a vantagem do Uber.

    “Em outras palavras, o subsídio efetivo que os motoristas de Uber garantem à companhia por meio de sua provisão de salários baixos é responsável quase que pela totalidade dos preços baixos que o Uber tipicamente cobra”, afirma a pesquisa.

    O trabalho ressalta que, mesmo com essas vantagens, o Uber ainda não é uma empresa lucrativa. A empresa afirma que perdeu US$ 4,5 bilhões em 2017.

    “Os custos de rápida expansão para novas cidades e países, seus contínuos investimentos em software e marketing, e suas tentativas de crescer em linhas tangenciais de negócios (incluindo entrega de fast food, aluguéis de veículos, serviços de compartilhamento de carros, e mesmo tecnologias sem direção) continuam a afundar a companhia no vermelho.”

    Estudo ‘Subsidiando Bilionários’, publicado em março de 2018 pelo The Australian Institute

     

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