A série brasileira que entrevista personalidades negras contemporâneas

Primeira temporada de ‘Afronta!’, com 26 episódios, está disponível on-line. Leia entrevista com sua idealizadora e 4 trechos de depoimentos de entrevistados

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    A primeira temporada completa da série “Afronta!”, com 26 episódios, está disponível desde o dia 5 de março no site da TV Preta e no YouTube. Pode-se assisti-la on-line, gratuitamente.

    Com direção da cineasta Juliana Vicente, foi produzida pela Preta Portê Filmes  – produtora fundada por Vicente – em coprodução com o Canal Futura, no qual também vem sendo exibida.

     

    Cada episódio tem cerca de 15 minutos de duração e entrevista artistas, empreendedores e produtores culturais negros: entre eles, as cantoras Xenia França, Anelis Assumpção e Liniker, os rappers Tássia Reis e Rincon Sapiência, a atriz, dramaturga e diretora teatral Grace Passô, a bailarina Ingrid Silva, o artista multimídia Benjamin Abras, e os cineastas Yasmin Thayná e André Novais.

    Dos relatos de vivências pessoais surgem questões de pertencimento, ancestralidade, representatividade, racismo e afrofuturismo, um movimento estético, político e crítico que cria narrativas alternativas e fantásticas para as experiências das populações negras no passado, no presente e no futuro, na definição da pesquisadora Kênia Freitas.

    Histórias convergentes

    “A gente é realizador e também consumidor de audiovisual. Quando estamos pensando no que queremos dizer, também pensamos no que gostaríamos de ouvir que não ouvimos antes, sobretudo na televisão”, disse a realizadora Juliana Vicente ao Nexo.

    Em 2016, Vicente teve contato com o projeto Afrotranscendence, criado pela designer Diane Lima, que reunia artistas negros contemporâneos. A partir dali, pensou em expandir o alcance de algumas vozes.

    “Eu e a Diana Costa [que participou da concepção do projeto] conversávamos muito sobre as oportunidades que estavam fazendo com que essa geração de pessoas negras se destacasse, entendendo que a visibilidade é um problema histórico para os negros”, disse. 

    Segundo Vicente, os comentários mais frequentes sobre Afronta! são “essas pessoas existem?”,  “onde elas estão que eu nunca vi?”, “nossa! são muito inteligentes”, vindo sobretudo das pessoas brancas, diz a diretora. “É impressionante como a nossa existência vista ainda impressiona. Retratar nós mesmos e as nossas histórias garante um frente a frente, um olho no olho, que o espectador sente.”

    A somatória dos relatos de “Afronta!” compõe uma narrativa que converge e se complementa, de acordo com Vicente.

    “A verdade é que existe muita convergência porque, de fato, temos muito pouco conhecimento sobre nossas histórias passadas, mas dividimos a certeza de um passado comum, que atravessa uma diáspora africana. E todos nós sabemos as consequências disso. Também é ponto comum, dentro do recorte da série, que são pessoas fortes, autônomas, inspiradoras e que possuem um grande poder de transformação”, disse em entrevista. 

    4 trechos de entrevistas do Afronta!

    “Quem ainda se alimenta de todo o benefício de estruturas tão injustas não deve entender muito bem por que, com tanta opressão, a gente acha as brechas, a gente consegue sair. Se uma pessoa que estava amarrada em um navio com corrente, com mordaça, conseguiu sair, a gente não vai conseguir? O plano de fuga já está traçado. A gente não vai voltar, não vai regredir. A seta só aponta para frente.”

    Xenia França

    No episódio 14

    “Eu estava andando em um segmento de arte contemporânea e teatro onde muitas vezes eu era o único negro. Um amigo meu, olhando meus desenhos, disse: ‘Você só desenha negros?’. ‘Não’. Olhei para os meus desenhos e não tinha percebido que eu só desenhava negro. Não existe ainda um estudo sobre a filosofia de arte que parte de artistas como nós. Isso a gente está criando agora.”

    Benjamin Abras

    Artista

    “Quando eu estava estudando na escola de teatro e tinha que fazer uma cena do Tchekov, mesmo Shakespeare – eu nunca me identifiquei com os personagens. O imaginário que estava por trás daqueles textos clássicos, aqueles personagens, aquelas roupas, era completamente estrangeiro para mim. Nada disso fazia parte do meu imaginário simbólico. Isso é tão nítido para mim hoje. Só que não existia como falar isso. Num primeiro momento, o que me vinha era que eu tinha uma dificuldade, então eu tinha que dar um jeito naquilo. A [dramaturga] Leda Maria Martins falou outro dia em uma palestra: “como negra brasileira, a gente é obrigada a falar pelo menos três línguas”. (...) Na escola, eu fui tentar conquistar a língua do outro.”

    Grace Passô

    No episódio 12

    “Quando eu comecei a fazer rap, eu tinha meus 15 anos e os caras que tinham grupos de rap eram muito mais velhos e muito militantes também. Tem essa parada do mais velho cobrar do mais novo: “já leu Malcolm X? Canta rap e não leu Malcolm X?”. Então, já adolescente eu li Muhammad Ali, Steve Biko, Malcolm X. O rap me formou muito nesse lance.”

    Rincon Sapiência

    No episódio 03

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