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O que Marielle Franco representa no Brasil de 2018

Críticas a cobertura ‘excessiva’ e ‘comoção seletiva’ têm surgido como parte da reação nas redes ao assassinato da vereadora

 

O assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL) na noite de quarta-feira (14) gerou intensa comoção nas redes sociais e levou milhares de manifestantes às ruas de mais de dez cidades brasileiras no dia seguinte.

Marielle foi morta a tiros, no centro do Rio, no trajeto de volta de um debate com jovens negras, dias após ter denunciado, nas redes sociais, a truculência de uma operação do 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio na comunidade de Acari.

Presidente da República, pré-candidatos ao Palácio do Planalto e até deputados do Parlamento Europeu reagiram ao fato. A repercussão na imprensa internacional foi grande.

Há um grupo de pessoas, porém, que questiona o espaço dado ao caso, dizendo se tratar de “comoção seletiva”. A crítica quase sempre vem acompanhada do argumento segundo o qual outras mortes violentas recentes não causaram tanta mobilização.

Um post do pastor Cláudio Duarte, que cita o assassinato de uma jovem médica no Rio de Janeiro após uma tentativa de assalto, diz que a vítima “não preenchia os requisitos necessários para uma mobilização nacional, tampouco que merecesse a menor atenção dos direitos humanos”.

O assassinato ocorreu em 2016 e foi noticiado por vários veículos de comunicação. A ala de uma maternidade na baixada fluminense recebeu o nome da médica em homenagem.  

Comoção e cobertura

Para a colunista do jornal Valor Econômico Maria Cristina Fernandes, a cobertura do crime ganhou amplitude, em grande parte, pela intervenção militar em curso no Rio de Janeiro.

Como relatora da comissão da Câmara Municipal que deveria fiscalizar a intervenção, Marielle estava diretamente envolvida nesse cenário.

O estado e a cidade ocupam, segundo ela, uma posição de visibilidade privilegiada em relação a outras localidades do território. Para Fernandes, isso explica, inclusive, a escolha do Rio de Janeiro para a intervenção do exército. Pedidos como esse já tinham sido feitos por outros estados em anos anteriores, mas não se concretizaram.

“Acho que não havia só eleitores do PSOL, nem só solidários à causa negra, feminina e favelada ali [nas ruas]. O flagelo da violência não é só do Rio, é do Brasil inteiro. Quando você vê uma pessoa como a Marielle sendo morta como ela foi, é uma catarse coletiva do desespero, [faz pensar] onde isso vai dar, se uma pessoa que luta contra isso é morta dessa maneira. O que vai ser de todos nós? E agora, quem é que vai dar rumo a isso? Essa comoção se explica por essa morte simbolizar esse nosso desespero, essa nossa inação.”

Maria Cristina Fernandes

Colunista do Valor Econômico

Os múltiplos significados da figura de Marielle

Identidade

Marielle era mulher, negra e estava casada com uma mulher. Sua identidade quanto ao gênero, raça e orientação sexual representa uma intersecção de grupos historicamente marginalizados.

“O impacto da figura dela é imensurável. A última vez que a gente teve uma mulher negra dentro da Câmara [dos vereadores do RJ] foi há dez anos”, disse David Miranda, vereador também eleito pelo PSOL em 2016, em entrevista ao Nexo.

Dos 811 vereadores eleitos em capitais brasileiras, Marielle era uma entre 32 mulheres negras.

“Ontem vi centenas, milhares de Marielles lá fora, muitas mulheres negras chorando pelo corpo dela, porque sabiam que era ela a representação real, na carne, do que é ter uma favelada, preta, LGBT dentro da Câmara, que gritava por elas”, disse Miranda. “Ela fazia estardalhaço por todo mundo que sofria e morria nas favelas, nada mais justo do que o mundo inteiro fazer por ela.”

“Negra, feminista, popular, defendendo as mulheres lésbicas, defendendo as identidades trans, falando das mulheres de terreiro (...) Hoje eu tô nesse campo e fico muito feliz da trajetória de minha construção de vida, que não pode ser só a construção individual. Vem muito antes desse ano e alguns meses de mandato; é que nossos passos vêm de longe, mesmo”, disse Marielle, durante a roda de conversa Mulheres Negras Movendo Estruturas, de que participou pouco antes de ser morta.

Origem

A vereadora nasceu e cresceu na comunidade da Maré. Concluiu o ensino médio em uma escola pública, o Colégio Estadual Professor Clóvis Monteiro, no período noturno. Aos 18 anos, engravidou e precisou interromper os estudos para cuidar da filha, sem o apoio do pai.

“Fui aluna de pré-vestibular comunitário em 1998, foi o ano que eu engravidei. Não fugindo da estatística no primeiro momento, mas depois fugindo, conseguindo criar a Luyara e mudar a perspectiva da vida”, disse Marielle em um vídeo da Mídia Ninja de 2016, quando estava em campanha.

Em 2002, após retomar os estudos em um cursinho popular da Maré, entrou no curso de ciências sociais da PUC do Rio em 2002 e, com bolsa integral, se formou socióloga.

Em 2005, uma amiga próxima de Marielle foi morta por bala perdida em um tiroteio entre policiais e traficantes na Maré. O acontecimento a aproximou dos direitos humanos e das denúncias que marcariam seu ativismo.

Renovação política

Em 2016, ela foi a quinta candidata mais votada entre os 51 vereadores eleitos no Rio de Janeiro. Foram 46,5 mil votos na primeira eleição que disputou.

A “tríade” de sua campanha, declarou como candidata na época, era a intersecção entre gênero, raça e cidade. A questão da violência policial nas comunidades também era uma de suas pautas desde o início de sua militância.

Miranda vê o sucesso da candidatura como consequência da “Primavera das Mulheres”, mobilização feminista que levou as brasileiras às ruas em 2015.

O anseio por representação política feminina, uma das reivindicações levantadas por elas, teria encontrado eco na plataforma de Marielle, que, no exercício de seu mandato, levou adiante pautas feministas: a criação do dia da mulher negra e da visibilidade lésbica no calendário oficial do Rio, tratamento humanizado para mulheres que praticam aborto legal.

“As mulheres olharam para uma candidata feminista, negra, empoderada, de favela, e votaram nela. Teve votos de favela, e muitos votos de mulheres”, disse Miranda ao Nexo.

“Os poderosos do Brasil temem nossa força e querem asfixiar as conquistas que vieram das lutas populares, tentando estreitar as frestas democráticas existentes”, escreveu Marielle no blog #AgoraÉQueSãoElas, na Folha de S. Paulo. “Mas nós, mulheres, negras, das periferias, ponta de lança das transformações e de um mundo melhor, vamos enfrentar esse disparate autoritário. Porque nós somos potência, somos coletividade, somos capazes de transformar profundamente a política.”

Marielle seria anunciada, em breve, vice-governadora pelo partido, compondo a chapa com Tarcísio Motta. Ambos foram os vereadores do PSOL eleitos com maior número de votos no município na última eleição.

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