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O assassinato de Marielle Franco num Rio sob intervenção em 4 pontos centrais

Vereadora do PSOL foi morta a tiros. Polícia trabalha com hipótese de execução. Deputados do partido falam em ‘crime político’

 

A vereadora Marielle Franco fazia do combate ao racismo e à violência policial contra moradores de comunidades do Rio suas bandeiras. Na noite de quarta-feira (14), ao voltar de um debate com jovens negras, a vereadora pelo PSOL foi morta a tiros, no Estácio, região central do Rio.

Ela estava no carro quando um outro veículo se aproximou e seus ocupantes começaram a atirar. Nenhum pertence foi levado. O motorista da vereadora, Anderson Pedro Gomes, também morreu. Uma assessora de Marielle, que estava ao seu lado, sobreviveu.

Até o momento, a Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio trabalha com a hipótese de execução. Em nota, o PSOL pediu apuração “imediata e rigorosa” e afirmou que a hipótese de crime político não deve ser descartada. A Anistia Internacional Brasil e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Rio também cobraram rápida apuração.

Local do assassinato

 

O Palácio do Planalto ofereceu o apoio da Polícia Federal para as investigações. O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, também afirmou que acompanhará o caso pessoalmente. O ministério foi criado em fevereiro pelo presidente Michel Temer, logo após o anúncio da intervenção federal na segurança do Rio em razão da escalada dos registros de violência na capital e em cidades do estado. Nesta quinta-feira (15), Temer afirmou que a morte da vereadora foi ato de “extrema covardia” e que o “crime não ficará impune”.

Quem é Marielle Franco

Marielle exercia seu primeiro mandato na Câmara, para o qual foi eleita em 2016, com 46.502 votos, a quinta maior votação para o Legislativo municipal. Aos 38 anos e mãe de uma filha de 19 anos, ela teve uma trajetória dedicada aos direitos humanos.

Marielle era socióloga, formada pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio e mestre em Administração Pública pela UFF (Universidade Federal Fluminense).

Antes de assumir o mandato na Câmara, trabalhou em organizações como o Centro de Ações Solidárias da Maré, complexo de favelas no Rio, e a Brasil Foundation. Ao lado do deputado estadual Marcelo Freixo, em 2009, ela integrou a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio como assessora.

“Iniciei minha militância em direitos humanos após ingressar no pré-vestibular comunitário e perder uma amiga, vítima de bala perdida, num tiroteio entre policiais e traficantes no Complexo da Maré”

Marielle Franco

vereadora pelo PSOL, em relato em seu site pessoal

Na Câmara, a vereadora integrava o bloco de oposição ao governo de Marcelo Crivella (PRB). Era uma das sete mulheres entre os 51 parlamentares.

Marielle defendeu projetos voltados à saúde da mulher e à educação, tendo como perspectiva a ampliação da rede de atendimento a mulheres pobres.

Em setembro de 2017, a Câmara aprovou um projeto de autoria de Marielle que propôs a ampliação das Casas de Parto em áreas de vulnerabilidade social da capital, para a realização de acompanhamento das gestantes e partos normais.

Como ela atuava na questão policial

Como militante e vereadora Marielle dedicava-se também à questões da segurança pública, em especial a abordagem policial em comunidades. Sua dissertação de mestrado, “UPP: a redução da favela a três letras”, tratou da atuação das Unidades de Polícia Pacificadora no Rio, projeto implantado pelo governo estadual a partir de 2008.

A UPP teve por objetivo ocupar morros e comunidades como parte de uma estratégia de combate ao tráfico de drogas e à violência. Marielle acompanhou parte dessa política na Maré, complexo de 16 comunidades na zona norte do Rio, onde nasceu e foi criada.

Experiências pessoais da vereadora pautaram seu posicionamento e as críticas à atuação policial, considerada abusiva por Marielle, em especial contra jovens negros. “Quantos jovens precisarão morrer para que essa guerra aos pobres acabe?”, escreveu a vereadora, na terça-feira (13), ao comentar a morte de um homem de 23 anos por policiais militares.

No sábado (10), a vereadora usou suas redes sociais para denunciar a ação do 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio na comunidade Acari, zona norte da capital. O batalhão está entre os recordistas de registros de mortes, de acordo com o ISP (Instituto de Segurança Pública).

“Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior”

Marielle Franco

em post publicado no Facebook no sábado (10)

Após a intervenção federal na segurança do Rio, Marielle foi escolhida como relatora da comissão da Câmara organizada para acompanhar as ações federais, que estão sob o comando do general do Exército Walter Braga Netto.

Crítica da intervenção, a vereadora considerava a medida ineficaz e questionava a ausência de políticas consolidadas voltadas à educação, cultura e lazer.

Qual a linha de investigação

 

Ao menos nove tiros foram disparados contra o carro em que a vereadora estava. Integrantes do partido e familiares disseram desconhecer se a vereadora vinha sofrendo algum tipo de ameaça.

“Ela incomodava pequenas e grandes máfias”, afirmou, sem entrar em detalhes, o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) à BBC Brasil.

Das informações tornadas públicas até o momento, o que se sabe é:

  • Ao menos quatro tiros atingiram Marielle. Os disparos foram na direção da vereadora, sentada no banco traseiro.
  • O carro onde Marielle tinha os vidros escurecidos, o que indica que os autores sabiam previamente da posição dos passageiros, o que reforça a suspeita de execução.
  • Os criminosos fugiram sem levar nenhum objeto das vítimas.
  • A polícia solicitou imagens de câmeras de segurança do entorno onde o assassinato ocorreu. 
  • Além da assessora de imprensa de Marielle, que sobreviveu ao ataque, uma segunda testemunha, não identificada, prestou depoimento à Polícia Civil.

O motorista morto durante a abordagem estava na linha de tiro, segundo policiais, e foi atingido na lateral das costas. Anderson Pedro Gomes estava fazendo “bico”, substituindo o motorista regular de Marielle, conforme relatou a esposa Ágatha Arnaus Reis.

“É um crime contra a democracia, contra todos nós, não podemos deixar que isso se naturalize”

Marcelo Freixo

deputado estadual pelo PSOL

O que diz o interventor federal

As polícias Civil e Militar estão sob o comando do interventor federal. Ou seja, quem comanda a segurança pública do Rio é o presidente Michel Temer via seus interventores militares.

Por meio de nota, o general-interventor Braga Netto afirmou que “repudia” ações criminosas e que está em “contato permanente” com o secretário de Segurança.

O governo federal colocou a Polícia Federal à disposição, mas até o momento as investigações seguem com a Divisão de Homicídios. Na manhã desta quinta-feira (15), o chefe da Polícia Civil, delegado Rivaldo Barbosa, se reuniu com Freixo e o titular da Divisão de Homicídios, delegado Fábio Cardoso.

Prestes a completar um mês na função de interventor federal, Braga Netto tentará, até 31 de dezembro de 2018, dar uma resposta à escalada de violência no Rio.

Nesse período, o general mudou postos de comando das políticas e oficiais do Exército têm feito ações de policiamento em comunidades e presídios. Nas poucas entrevistas que concedeu, o general afirmou que um dos propósitos da intervenção é combater o crime organizado e a corrupção nas polícias.

Ao jornal Folha de S.Paulo, por escrito, ele afirmou que a ação policial será insuficiente se não vier acompanhada de projetos de inclusão social e melhora dos serviços públicos.

“O interventor tem diante de si um dos seus maiores desafios desde que a medida foi adotada, não deixar esta morte impune”

Renato Lima

sociólogo e diretor presidente do Fórum Brasileira de Segurança Pública, em declaração ao O Estado de S. Paulo

NOTA DE ESCLARECIMENTO: A primeira versão deste texto trazia o nome da assessora da vereadora que sobreviveu ao ataque. A fim de preservar sua segurança, o nome foi posteriormente retirado do material.

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