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As obras de ficção científica escritas por mulheres dos séculos 17 ao 20

Tradição literária de autoras que criaram narrativas utópicas e questionadoras de papéis de gênero é resumida por uma lista on-line

     

    Uma lista hospedada no site da biblioteca da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, enumera autoras inglesas e americanas de utopias e obras de ficção científica, que datam a partir de 1621. Textos de algumas delas estão disponíveis em inglês, linkados na própria lista.

    A ficção científica escrita por mulheres, com viés feminista, tem se popularizado recentemente a partir de adaptações audiovisuais de algumas obras, como é o caso de “O Conto da Aia”, da canadense Margaret Atwood e, inclusive, de edições brasileiras de obras de Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), Ursula K. Le Guin (1929-2018) e Octavia Butler (1947-2006).

    Sob o título “Pre-1950 Utopias and Science Fiction by Women – An Annotated Reading List of Online Editions” (Utopias e Ficção Científica escrita por mulheres pré-1950  – uma lista de leitura anotada de edições on-line, em tradução livre), a lista faz uma retrospectiva de uma “tradição literária ocidental contínua desde o século 17 até o presente”.

    Trata-se da tradição de mulheres que escreveram sobre um lugar melhor, imaginando, com frequência, mundos em que desempenham outros papéis na sociedade.

    Segundo o livro de ensaios “Utopian and Science Fiction by Women: Worlds of Difference”, de 1994,  organizado pela americana Carol A. Kolmerten, muitas dessas mulheres, sobretudo as de séculos mais longínquos, continuaram essa tradição tendo tido acesso a poucos ou a nenhum texto semelhante já escrito por outras autoras. Os ensaios buscam estabelecer relações entre essas narrativas. 

    A partir da publicação – que é descrita em sua introdução como a primeira de que se tem conhecimento “a defender que estas ficções dialogam historicamente entre si e juntas formam uma tradição literária de mulheres” – o Nexo selecionou abaixo 7 autoras e obras que fazem parte desta linhagem literária.

    Margaret Cavendish, Duquesa de Newcastle (1624?-1674)

    Foto: Domínio Público
    Retrato de Margaret Cavendish
     

    Nobre, Cavendish foi escritora e filósofa. A obra “The Description of a New World, Called the Blazing-World” (Algo como “A descrição de um novo mundo, chamado mundo em chamas” também citado simplesmente como “Mundo em chamas”), de 1668, é situada no Polo Norte, onde uma imperatriz recebe “poder absoluto para governar o mundo inteiro de acordo com a sua vontade”. Com esse poder, o primeiro feito da imperatriz é convocar cientistas e filósofos de seu tempo para discutir e especular sobre a natureza das coisas. Em seguida, ela decide instituir uma “Assembleia de Mulheres”, para educar as mulheres de seu império.

    De acordo com o livro, os textos utópicos de mulheres surgem de um movimento, na Europa do século 17, justamente pela educação feminina, com alguma influência da tradição utópica até então produzida por autores homens.

    Sarah Scott (1723-1795)

    Foto: Domínio Público
    Sarah Scott em 1744
     

    Também inglesa, Scott publicou nove obras – todas sob pseudônimo masculino ou anonimamente. Entre elas, “A description of Millenium Hall and the Country Adjacent”, de 1762, é a mais conhecida. Ela narra as aventuras vividas pelos habitantes de Millenium Hall até chegarem a esta terra utópica habitada por mulheres, onde a propriedade é compartilhada e a educação é o principal passatempo.

    Na hipótese do livro “Utopian and Science Fiction by Women”, Scott pode ter se inspirado nos escritos da autora inglesa do início do século 18, Mary Astell. Scott apresentou uma crítica amarga à sociedade do século 18, assim como “alternativas para o tradicional enredo dos romances do século 18 e 19, centrados no casamento”.

    Mary Shelley (1797-1851)

    Foto: Domínio Público
    Retrato de Shelley, por Richard Rothwell (1840)
     

    Talvez a mais conhecida da lista, Shelley é a autora de “Frankenstein ou O Prometeu Moderno”, de 1818, e “O Último Homem”, de 1826, entre outros títulos de uma obra variada e relativamente vasta, que inclui poemas, histórias infantis e relatos de viagem.

    Shelley nasceu em Londres e é filha da filósofa Mary Wollstonecraft, autora da obra “Reivindicação dos Direitos da Mulher”, que denuncia as restrições impostas a meninas no acesso à educação formal. O livro é reconhecido como um dos documentos que serviram de base para o desenvolvimento do movimento feminista.

    No século 19, de acordo com o livro, a literatura utópica e de ficção científica escrita por mulheres passa a incorporar “soluções científicas para problemas sociais” e a criar histórias com maior participação de mulheres em cargos públicos e nos negócios, refletindo pautas do feminismo do século 19, como assegurar, para as mulheres, direitos de propriedade, ao sufrágio, ao divórcio e a ter uma carreira.

    “Frankenstein” deu origem a uma nova versão do romance gótico: o romance científico, que apresenta uma visão crítica dos resultados da ciência e da tecnologia evidenciados pela Revolução Industrial e transformados, no romance, em uma história de terror.

    De modo semelhante, “O Último Homem” cria um mundo em um futuro não tão distante, por meio do qual a escritora explora os limites da ciência com a chegada de uma praga. Em um ensaio do livro, a acadêmica Naomi Jacobs declara “Frankenstein” a obra mais influente de ficção especulativa já escrita por uma mulher.

    Charlotte Perkins Gilman (1860-1935)

    Foto: Domínio Público
    Charlotte Perkins Gilman por volta de 1900
     

    Americana, feminista, socióloga, Gilman é autora de textos de não-ficção, contos, romances e poemas. No campo da ficção utópica, publicou em 1915 o romance “Herland”, que ganha edição em português em 2018 pela editora Via Leitura, e outras obras, como “What Diantha Did” e “Moving the Mountain”. “Herland” trata de uma civilização perdida de mesmo nome, composta somente por mulheres, descoberta por três exploradores homens.

    Lillian B. Jones (1886-1965)

    Seu romance “Five Generations Hence” (“Daqui cinco gerações”, em uma tradução livre), de 1916, é provavelmente o primeiro romance utópico escrito por uma mulher negra americana.

    Ambientado no Texas em 1899, conta a história de Grace Noble, uma professora negra de 28 anos, descendente de escravos. Noble publica uma obra na qual defende que os negros americanos migrem para a África, onde, dali a cinco gerações, alcançariam uma existência utópica. Outros personagens seguem o manifesto da autora fictícia, mas ela própria permanece onde está, devido ao trabalho do marido. 

    Joanna Russ (1937-2011)

    Também americana, Russ publicou obras de ficção científica, crítica literária, além de importantes escritos feministas sobre a pornografia. Seu romance mais conhecido é o satírico e utópico “The Female Man” (“O homem-fêmea” ou “feminino”, em tradução livre), escrito em 1971 e publicado em 1975. O livro apresenta quatro perspectivas da experiência de uma mulher sobre o mundo, incluindo um universo utópico exclusivamente feminino, chamado Whileaway.

    Para Russ, a ficção científica é a literatura do “e se?” (“what if literature”, no original), perfeita, na concepção da autora, para “explorar (e explodir) nossos pressupostos sobre valores ‘inatos’ e arranjos sociais ‘naturais’, sobre as diferenças entre homens e mulheres, estruturas familiares, sexo e papéis de gênero”.

    Ursula K.Le Guin (1929-2018)

    Foto: Wikimedia Commons
    Ursula K. Le Guin em 2008
     

    Assim como Russ, a americana Le Guin experimenta com a androginia, ou, na terminologia atual, características intersexuais nos personagens, como solução utópica para a desigualdade entre gêneros.

    Entre sua bibliografia de ficção científica, utopia e fantasia, estão “A Mão Esquerda da Escuridão”, de 1969, e “Os Despossuídos”, de 1974. Ambos fazem parte da série da autora chamada de “Hainish Cycle”, que aborda o contato entre diferentes civilizações interplanetárias no futuro, e os conflitos e desafios surgidos de suas relações diplomáticas.

     

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