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As lições de urbanismo da favela mais antiga de Buenos Aires

Prefeitura quer transformar Villa 31 em bairro regular. Especialistas do projeto ressaltam aspectos positivos já existentes na comunidade

     

    A Villa 31 é a maior e mais antiga favela de Buenos Aires. Com cerca de 40 mil habitantes, o dobro de 15 anos atrás, a área fica perto do centro da capital argentina. Em 2017, a prefeitura anunciou um plano de transformar a comunidade em um bairro regular.

    A tarefa é complexa: não há quase ruas asfaltadas, a eletricidade é fornecida via “gatos” e a maior parte das casas não conta com água potável e esgoto. Cerca de 37% das residências não têm uma cozinha e um quarto delas não têm banheiro. Além disso, a área enfrenta os problemas de mobilidade urbana e criminalidade típicos de assentamentos urbanos desse tipo.

    Para redesenhar a área, a administração municipal contratou o escritório de arquitetura e urbanismo do dinamarquês Jan Gehl, conhecido por projetos de urbanismo inovadores ao redor do mundo. O trabalho vem sendo conduzido por uma equipe que inclui arquitetos, engenheiros, sociólogos e especialistas em políticas públicas.

    Em um texto para site Next City, dois urbanistas envolvidos com o projeto relacionaram o que enxergam de positivo na comunidade e que pode servir de insumo para o projeto de reurbanização. “Há mais pessoas caminhando, pedalando e passando tempo em atividades de socialização, brincadeiras e olhando outras pessoas do que nos seis bairros [da cidade] que estudamos”, escreveram Jeff Risom e Marya Madriz.

     

    Os urbanistas ressaltam, entretanto, que não procuram “romantizar” um ambiente caracterizado por pobreza e dificuldades. Por outro lado, consideram importante “elevar os valores e potências da comunidade” para que estejam presentes também na nova versão do bairro, além de servir de aprendizado para outros projetos semelhantes.

    Veja abaixo os cinco pontos destacados pelos urbanistas.

    A proximidade importa

    Ao contrário de programas de moradia do governo ou empreendimentos privados, a Villa 31 oferece a famílias de baixa renda e imigrantes a oportunidade de morar perto de seus empregos, serviços e amenidades da cidade. De acordo com os urbanistas, “na Argentina, assim como nos EUA e Europa, existe uma demanda não atendida por moradia com preços acessíveis que fique próxima a locais com oferta de emprego”. A oferta de residências com preços mais baixos se limita às periferias, cujos moradores têm de gastar “tempo valioso em uma viagem sem sentido”.

    Uma vizinhança pode ser densa e com escala humana

    Para os pesquisadores, a forma compacta e as ruas estreitas da comunidade oferecem um respiro para o barulho e agitação das grandes avenidas de tráfego intenso. A maior parte dos prédios da Villa 31 tem menos que cinco andares. As ruas têm largura entre três e 16 metros, “gerando uma rede de ruas estreitas compartilhadas com um microclima agradável”. De acordo com os urbanistas, a densidade de ocupação das quadras da comunidade, com andares térreos “ativos”, garantem que há sempre “olhos na rua”. As passagens de largura variável também permitem a existência de pequenas praças e locais de encontro. E vielas servem como atalhos que permitem mais opções de caminhos aos pedestres.

    As ruas podem ser locais públicos alegres e seguros

    Estreitas e movimentadas, as vias da Villa 31 forçam os motoristas a circular em velocidade baixa dentro da comunidade. Para os urbanistas, cria-se um ambiente social que é mais seguro e silencioso que outras áreas da cidade em que o automóvel é a prioridade. As ruas do local se tornam lugares de “trocas casuais e encontros frequentes”. As crianças podem brincar na frente de casa sozinhas, “estando a um grito de distância de um adulto”. Idosos podem viver de modo autônomo e conectados à comunidade em cômodos térreos de fácil acesso à rua. Famílias se sentam em frente às casas para conversar.

    Arquitetura flexível gera oportunidades econômicas

    Os urbanistas destacam as possibilidades de ascensão social e empreendedorismo que comunidades com a Villa 31 proporcionam. Um portão ou janela de frente para a rua pode virar uma pequena loja. Ideias de negócio podem ser testadas sem os custos de se alugar um espaço comercial. As moradias também permitem adaptações para abrigar outros familiares ou sublocatários. Os especialistas lembram que, para pessoas que não participam do sistema financeiro, “uma casa maior se torna tanto uma forma de poupança quanto um fonte de receita”. De acordo com a apuração dos urbanistas, um em cada cinco prédios na Villa 31 abriga um negócio, incluindo mercados, cibercafés, cabeleireiros, lavanderias, lanchonetes e dentistas.

    A personalidade molda o lugar

    No texto dos urbanistas, eles ressaltam que projetos habitacionais geralmente colocam as pessoas em módulos habitacionais padronizados e enfileirados de modo ordenado. Alterações exteriores são desencorajadas ou proibidas por ferirem o projeto arquitetônico. Nas comunidades, entretanto, os habitantes podem imprimir sua personalidade nas habitações. “Uma caminhada atenta na vila revela o orgulho que muitas pessoas têm de suas casas, à medida em que escolher cores e preferências que refletem seus gostos e preferências.”

     

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